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A cultura negra brasileira não é puramente africana, mas o resultado de uma adaptação feita pelos escravos da África e por seus descendentes.

Helena Theodoro

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22/9/2022 | Atualizado às 18:33

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A Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa busca a valorização e o respeito às religiões de matrizes africanas. Foto: Rozangela Silva Santos

A Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa busca a valorização e o respeito às religiões de matrizes africanas. Foto: Rozangela Silva Santos
Domingo ensolarado, com um céu azul encantando a todos que estavam na praia de Copacabana. Muitos banhistas e muita gente de branco, Vermelho, preto ou estampado, trazendo seus cânticos de paz e de encontro, na décima quinta caminhada contra a intolerância religiosa no Rio de Janeiro, promovida pelo Babalaô Doutor Ivanir dos Santos. Esta caminhada busca o encontro do povo brasileiro consigo mesmo, em sua diversidade e riqueza, proposta presente nos movimentos populares que influenciaram a Constituição de 1988, pensada pelos movimentos negros e indígenas, voltados para a construção de uma nacionalidade brasileira que possibilite a inclusão de todos os que povoam nossos territórios: indígenas, negros, brancos, mestiços, imigrantes. Todos os pensadores brasileiros do século XIX assumiram as posições da ciência de seu tempo, apoiando as teorias racistas e defendendo a superioridade da raça branca, advogando a degenerescência da mestiçagem e a inferioridade antropológica do negro. Somente em 1947   Nunes Pereira escreve o livro A Casa das Minas, onde procura provar a pureza e a riqueza do culto Gegê, indo contra as ideias dos demais autores. Nunes Pereira busca mostrar todo um processo civilizatório negro-africano, lutando não apenas contra os estudiosos da cultura afro-brasileira, mas também contra a posição dos historiadores sociais, como Oliveira Viana, que adotou a posição de que os negros eram incapazes de alcançar a civilização. [caption id="attachment_551875" align="alignleft" width="620"] Helena Theodoro segura faixa com os dizeres: "Ser preto não é uma sentença é a minha essência". Foto: Rozangela Silva Santos[/caption] Cada povo, cada civilização, cada cultura, possui valores e padrões peculiares, relativos à sua história, seus instrumentos de trabalho e seu ritmo próprio. No entanto, ao se comparar umas com outras pode-se notar diferenças, mas nunca desigualdade, já que hoje não se pode aceitar mais a ideia de uma cultura ser superior ou inferior a outras, pois o ser humano não pode viver sem cultura. Pode-se afirmar, assim, que a cultura designará uma forma de relacionamento com o real, com a possibilidade de se abolir a universalização das verdades, possibilitando-se as diferentes regras do jogo humano. No século XIX vimos emergir um padrão de hierarquização racial que, ao fim e ao cabo, estrutura o racismo como ideologia até a nossa atualidade.  O racismo que se estrutura àquela época tem como consequência moldar um conceito de cultura baseado na visão indiferenciada do humano. O Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, de Gobineau, que parte de teses biológicas do monogenismo da espécie, para concluir pela sobrevivência das mais fortes: para eles, as raças “puras”. Mas o racismo vai se apoiar também na identidade branca e na universalização de seus valores. Essas ideias encontraram grande acolhida na sociedade brasileira, que vem aprisionando o negro numa série de estereótipos de implicações muito amplas, tais como reforçar a incompatibilidade básica entre as culturas euro-brasileira e afro-brasileira. Para Roger Bastide “a luta racial assumiu o aspecto de uma oposição entre duas morais, ou entre a moral e a imoralidade”.  Assim, aceitando-se a afirmativa de Bastide sobre o conflito cultural brasileiro, pode-se dizer que entre essas duas culturas conflitantes existe uma linha. A linha de comportamento é a que governa a relação colonizador/colonizado. Assim, acima da linha do comportamento fica a cultura europeia, que se liga ao Brasil urbano, industrial, que adota valores e tradições europeias. É a cultura da elite dominante ou do colonizador. Abaixo da linha de comportamento fica a cultura negra, ponto de encontro campo/cidade, da classe baixa do subúrbio ou da favela, que adota valores e tradições afro-brasileiras. É a cultura do dominado. [caption id="attachment_551876" align="alignright" width="675"] A cultura afro-brasileira reuniu aspectos de diferentes localidades do continente africano. Foto: Rozangela Silva Santos[/caption] O nacionalismo cultural vai se inspirar na cultura do dominado, que fica abaixo da linha de comportamento e que é a antítese do ideal europeu. Seus porta-vozes não são necessariamente negros, muito pelo contrário. Geralmente são brancos, que assumiram uma posição nativista, a fim de expressar suas opiniões contra as normas culturais impostas pela elite dominante, num processo de descolonização cultural. Em nosso país é utilizado inteiramente o modelo universal de cultura concebido pela Europa, adotando-se para os segmentos populacionais que formam o país, e que ficam abaixo da linha de comportamento, apenas o conceito de cultura, negando-se o de civilização. A ideia de civilização implica num processo evolucionista e universal, já que, segundo Freud, civilização seria a maturidade científica do indivíduo, caracterizada pela renúncia aos impulsos instintivos do prazer e pela aceitação das exigências da realidade objetiva. Desta forma, mito, religião e ciência convertem-se, nesta ordem, em etapas evolutivas da cultura, gerando a gradação que iria do “mais primitivo” para o “mais civilizado”.  Em consequência, ao adotar-se tal modelo no Brasil, negou-se sempre um processo civilizatório índio ou negro, e julgou-se sempre superior a cultura branca, dominante, hegemônica. A fala liberal e progressista pode reconhecer e apreciar a diferença, enquanto essa mantém a IDENTIDADE DA DIFERENÇA e a distância. Isto ocorre porque a aproximação permite uma ameaça de sedução à identidade branca, obrigando-a a realizar a divisão do lugar de onde fala. Assim, a antropologia moderna produz discursos liberais sobre a alteridade, mas mantém o domínio da distância, assegurando a aceitação do que considera viável, como ficou demonstrado com o termo misticismo, que no Brasil encobre um conflito entre as duas possibilidades extremas de tal conceito, já que foi inventado por brancos para descrever o intercâmbio de culturas e grupos étnicos na formação de uma cultura nacional integral e de um sentimento de comunhão espiritual. No Nordeste o misticismo teve enorme força pela realidade social local, já que o escravo fugitivo que escapava e aparecia de tempos em tempos, tinha um pacto com o demônio. A fusão do mito com a realidade, na imaginação popular, aparece também em forma de verso, com o objetivo de criar uma dicotomia entre a humanidade branca cristã e a bestialidade negra pagã. Criou-se na sociedade brasileira uma defesa contra a inevitável tendência de fusão e integração com o Brasil africano, encontrando-se tradicionalmente a proclamação de uma identidade latino-portuguesa. Para Guerreiro Ramos, a maior barreira para a integração e autorrespeito dos negros no Brasil era o ideal branco existente em nossa cultura e a aceitação de valores europeus de beleza tanto por parte dos brancos como dos negros. [caption id="attachment_551879" align="alignleft" width="573"] Intelectuais negros reúnem-se na caminhada em defesa da liberdade religiosa. Foto: Rozangela Silva Santos[/caption] Os intelectuais negros brasileiros acreditam que a integração das culturas europeia e africana no Brasil pode ser alcançada não pelo suicídio racial e cultural dos negros, mas através de sua coexistência com os brancos em um ambiente de dignidade e autorrespeito., como o que verificamos na Caminhada contra a Intolerância Religiosa, que demonstra respeito mútuo e aceitação da diversidade humana e da pluralidade da fé. A cultura negra brasileira não é puramente africana, mas o resultado de uma adaptação feita pelos escravos da África e por seus descendentes, dos vestígios culturais africanos aos modelos brancos europeus da classe governante. Essa reposição cultural se irradia através das comunidades-terreiros de umbanda e candomblé, dos blocos afro, afoxés, escolas de samba, blocos de embalo e grupos musicais, como pudemos observar neste domingo ensolarado de caminhada conjunta. Diferentemente do que o Ocidente busca em seu relacionamento com o real – uma verdade universal e profunda – a cultura negra é, segundo Sodré, uma CULTURA DE APARÊNCIAS.  A caminhada pela Avenida Atlântica é a aparência deste futuro, marcando a viabilidade desse encontro. As imagens nos mostram líderes religiosos trazendo sua fé, pedindo paz, amor e harmonia. Todas as formas de cânticos foram apresentadas e respeitadas. Representantes de muçulmanos, judeus, católicos, evangélicos, maçons, budistas, umbandistas, indígenas, enfim, todos os representantes da variada e diversificada nação brasileira estiveram presentes, propalando que é viável o canto de paz e o respeito entre pessoas que vivem num mesmo país, com variadas origens, ancestralidades e muita fé.  Estamos em pleno século XXI, com propostas de construção conjunta e variada que representem fidedignamente o país diversificado e rico em que vivemos.  
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
 
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