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Marcus Pestana
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Memória
24/1/2026 8:00
"Há homens que lutam um dia, e são bons; há outros que lutam um ano, e são melhores; há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons; porém há os que lutam toda a vida, estes são os imprescindíveis".
— Bertolt Bercht
Raul Jungmann era um desses imprescindíveis. Perdi um dos maiores amigos que fiz na política. Inteligente, competente, humano, coerente, íntegro. Raul era uma referência especial para mim e um dos meus interlocutores mais constantes. Ele teve alta do hospital na sexta, dia 16. Eu tinha combinado de visitá-lo no sábado. Uma gripe radical me impediu. Remarcamos para quarta-feira. Fiquei arrasado. Raul nos deixou na segunda. Não pude ver meu amigo uma última vez.
Pessoalmente, o último encontro foi num sábado de setembro de 2025, quando almoçamos com os jornalistas da Confraria Orlando Brito, no Lakes. Um grupo de jornalistas da velha guarda e do bom jornalismo, que ele chamava carinhosamente de Butantã. Como queríamos conversar sobre mais uma crise institucional que atormentava a República, saímos de lá e fomos tomar um café na 113 Sul. Depois o levei em casa. Recordo também a bonita homenagem que o IDP fez a ele como Doutor Honoris Causa, em maio de 2025, quando a luta já instalada contra o câncer não o impediu de fazer mais um belo discurso.
Falávamos sempre. Em novembro, tivemos um debate virtual com ele, patrocinado pela Roda Democrática, sobre segurança pública, em torno da operação ocorrida no Rio. Ele mais uma vez foi brilhante, claro, sereno, profundo, como pai do SUSP, um dos maiores formuladores da área, o primeiro e único ministro da segurança pública do Brasil.
Era um pernambucano porreta, corajoso, firme. Por outro lado, era um doce de pessoa, de educação e elegância inigualáveis, sempre gentil e generoso, um coração do tamanho do mundo. Tenho orgulho de ser coautor com ele e o Subtenente Gonzaga do substitutivo que revia, de forma sensata e equilibrada, o Estatuto do Desarmamento, em 2015, e que o radicalismo não deixou prosperar. Fazíamos parte de um grupo experiente que se reunia semanalmente na casa do Heráclito Fortes ou em restaurantes de Brasília, apelidado pela imprensa de G8, que teve um papel importante nos turbulentos tempos dos governos Dilma e Temer. Raul era querido ou respeitado por todos. Grande orador. Pensador arguto, formulador de qualidade. Até os adversários eventuais o admiravam.
Ele me concedeu, como Ministro, a Ordem do Mérito da Defesa, e na solenidade, mais uma vez, fez um discurso brilhante e denso. Brinquei com ele, seu refrão vou usar à esmo: "dentro da Constituição, tudo, fora da Constituição, nada". Assim foi que um ex-comunista granjeou a simpatia e a admiração dos comandantes das Forças Armadas. Compartilhávamos as mesmas angústias com os caminhos e descaminhos da República e da democracia brasileiras. Não acredito que vou perder aquela voz calma, pausada, consistente e cirúrgica, que diante de minhas perplexidades e desesperanças, soltava sempre um "Marquinhos, vejamos…" e elencava ponderações que não deixavam a toalha ser jogada. Era um dos meus melhores parceiros. O Brasil anoiteceu mais pobre no último domingo. Raul, foi se encantar em outros planos, mas continuará a nos iluminar com o seu exemplo de vida aqui na terra.
Adeus, irmão!
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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