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Diálogo de gigantes: uma aula de respeito e democracia

Polarização reduz espaço para debate e contrasta com experiências de convivência democrática.

Marcus Pestana

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13/4/2026 16:00

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Concluí a leitura de "O Horizonte, conversas sem ruído entre Sanguinetti & Mujica" (Alejandro Ferreiro e Gabriel Pereyra - organizadores, L&PM Editores). Confesso que senti uma ponta de inveja em relação ao Uruguai e seu povo. No Brasil, os espaços de diálogo estão cada dia mais estreitos. As bolhas ideológicas não conversam entre si, não ouvem os argumentos divergentes, digladiam, polarizam de forma estéril, não para fazer do debate um caminho para a construção de consensos, mas para alargar as distâncias e desqualificar os adversários.

No plano global, vemos um Trump déspota oferecer ao mundo tempos obscuros e de instabilidade permanente. Às vezes, se assemelhando a uma criança jogando WAR, ameaçando invadir a Groelândia e Cuba, anexar o Canadá, ridicularizando os parceiros europeus que compartilham a OTAN, sequestrando o ditador venezuelano em seu território nacional, atropelando o Congresso americano e a Suprema Corte, entupindo suas redes sociais com falas e bravatas intolerantes e violentas. Nesta semana, os limites foram rompidos com a supostamente devastadora ameaça, com hora marcada, de exterminar a secular civilização persa e a população iraniana, caso o Estreito de Ormuz não fosse imediatamente liberado. Mais uma vez, teve que recuar.

"O Horizonte" nos transporta para um outro universo. Dois estadistas, ex-presidentes do Uruguai, um liberal, outro socialista, dialogando de forma profunda, respeitosa, democrática, densa, lúcida sobre os mais diversos temas da vida. Conversam sobre tudo: política, economia, filosofia, história, destinos do Uruguai, futuro do mundo, família, administração pública, desafios contemporâneos, entre outros assuntos.

O experiente e extremamente preparado Julio María Sanguinetti foi presidente do Uruguai em dois mandatos (1985-1990, 1995-2000) pelo Partido Colorado, organização de centro-direita. Foi ele que anistiou José Mujica por sua militância nos Tupamaros, organização guerrilheira de resistência à ditadura. Pepe Mujica presidiu o país de 2010 a 2015, tendo se candidatado pela Frente Ampla, movimento progressista de esquerda. Tornou-se uma referência internacional por seu carisma, simplicidade e profundidade de suas reflexões.

Ambiente polarizado transforma adversários em inimigos e empobrece a construção de consensos.

Ambiente polarizado transforma adversários em inimigos e empobrece a construção de consensos.Freepik

Impossível reproduzir aqui a riqueza do diálogo entre os dois estadistas uruguaios, de correntes ideológicas diferentes, nos seis encontros promovidos pelos jornalistas organizadores. Neles, apesar das eventuais divergências políticas, dão sucessivas mostras de carinho pessoal e respeito.

Deixo apenas duas passagens que encarnam a sabedoria dos dois e o conteúdo do livro. A certa altura, disse Sanguinetti: "O erro é acreditar que a democracia é um sistema perfeito e, em segundo lugar, achar que a democracia garante um bom governo, porque isso depende dos cidadãos. O que a democracia garante é a liberdade de nos livrarmos de um governo de que não gostamos por meio de um método pacífico".

Em outro trecho, Pepe Mujica revela sua visão de vida: "Para mim, a frugalidade é uma maneira de viver (...). Porque se eu deixar que as necessidades se multipliquem ao infinito, tenho que viver para cobrir essas necessidades e não me sobra tempo para fazer as coisas que me motivam (...). Pobre é quem precisa de muito".

Para quem gosta da boa política, vale muito a leitura.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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