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Brasil 2070: que legado queremos deixar?

Entre crises, estagnação e baixa capacidade de investimento, o país perdeu espaço econômico enquanto emergentes aceleraram seu desenvolvimento.

Marcus Pestana

Marcus Pestana

16/5/2026 8:00

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O Brasil, de 1980 a 2025, prisioneiro da armadilha de renda média, viu o PIB per capita global ultrapassar o PIB per capita brasileiro. Em 1980, a riqueza brasileira gerada por nossa economia em um ano, dividida pela população, era de US$ 4.427. Em 2025, foi de US$ 23.381. Ou seja, teve um crescimento de apenas 428%. Enquanto isso, o PIB per capita global foi de US$ 3.380 para US$ 26.189. Um incremento de 675%. No mesmo período os países que já eram ricos tiveram um crescimento de 625% e os países emergentes avançaram 1.128%.

Esses dados são com dólares comparáveis, calibrados pelos organismos internacionais. Perdemos os 15 anos anteriores ao Plano Real em sucessivas crises cambiais e nos fracassados planos de combate à hiperinflação. Insistimos num modelo fechado de desenvolvimento – que deu certo de 1930 a 1980 – sem entender a globalização que ocorria e usufruir de seus potenciais benefícios. Depois, estabilizamos a economia, controlamos a inflação, começamos as reformas estruturais, privatizamos, modernizamos, tivemos ventos favoráveis no boom das comodities. Mas voltamos a errar. Em 2015, foi a ultrapassagem do indicador mundial em relação ao brasileiro, em plena recessão vivida no Governo Dilma, com a economia brasileira dando marcha ré e colhendo crescimento negativo de 3,5% e 3,3%, em 2015 e 2016.

A polêmica sobre crescer e distribuir não é nova. É famosa a frase do ex-ministro Delfim Neto, em pleno Milagre Brasileiro, quando o Brasil crescia a exuberantes taxas anuais de crescimento, como os 14% de 1973, que ao ser questionado sobre a péssima distribuição de renda, cravou: "Primeiro, é preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo".

O avanço dos gastos sociais sem expansão consistente da produtividade e dos investimentos aprofundou a armadilha da renda média brasileira.

O avanço dos gastos sociais sem expansão consistente da produtividade e dos investimentos aprofundou a armadilha da renda média brasileira.Magnific

A partir da Constituição de 1988, as forças democráticas procuraram combater as desigualdades, dividir o bolo. Hoje, os gastos sociais levam a maior parte do orçamento. No entanto, os investimentos - sementes do crescimento da economia - despencaram. O Novo PAC – conjunto de ações estratégicas para o desenvolvimento – representam apenas 1,1% do Orçamento da União. Não adianta crescer sem dividir, mas também não resolve dividir sem crescer. Continuaremos estagnados e seremos ultrapassados por outros países, como nos últimos 45 anos.

Aproximam-se as eleições presidenciais. Os candidatos deveriam responder à esta questão: qual é o Brasil que queremos em 2070? Qual é o país que queremos entregar aos nossos netos daqui a 45 anos? E não nos perdermos numa discussão polarizada, rasa, radical e de baixa qualidade, eivada de idiossincrasias ideológicas, onde predominem denúncias e acusações mútuas, onde o protagonismo seja do Banco Master e não do projeto nacional de desenvolvimento.

A eleição é uma oportunidade rara de mobilização e debate nacional. Que predomine a discussão profunda sobre a inserção do Brasil num mundo hegemonizado por EUA e China, a revolução educacional inconclusa, o desenvolvimento científico-tecnológico na era da IA e da robótica, as oportunidades oferecidas pelos minerais críticos, a retomada vigorosa dos investimentos em infraestrutura, a melhoria do ambiente de negócios, o aprimoramento do SUS e o combate sem tréguas ao crime organizado.

Podemos escolher o pântano das baixarias ou o debate qualificado sobre cenários de desenvolvimento nacional. A escolha é nossa. Mas o futuro dos nossos netos depende dela.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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