Entrar

    Cadastro

    Notícias

    Colunas

    Artigos

    Informativo

    Estados

    Apoiadores

    Radar

    Eleições 2026

    Quem Somos

    Fale Conosco

Entrar

Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosEleições 2026RadarPrêmio
  1. Home >
  2. Colunas >
  3. "Por favor, aplaudam": a retórica do aplauso eleitoral | Congresso em Foco

Publicidade

Publicidade

Receba notícias do Congresso em Foco:

E-mail Whatsapp Telegram Google News
LEIA TAMBÉM

Thiago Brandão

Nas eleições, é possível enganar o eleitor dizendo apenas a verdade

Eleições 2026

"Por favor, aplaudam": a retórica do aplauso eleitoral

A estrutura de discursos políticos indica à plateia o momento de reagir — e essa reação influencia quem assiste de fora.

Thiago Brandão

Thiago Brandão

28/8/2026 14:00

A-A+
COMPARTILHE ESTA COLUNA

Em fevereiro de 2016, durante um encontro eleitoral no estado americano de New Hampshire, Jeb Bush tentou definir o perfil que desejava para o próximo presidente dos Estados Unidos. Disse que ele deveria ser menos ruidoso, mas capaz de mostrar que o país estava preparado para agir em defesa da segurança nacional e de um mundo mais pacífico. Depois de uma pausa, a sala continuou em silêncio. Bush então acrescentou: "Please clap" — por favor, aplaudam.

A repercussão da cena se deve ao que ela expôs: uma convenção que costuma permanecer implícita. Em comícios e convenções partidárias, o desejo de provocar aplausos é comum; o embaraço de Bush nasceu da necessidade de formular o pedido. Na maior parte das vezes, a instrução já está presente na frase.

O psicólogo Peter Bull examina o mecanismo em Claps and Claptrap, artigo que reúne décadas de pesquisas sobre a interação entre oradores e plateias políticas. Seu ponto de partida é tratar o discurso como uma forma particular de diálogo, e não como monólogo. O político fala durante quase todo o tempo, enquanto o público dispõe de poucas maneiras de tomar a palavra: pode aplaudir, rir, gritar, entoar palavras de ordem ou vaiar.

Numa conversa, o fim de uma frase permite que outra pessoa comece a falar. Num discurso, certas construções ajudam a plateia a antecipar o momento em que poderá responder. Bull apresenta um repertório de onze dispositivos usados com essa finalidade. Quatro deles são suficientes para revelar a lógica do conjunto.

A lista de três itens cria uma sequência cujo término pode ser previsto: quando chegam o terceiro elemento e a pausa, o público reconhece um ponto de conclusão. O contraste organiza a frase em duas partes semelhantes e opostas — o passado e o futuro, os adversários e nós, o fracasso e a mudança —, de modo que a segunda completa a primeira. No dispositivo problema-solução, o orador apresenta uma dificuldade ou uma pergunta e, pouco depois, oferece a resposta que deseja ver aplaudida. O anúncio-conclusão funciona de maneira parecida: expressões como "vou dizer por quê" ou "aqui está o que faremos" avisam que a declaração principal está a caminho e aumentam o peso de seu arremate.

Esses recursos podem aparecer combinados, nem sempre com o resultado esperado. Em 2011, durante uma conferência do Partido Trabalhista britânico, Ed Miliband pediu que perguntassem a ele quais tinham sido as três coisas mais importantes que fizera naquele ano. Anunciou que responderia e mencionou o nascimento de seu segundo filho. A plateia não aplaudiu, provavelmente porque ainda esperava o segundo e o terceiro itens prometidos. Miliband fez uma pausa e assentiu com a cabeça. Só então vieram os aplausos. O público não deixara de compreender a estrutura; ao que tudo indica, havia compreendido bem demais e aguardava o final da lista.

Recursos de linguagem ajudam candidatos a provocar reações da plateia, que também podem influenciar a percepção de quem acompanha a fala pelas telas.

Recursos de linguagem ajudam candidatos a provocar reações da plateia, que também podem influenciar a percepção de quem acompanha a fala pelas telas.Magnific

Não se trata apenas de uma coleção de episódios curiosos. Um estudo clássico retomado por Bull examinou 476 discursos televisionados de conferências partidárias britânicas. Sete construções retóricas então catalogadas estavam associadas a 68% dos aplausos coletivos. Listas e contrastes, sozinhos, respondiam por quase metade das ocorrências.

Os números não significam que uma boa fórmula possa obrigar uma plateia a reagir. A entonação, o ritmo, o olhar, os gestos e, sobretudo, o conteúdo interferem no resultado. Há aplausos que interrompem o orador sem terem sido solicitados, assim como há convites preparados que terminam em silêncio. O político pode marcar na frase um lugar para a resposta, mas não controla inteiramente o que o público fará com ele.

Essa margem de decisão é importante porque a plateia presente não é a única destinatária do discurso. Depois que a fala passa pela televisão, pelos vídeos curtos e pelas redes sociais, o aplauso deixa de ser apenas uma resposta ao político e se torna uma informação oferecida a quem assiste de fora.

Um experimento publicado em julho deste ano investigou esse efeito. Pesquisadores apresentaram a 356 participantes dos Estados Unidos e do Reino Unido o mesmo vídeo de um minuto e 19 segundos no qual Nigel Farage criticava a política britânica de imigração. A imagem e a fala foram mantidas; o que mudava era o som acrescentado durante uma pausa: nenhuma reação, aplausos, risos, vaias ou uma mistura de risos e vaias.

Quando ouviam aplausos, os participantes tendiam a considerar que Farage havia correspondido melhor às expectativas e alcançado seus objetivos. Os risos produziram efeito semelhante, enquanto a combinação de risos e vaias foi mais desfavorável. O experimento não demonstra que um aplauso seja capaz de transferir votos, e os próprios autores o apresentam como um teste inicial. Seus resultados indicam algo limitado, mas relevante: a reação da plateia pode alterar a percepção do êxito de uma fala, embora seu conteúdo seja o mesmo.

A construção do discurso oferece à plateia um momento para responder; captada por câmeras e microfones, essa resposta passa a integrar a mensagem que chegará aos demais eleitores. Nas campanhas eleitorais, observar apenas o candidato significa deixar de perceber um dos autores da performance: a plateia que, seguindo o convite ou contrariando-o, informa ao restante do país como aquela fala deve soar.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

Siga-nos noGoogle News
Compartilhar

Tags

comunicação política eleições 2026 campanha eleitoral

Temas

Eleições
COLUNAS MAIS LIDAS
Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosFale Conosco

CONGRESSO EM FOCO NAS REDES