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Eleições 2026

Nas eleições, é possível enganar o eleitor dizendo apenas a verdade

Informações verdadeiras, quando selecionadas ou apresentadas fora de contexto, podem induzir o público a conclusões falsas.

Thiago Brandão

Thiago Brandão

21/8/2026 14:00

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Imagine um candidato que, sabatinado ao vivo, ouve a pergunta: "O senhor aumentou impostos?" Ele encara a câmera e responde: "Na minha gestão, o IPVA caiu." A frase é verdadeira — o imposto veicular caiu, embora tenham subido o ICMS, o ITCMD e as taxas estaduais. Nenhum verificador de fatos poderá desmenti-lo. No entanto, o que a plateia ouviu não foi um dado tributário — foi um "não". Nosso candidato fictício não mentiu, mas o eleitor foi enganado. Como as duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo?

O filósofo Paul Grice oferece uma resposta. Em "Logic and Conversation", ele observou que uma conversa é um empreendimento cooperativo. Quem fala e quem ouve trabalham juntos, sob regras tácitas que Grice chamou de máximas: seja verdadeiro, seja claro, seja pertinente e seja tão informativo quanto necessário. É por confiar que o outro segue essas regras que entendemos mais do que o dito. Se pergunto onde posso encontrar um posto de gasolina e você aponta a esquina, concluo que o posto está aberto — você não me mandaria a um posto fechado; isso violaria o espírito da conversa. A conclusão não está nas suas palavras; está na minha confiança nelas. Grice deu nome a esse excedente de sentido: implicatura.

O truque do nosso candidato fica agora visível. Quando ele responde "o IPVA caiu" a uma pergunta sobre impostos, o eleitor raciocina sem perceber que raciocina: numa conversa honesta, quem responde escolhe o dado que decide a questão — ninguém responderia com a exceção se a regra dissesse o contrário. Logo, os impostos caíram. A inferência é correta, mas a premissa era falsa (a conversa não era honesta). O enganador não quebra as regras do jogo — ele explora a certeza alheia de que as regras estão sendo seguidas. A seleção de informações verdadeiras trai a confiança que sustenta a conversa.

Em "Lying, Misleading, and What is Said", a filósofa Jennifer Saul recorre a exemplos ilustrativos para casos assim. O primeiro é antigo: Atanásio de Alexandria, perseguido, cruza o Nilo e topa com os soldados que o procuram sem conhecê-lo de vista. "Onde está Atanásio?", perguntam. "Não está longe daqui", responde Atanásio, e segue viagem. O segundo é recente: "There is no improper relationship" ("Não há relação imprópria"), disse Bill Clinton sobre Monica Lewinsky — e o verbo no presente realizava todo o serviço, porque no momento da fala a relação "imprópria", de fato, já não existia. Duas frases verdadeiras que conduzem os ouvintes a crenças falsas.

Estratégia conhecida como paltering explora informações verdadeiras para produzir interpretações falsas sem recorrer diretamente à mentira.

Estratégia conhecida como paltering explora informações verdadeiras para produzir interpretações falsas sem recorrer diretamente à mentira.Magnific

Nosso senso comum absolve em parte quem faz isso: "pelo menos não mentiu". Saul rejeita essa postura. Se o que torna a mentira condenável é a manipulação da confiança de quem ouve, o enganador-pela-verdade manipula exatamente a mesma confiança — e ainda tem o bônus da negabilidade. Quando descoberto, o mentiroso não tem defesa. O outro tem uma saída ensaiada: "Eu nunca disse isso; você entendeu errado".

Pesquisadores deram à prática um nome técnico — paltering, o uso ativo de afirmações verdadeiras para enganar — e um achado desconfortável: em negociações, as pessoas preferem o paltering à mentira porque se sentem menos culpadas ao praticá-lo. Quem descobre o truque, porém, reage com a mesma indignação reservada ao mentiroso. A diferença moral existe apenas na consciência de quem engana.

A campanha eleitoral é um campo fértil para tudo isso. O discurso é público, gravado, estudado por adversários e agências de checagem — mentir ficou caro. Mas a checagem verifica prioritariamente o dito, não o implicado — e é no implicado que o repertório se multiplica: o "maior investimento da história", verdadeiro em valores nominais e falso depois da inflação; os empregos contados a partir de uma linha de base escolhida a dedo, iniciada no fundo do vale para que todo o percurso pareça subida; a frase do adversário citada com fidelidade e removida do contexto que a explicava; as imagens autênticas remontadas numa ordem que nunca existiu. Cada peça, isolada, sobrevive à verificação; o conjunto produz no eleitor uma crença autônoma e falsa.

O que fazer diante disso? Descrer de tudo não resolve: o descrédito serve ao enganador tanto quanto a credulidade. A saída parece residir em um hábito: ler as mensagens eleitorais como se lê literatura, com atenção ao que a frase comunica além do que ela diz. Diante de cada verdade de campanha, as perguntas do leitor: por que esta, e não outra? Por que agora? O que precisaria estar aqui ao lado e não está? Nesse contexto, o voto tem início bem antes da urna: ele começa com um trabalho ativo de interpretação de texto.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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