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Thiago Brandão
Eleições
22/9/2026 17:34
Coriolano tem cicatrizes e acha que isso deveria encerrar a conversa. Combateu por Roma e voltou vitorioso depois de arriscar a vida. Agora, para se tornar cônsul, precisa comparecer à praça, mostrar as feridas e pedir o voto dos cidadãos. É nessa passagem entre o campo de batalha e a vida pública que o herói de Shakespeare passa a depender do julgamento de pessoas que despreza.
Na praça, Coriolano considera que seus serviços deveriam dispensá-lo de solicitar consentimento. Quando um cidadão pergunta o que o trouxe até ali, responde que foi seu próprio merecimento. Para ele o cargo já está garantido, faltando só o reconhecimento dos demais, e cada eleitor vira um pequeno obstáculo entre o homem e aquilo que acredita ser seu.
Shakespeare, porém, dá a um cidadão uma réplica à altura. Diante da pergunta sobre o preço do consulado, ele responde que o preço é pedi-lo com gentileza. A frase soa como simples recomendação de boas maneiras, mas há nela uma exigência política, já que pedir significa admitir que o outro pode recusar. Ao cobrar delicadeza, o cidadão afirma uma liberdade que as cicatrizes do candidato não anulam.
A cena incomoda por isso. É possível admirar a coragem de Coriolano e, ainda assim, desejar que ele seja obrigado a pedir. Seus méritos são reais, mas a autoridade que pretende extrair deles continua em discussão. O voto que ele trata como condecoração é uma escolha, e quem reconhece um serviço prestado conserva o direito de escolher outra pessoa para governar.
Shakespeare tampouco idealiza o povo e seus representantes. Os cidadãos concedem seus votos apesar do tratamento recebido e depois, instigados pelos tribunos, voltam atrás. Os tribunos, representantes do povo, agem por cálculo, o que complica qualquer leitura que queira pôr a razão inteira de um lado só.
Quando a crise se agrava, sua mãe, Volúmnia, tenta ensiná-lo a ceder e recomenda que adote uma postura conciliadora. Argumenta que, se ele admite estratagemas na guerra, deveria admiti-los também na paz. O desprezo continua lá, apenas mais bem apresentado, e o povo segue sendo algo a vencer, agora por meio de reverências. Volúmnia entende a política como treinamento de maneiras, e nessa conversa se vê o limite dessa educação: o filho aprenderia a encenar um respeito que continua sem sentir.
Coriolano não sustenta a encenação. Provocado, volta aos insultos e acaba banido. Reage de modo delirante, declarando que ele é quem expulsa os romanos. Com essa frase procura inverter, pela força da vontade, a posição de quem acaba de perder, como se ainda lhe coubesse decidir quem pertence à cidade.
O ressentimento do benfeitor reaparece com frequência na política. Alguém fez muito, sofreu por isso e passa a tratar a liberdade dos beneficiados como ingratidão, até que o serviço prestado se converte numa dívida que nenhum agradecimento quita. Coriolano levou o próprio corpo à guerra por Roma e, na praça, percebe que os homens por quem sangrou continuam donos de seus votos.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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