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20/12/2018 | Atualizado 10/10/2021 às 16:31

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Quando menino, morador do Irajá, estudante de escola pública, e, à época, de mudança para a Tijuca, meus pais conseguiram para mim e duas irmãs mais novas matrículas em escolas do bairro. Para sairmos do Irajá, pegávamos o bonde até Madureira, de onde embarcávamos no trem “Deodoro 13”. O trem já chegava lotado, mas sempre havia espaço para mais um. O apelido do trem era “Coração de mãe”. Ao sair de casa com as irmãs, nossa mãe renovava os cuidados: “Não aceitem balinhas, não sentem no colo de ninguém, não conversem com desconhecidos e não larguem as mãos um dos outros”. Achávamos que essa dificuldade no trajeto seria por pouco tempo, mas o proprietário do apartamento que meu pai comprara não entregava o imóvel, e foram quase dois anos vivendo um período cheio de aventuras e surpresas. Com o tempo, ficamos conhecidos no trem e éramos protegidos pelos passageiros habituais. Das recomendações, só se manteve a de não sentar no colo da ninguém. Minha mãe já se preocupava com as ações de tarados, e eu ficava de olho em minhas irmãs, presas fáceis de gente mal-intencionada. Nesse trem, aprendemos a nos defender, a ser gentis, solidários e a nos adaptar às circunstâncias da vida. Naquela época, ir para a capital era o sonho de milhares de nordestinos que buscavam vida melhor para suas famílias. Parecíamos estrangeiros, reconhecidos pela cabeça chata, baixa estatura e sotaque carregado. Nesses tempos de conflitos em muitos países, a fuga é a solução. Vivem assim árabes, sírios,  africanos, venezuelanos e tantos outros povos dominados pela intolerância de governantes ou disputas internas que causam o caos e milhares de mortos e feridos que, desesperados, enfrentam a violência, o perigo, o desabrigo de idosos, mulheres e crianças. O Brasil sempre esteve pronto para abrigar os que nos procuram. Foi assim que construímos uma nação miscigenada e multicultural. No nosso território convivem livremente todas as origens, credos, sexos e gêneros. Só recentemente se instalou o confronto entre nós, gerando insegurança e medo. Com a fragilidade do povo, os bandidos formaram quadrilhas e milícias de grande porte, até mesmo nos altos escalões da Republica. Não vivemos em paz. Há algum tempo, estive na Palestina e ouvi de uma brasileira a súplica para retirar de lá o seu filho de 15 anos e mandá-lo para os Estados Unidos; perguntei-lhe por que não o Brasil? A resposta foi dura: “Lá não, é muito violento!”. No entanto, milhares de imigrantes desejam vir para cá, onde ainda há esperança. São essas pessoas que poderão se juntar a nós para restauramos a dignidade e a tranquilidade dos tempos em que recebemos refugiados de guerras e outras tragédias. O Brasil é o trem “Deodoro 13” lotado nas grandes cidades, mas com muito espaço para ser ocupado. O nosso gigante pela própria natureza não pode deixar de abrir suas portas para receber imigrantes, devendo abrigá-los no interior onde construirão seus lares, educarão seus filhos, produzirão em pequenas propriedades, garantido a eles o direito de ir e vir e de serem felizes. Que venha o novo governo com sua mensagem de fé e esperança.

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