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Educação

Mora na Filosofia, morou Maria?

Quando questionam a disciplina por "fazer pensar demais", eu lembro por que aprender a pensar nunca foi excesso, mas necessidade.

Ana Paula Barreto

Ana Paula Barreto

2/3/2026 14:00

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E então você está lá, assistindo ao telejornal noturno (aquele que há décadas assistimos todos, mesmo que no "automático", só para dar uma passeada nos fatos do dia) e percebo uma movimentação diferente no grupo do aplicativo de mensagens da escola. O chamado "grupo de pais", que na maioria das vezes só tem mães. Mas não vou começar aqui a enumerar os motivos que, sabemos todas e "nem todos", mais mães do que pais se ocupam da rotina escolar e doméstica dos filhos.

A polêmica ou "treta" como gosta de dizer minha filha, é que uma mãe começou a ladainha de como considera um absurdo a disciplina de filosofia ser ministrada pela professora de geografia e mais absurdo ainda, a prova de geografia conter questões de filosofia. Como se nas entrelinhas suprimidas pela ainda não leitura de pensamentos, mas da mensagem escrita por IA, não estivesse lá: meu filho não quer estudar filosofia pois a disciplina o faz quebrar a cabeça apenas pela "exigência de pensar".

Eu procuro, mesmo confessando incredulidade e falta completa de paciência, ler atentamente a argumentação desta mãe ou melhor, sua visível falta de argumentos. Respiro e me pergunto: vou "comprar" essa briga?

Aguardo...e outra mãe se manifesta em concordância dizendo que vai acompanhá-la se aquela for falar com a coordenação da escola. Respiro novamente, desta vez profundamente, e não posso evitar o palavrão (obviamente sem escrevê-lo no grupo). Até que, mais uma mãe se manifesta e visivelmente discorda das duas anteriores. Em tom muito comedido, mas assertivo, ela escreve: "eu, particularmente, não acho ruim... Afinal, a filosofia é a disciplina que ensina a pessoa a construir o pensamento, e nossos tempos precisam desesperadamente de gente que saiba pensar". Comemoro e quase que respondo um "amei" na mensagem dela, mas me limitei a interação com o coraçãozinho vermelho mesmo.

Porém, a mão coçou, a lembrança de ter cursado um semestre inteiro de graduação em Filosofia numa universidade federal (pública, gratuita e de qualidade) veio forte... É fato que depois migrei para Comunicação Social/Jornalismo, mas até hoje penso se não foi um erro não ter concluído os dois cursos. É que a mensagem da mãe que escreveu a expressão "gente que saiba pensar" foi a senha pra eu entrar no "ringue", pois a vontade mesmo (aquela de quem – de acordo com a astrologia – nasceu com sol em aquário e ascendente em áries) era sair dando golpes de Kung fu (comecei a praticar a arte marcial por incentivo de uma amiga muito querida) na ignorância alheia.

Em tempos de respostas prontas e verdades rasas, a filosofia segue sendo o antídoto mais poderoso contra a ignorância confortável.

Em tempos de respostas prontas e verdades rasas, a filosofia segue sendo o antídoto mais poderoso contra a ignorância confortável.Freepik

Então, opto por mandar uma mensagem a lá Tom Zé do tipo "eu tô te explicando pra te confundir" e escrevo: "Feliz da escola que trabalha a filosofia em seu currículo. Foi graças à filosofia que se formou o pensamento crítico de povos e civilizações. É graças à filosofia que caminhamos, mesmo que em passos lentos, ao chamado avanço civilizatório – importantíssimo para a convivência fraterna, empática, solidária e, sobretudo, coletiva das pessoas em todo o mundo".

Silêncio sepulcral no grupo... não satisfeita mando um print da capa do livro O mundo de Sofia – com o devido resumo de apenas um parágrafo pois afinal pensar exige leitura e ficou claro que não há muito interesse que se ensine a adolescentes o aprendizado do próprio pensar. Mesmo assim escrevo essa: "recomendo fortemente" - com o "emoji" do dedinho apontado para os prints enviados e tudo. Mais silêncio...

Mas houve um "resmungo" tarde da noite da mãe que começou a discussão, porém achei por bem deixar pra lá. Na esperança de ao menos ela ir dar uma olhada no "senhor Google" e saber mais sobre o clássico da literatura juvenil de Jostein Gaarder que deliciosamente me apresentou, na década de 90, os pré-socráticos da filosofia antiga, passando pela medieval, moderna e contemporânea. Tudo em clima de suspense com os misteriosos bilhetes e cartões-postais que Sofia recebia.

E fui remetida de novo às aulas do curso de graduação de filosofia e me recordando da perplexidade em descobrir a inquietante frase de Nietzsche de que "Deus está morto!". Lembrei também com carinho das passagens fantásticas pela mitologia grega e seus deuses - Zeus e Atena - enquanto conhecíamos Sócrates, Platão e Aristóteles que em contraponto aos "mitos" nos apresentaram conceitos básicos como a lógica, a ética, a metafísica e a política, que constroem o pensamento crítico até hoje. Sem falar nas contemporâneas Simone de Beauvoir e na atualidade, Marilena Chaui e Djamila Ribeiro.

Eu podia ficar aqui descrevendo o mundo de possiblidades que se abriu dentro de mim quando a filosofia "ampla, geral e irrestrita" invadiu minha vida e de como isso foi fundamental na formação de quem eu sou e do entendimento de qual é o meu papel social e coletivo e também individual nesta existência.

E findo por sacar do baú de lembranças, em homenagem a minha Tia Jane - filósofa por formação -, os inesquecíveis versos de Candeia – um dos maiores filósofos do samba. É que se eu pudesse conversar "ao vivo e a cores" com esta mãe, com extremo bom humor e "cadência", pediria que desfaça por favor essa sua birra com a filosofia e compreenda que tudo, absolutamente tudo - para que livre e coerente seja o seu pensamento e de seu filho - é filosofia e que cante comigo: "Mora na Filosofia, morou Maria? Morou Maria? Morou Maria? Cego é quem vê só aonde a vista alcança...".


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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