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Indústria
15/6/2026 17:00
Há uma mudança em curso na política de resíduos do Brasil que passa quase despercebida fora dos círculos técnicos, mas que vai redesenhar a indústria da embalagem nos próximos anos. O governo decidiu abandonar a régua genérica, que tratava todas as embalagens do mesmo jeito, e passou a regulá-las uma a uma. O vidro já ganhou seu decreto. O plástico ganhou o dele em outubro e, neste momento, o Ministério do Meio Ambiente discute em consulta pública o índice que vai medir a reciclabilidade de cada embalagem plástica. Outros materiais devem seguir, um a um; o metal ainda não tem data, mas a direção é essa. Para quem fabrica lata, a pergunta deixou de ser se a regra vem — é de como vamos melhorar a lição de casa, já que, para embalagens metálicas, boa parte já foi feita.
A resposta começa bem. Enquanto o governo ainda constrói o índice de reciclabilidade que alguns materiais terão que seguir, a embalagem de aço já tem o seu, desenvolvido pelo CETEA/ITAL, um dos centros de tecnologia de embalagem mais respeitados do país. Ele classifica cada tipo de lata pela reciclabilidade real na cadeia brasileira e aponta onde o desenho precisa melhorar. Não é só um instrumento regulatório pronto antes da hora; é o reflexo de uma virtude do material que, infelizmente, poucos conhecem.
O aço e o alumínio são metais recicláveis infinitas vezes, sem perder as características originais, e por isso, são os materiais de embalagem mais reciclados do mundo. No caso da lata de aço, o que o torna a embalagem mais fácil de recuperar não é só isso: é o magnetismo. Um simples ímã separa a lata de aço do resto dos resíduos. A recuperação não depende de o consumidor acertar a triagem em casa, nem de tecnologia cara — depende de um ímã. Nenhum outro material de embalagem oferece essa garantia de retorno.
A latinha que você descarta hoje pode voltar à sua cozinha em poucos dias, como nova lata, panela ou peça de carro, sem perder nada do que era.
E não é teoria: as cadeias já existem. Depois do descarte, as latas de fato retornam. No Brasil, esse circuito é organizado pelas entidades gestoras, e para latas de aço a Prolata Reciclagem. A Prolata opera o programa criado pelo próprio setor de embalagens de aço, que articula cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis, pontos de recebimento, entrepostos, siderúrgicas e a indústria. Hoje, 49% das latas de aço consumidas no país voltam à produção — o equivalente a 180 mil toneladas e boa parte dessa operação passa pela Prolata, que garante a taxa de recuperação para logística reversa.
É necessário honestidade sobre a taxa de recuperação. Ela ainda não é o que poderia ser — não por limite do material, que é 100% recuperável, mas por limite da coleta. O teto não está na lata; está na infraestrutura que a traz de volta. E é exatamente isso que o regime que se desenha deve cobrar: dado novo e auditado. Por isso o compromisso do setor é simples e verificável — quando a regra do metal vier, chegaremos a ela medindo o que promete.
Há, porém, um cuidado que preocupa o setor. Reciclabilidade e conteúdo reciclado não são a mesma coisa: a primeira mede se a embalagem volta ao ciclo — e a lata vai muito bem nela; a segunda obriga um percentual de material reciclado dentro da embalagem nova. Faz sentido para o plástico, que sofre com falta de demanda por reciclado — tanto que, mesmo com meta e multa, a procura por PET reciclado no Brasil caiu mais da metade. Não faz sentido para a lata de aço, que já nasce de um processo que usa sucata e ainda responde a exigências de contato com alimento. Vale lembrar que a própria PPWR europeia, tomada como referência, impõe conteúdo reciclado apenas ao plástico — e poupa o metal. Se é para nos inspirarmos nela, que seja para acertar: a régua certa para a lata é a da reciclabilidade, não uma cota copiada de outro material.
A lata de aço mostra que circularidade não precisa ser promessa de folheto: é rotina industrial que, todo ano, transforma sucata em aço novo. O que está em jogo agora não é o material, que já faz a sua parte — é a qualidade da regra. E regra boa não se copia de outro material; se escreve com quem já sabe trazer a lata de volta.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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