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MAPA POLÍTICO
Congresso em Foco
22/6/2026 | Atualizado às 17:30
A América do Sul vive uma nova guinada à direita. A vitória apontada pela pré-contagem do conservador Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia e a vantagem da direitista Keiko Fujimori na apuração peruana podem ampliar a maioria de governos de direita e centro-direita na região. O movimento faz parte de uma alternância que marca o continente desde o início do século. Em 26 anos, região passou por quatro grandes momentos: a "onda rosa" dos anos 2000, a reação conservadora a partir de 2015, a retomada da esquerda entre 2019 e 2022 e a nova guinada à direita desde 2023.
Os mapas abaixo mostram como direita e esquerda se alternaram no poder nos 12 países sul-americanos desde 2000. A classificação considera o presidente em exercício em cada ano de referência e divide os governos em quatro categorias: esquerda ou centro-esquerda, direita ou centro-direita, centro/instabilidade e apuração. Trata-se de uma classificação jornalística, usada para facilitar a comparação regional. Os mapas mostram fotografias de anos-referência, não médias de todo o período.
Quatro ondas políticas
O primeiro movimento foi a chamada "onda rosa", entre os anos 2000 e meados da década de 2010. No recorte de 2010, usado no mapa como referência desse ciclo, governos de esquerda ou centro-esquerda comandavam 9 dos 12 países analisados. O período foi marcado por Lula no Brasil, Hugo Chávez na Venezuela, Néstor e Cristina Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e a Frente Ampla no Uruguai.
A expressão foi popularizada pelo correspondente norte-americano Larry Rohter, do New York Times, ao comentar a ascensão de uma esquerda reformista (rosa), em contraposição a uma esquerda comunista (vermelha).
A segunda onda veio entre 2015 e 2018, com avanço da direita e da centro-direita. Mauricio Macri venceu na Argentina, Sebastián Piñera governou o Chile, Iván Duque chegou à Presidência da Colômbia e, no Brasil, a queda de Dilma Rousseff foi seguida pelo governo Michel Temer e pela eleição de Jair Bolsonaro.
A terceira onda ocorreu entre 2019 e 2022, quando a esquerda voltou a crescer, com Gabriel Boric no Chile, Gustavo Petro na Colômbia, Luis Arce na Bolívia, Pedro Castillo no Peru e a eleição de Lula no Brasil. O ciclo, porém, foi curto e atravessado por crises internas.
A quarta onda está em curso desde 2023. Javier Milei venceu na Argentina, José Antonio Kast chegou ao poder no Chile, Daniel Noboa governa o Equador, Rodrigo Paz assumiu na Bolívia e Abelardo de la Espriella deve assumir a Presidência da Colômbia. No Peru, Keiko Fujimori lidera com pequena vantagem a apuração, ainda sem resultado final, contra o esquerdista Roberto Sánchez.
Como está a divisão hoje
Hoje, Brasil, Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela estão classificados no campo da esquerda ou centro-esquerda. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Paraguai estão no campo da direita ou centro-direita. O Peru segue na reta final de apuração, com provável vitória da direita.
A direita tem vantagem numérica, com seis países, contra cinco da esquerda ou centro-esquerda. Se a vantagem de Keiko Fujimori for confirmada no Peru, o placar regional passará a ser de sete governos de direita ou centro-direita contra cinco de esquerda ou centro-esquerda.
A comparação histórica mostra a mudança de ambiente. Em 2010, no auge da onda rosa, a esquerda predominava amplamente, com dez países, contra dois da direita. Em 2020, no período recente de maior presença da direita dentro do recorte do mapa, governos de direita ou centro-direita apareciam à frente em seis países, enquanto quatro estavam à esquerda e dois eram classificados como centro.
Colômbia, Peru e desgaste político
Na Colômbia, a vantagem do advogado e empresário Abelardo de la Espriella representa uma provável interrupção do ciclo de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história do país. O resultado ainda exige cautela, porque a disputa foi apertada e há questionamentos sobre a contagem.
No Peru, Keiko Fujimori lidera a apuração contra Roberto Sánchez, mas a definição depende da conclusão oficial da contagem e da análise de recursos. O país vive há anos um quadro de instabilidade política, com sucessivas trocas de presidentes e baixa confiança nas instituições.
Os dois casos reforçam uma tendência regional: eleitores têm trocado de campo político quando associam governos a crise econômica, insegurança pública, instabilidade institucional ou promessas não cumpridas. Em muitos países, o voto recente tem funcionado mais como cobrança por resultados do que como adesão duradoura a um projeto ideológico.
Brasil como fiel da balança
Nesse cenário, a próxima eleição presidencial brasileira tende a funcionar como fiel da balança regional. Maior economia, maior população e maior território da América do Sul, o Brasil permanece como o principal governo de esquerda entre as grandes economias do continente. Com o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) nas primeiras colocações nas pesquisas, o país é o único da região a ter eleição presidencial até o fim do ano. A próxima disputa só ocorrerá em 2027, na Argentina.
Se o Brasil mantiver o atual alinhamento, a América do Sul continuará dividida entre dois campos relevantes: de um lado, governos de esquerda ou centro-esquerda, liderados regionalmente pelo peso brasileiro; de outro, uma maioria numérica de governos de direita ou centro-direita. Se o Brasil mudar de campo, a região poderá se aproximar de uma maioria conservadora mais ampla, com impacto sobre integração, comércio, segurança pública e política externa.
Diferenças internas
Ainda assim, o mapa não deve ser lido como um bloco único. Há diferenças entre o liberalismo radical de Javier Milei, o conservadorismo de José Antonio Kast, a agenda de segurança de Daniel Noboa e o perfil de Abelardo de la Espriella, classificado por analistas políticos colombianos como ultradireitista. Na esquerda, também há diferenças entre Lula, a Frente Ampla uruguaia, o chavismo venezuelano e os governos de Guiana e Suriname.
Desde 2000, a região alterna avanço da esquerda, reação da direita e rejeição a governos em desgaste. Colômbia e Peru indicam que o pêndulo voltou a se mover à direita. A eleição brasileira dirá se esse movimento se consolida como maioria regional ampla ou se o continente continuará dividido.