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Economia
20/7/2026 12:00
O futuro da educação, da competitividade e da soberania pode estar escondido em três notícias aparentemente desconectadas. Uma decisão da Comissão de Valores Mobiliários sobre relatórios de sustentabilidade. Novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. E restrições da União Europeia à importação de determinados produtos de origem animal.
À primeira vista, trata-se de temas distintos. Mas existe algo mais profundo conectando esses acontecimentos.
Estamos assistindo ao surgimento de uma economia em que a confiança deixa de ser apenas um valor moral para se tornar um ativo estratégico. Durante décadas, a competitividade foi associada principalmente à capacidade de produzir. Produzir mais, produzir melhor e produzir com menor custo. Esses fatores continuam importantes, mas já não explicam tudo.
Consumidores querem saber a origem dos produtos que compram. Investidores observam riscos capazes de comprometer empresas e mercados. Governos acompanham cadeias produtivas que atravessam fronteiras.
A pergunta já não é apenas o que foi produzido. Ela passa a ser também como foi produzido, por quem e sob quais condições.
A confiança passa a funcionar como uma infraestrutura invisível. Quando ela existe, as relações fluem. Quando desaparece, surgem barreiras, incertezas e conflitos. Mas a confiança não surge espontaneamente. Ela depende de critérios, referências e mecanismos capazes de produzir previsibilidade.
E isso nos conduz a uma questão cada vez mais relevante: quem define essas regras?
Durante muito tempo, a soberania foi compreendida principalmente como a capacidade de proteger interesses nacionais. Essa dimensão continua importante. Mas isso já não parece suficiente para explicar um mundo marcado por cadeias produtivas globais e mercados interdependentes.
Normas ambientais influenciam exportações. Regras financeiras afetam investimentos. Exigências de rastreabilidade alteram processos produtivos.
Nesse contexto, a questão deixa de ser apenas quais regras seguir. A questão passa a ser quem participa de sua construção.
A competitividade depende cada vez menos da simples capacidade de responder a exigências externas e cada vez mais da habilidade de compreender e influenciar os processos que definem essas exigências. Em outras palavras, a soberania passa a envolver não apenas proteção, mas também participação.
Essa mudança revela um desafio ainda maior. Estamos desenvolvendo as condições necessárias para interpretar sistemas cada vez mais complexos e interdependentes?
Talvez o principal desafio do século XXI não seja a falta de informação. Nunca tivemos acesso a tantos dados e ferramentas de comunicação. Ainda assim, cresce a sensação de que compreender o mundo se tornou mais difícil. Não por falta de conhecimento, mas pela dificuldade de estabelecer relações entre conhecimentos produzidos de forma cada vez mais especializada.
Uma decisão econômica produz impactos sociais. Uma inovação tecnológica altera relações de trabalho. Uma questão ambiental influencia mercados e políticas públicas.
Os desafios contemporâneos raramente se apresentam de forma isolada. É justamente aí que muitas análises falham. O problema não está nos fios.
É nesse ponto que a educação assume um papel decisivo. Se confiança, competitividade e soberania dependem cada vez mais da compreensão de relações complexas, a educação deixa de ser apenas preparação para o trabalho. Ela passa a ser condição para a participação na vida coletiva.
Participar da construção das regras exige interpretar contextos, analisar informações, dialogar com perspectivas diferentes e reconhecer interdependências. Essa é uma das tarefas mais importantes da educação em nosso tempo. Não apenas transmitir conhecimentos ou preparar para funções específicas, mas ampliar a capacidade de compreender relações e participar conscientemente da construção do mundo.
O desafio do nosso tempo não é abandonar os fios que nos permitiram compreender o mundo. É aprender a enxergar a trama que eles formam.
Porque, no século XXI, o futuro dependerá cada vez menos da capacidade de agir isoladamente e cada vez mais da capacidade de compreender a trama e participar de sua construção.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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