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POLÍTICA E RELIGIÃO
Congresso em Foco
23/1/2026 | Atualizado às 11:14
O deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) fez duras críticas ao que classificou como fanatismo político no meio evangélico e ao papel do grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro nesse processo, ao participar da programação 2026 da série Conversas Difíceis, promovida pelo Instituto Humanitas360, nesta semana, em São Paulo. Pastor da Assembleia de Deus e integrante da Frente Parlamentar Evangélica, o emedebista relatou seu rompimento com o campo que segue Bolsonaro e denunciou um processo de "sequestro emocional e espiritual" das igrejas evangélicas nos últimos anos.
"O bolsonarismo determinou uma guerra de quem é de Deus e quem é do diabo", afirmou Otoni, ao criticar a instrumentalização da fé no debate político. Segundo ele, houve uma distorção profunda dos valores cristãos a partir de 2018. "Quando vi que estava sendo mais bolsonarista do que cristão, me arrependi. Estou pagando um preço muito alto por isso", disse.
O encontro teve como tema central a relação entre política e religião no Brasil contemporâneo, em um ano marcado pelas eleições presidenciais. Otoni participou do debate ao lado da cineasta Petra Costa, diretora do documentário "Apocalipse nos Trópicos", mediado pelo antropólogo Juliano Spyer. O filme, que aborda a influência do fundamentalismo evangélico no governo Jair Bolsonaro, serviu de ponto de partida para a discussão.
Princípio de ódio
Durante sua fala, o deputado afirmou que as igrejas evangélicas foram capturadas por uma lógica de confronto político. "De 2018 pra cá, com o sequestro mental, emocional e quase espiritual que o bolsonarismo fez com as igrejas evangélicas, se instalou um princípio de ódio que nunca foi nosso. Começamos a ver um homem ser glorificado no templo ao invés de Jesus. Isso é muito grave", declarou.
Otoni também criticou o que chamou de idolatria política no meio religioso. "Gritar 'mito é um sinal gravíssimo de idolatria. Há um choque entre o que Cristo pregou e o que o fundamentalismo cristão prega", afirmou, ao defender que a fé cristã não pode ser usada como instrumento de exclusão ou guerra cultural.
No campo dos costumes, o parlamentar adotou um discurso de respeito às diferenças. "O fundamentalismo não admite que duas pessoas do mesmo sexo se amem e constituam família. O cristianismo respeita a diferença. Antes de pregar, eu preciso respeitar a sua verdade", disse. Ele também afirmou que manifestações religiosas de matriz africana devem ser reconhecidas como expressão cultural.
O deputado ainda fez críticas diretas a lideranças religiosas com forte atuação política. "Silas Malafaia é movido por interesses pessoais que são vendidos como interesses de Deus", afirmou, ao mencionar o papel de pastores midiáticos no debate público. Sobre o cenário político nacional, Otoni defendeu a tolerância e o reconhecimento da legitimidade institucional. "Se toda autoridade vem do Senhor, o mesmo Deus que permitiu Bolsonaro, permitiu Lula ser presidente. Temos que orar por ambos", declarou.
Rompimento com Bolsonaro
Nos últimos meses, Otoni de Paula tem revisado publicamente sua trajetória política e reforçado o distanciamento de Bolsonaro, a quem apoiou no passado. Em declarações recentes, o deputado afirmou se arrepender de ter chamado Jair Bolsonaro de "mito" e disse preferir "andar sozinho do que mal acompanhado". Para ele, o chamado bolsonarismo representa uma vertente radical que acabou se sobrepondo a um campo conservador mais amplo.
Apesar das críticas, Otoni afirma que seguirá se identificando como conservador, mas sem vínculo com o núcleo radical que orbitou em torno do ex-presidente. O deputado foi hostilizado por colegas da Frente Parlamentar Evangélica depois de se encontrar com Lula no Palácio do Planalto e orar pelo presidente.
A presidente do Instituto Humanitas360, Patrícia Villela Marino, abriu o evento por videoconferência e destacou que a proposta do projeto é enfrentar temas sensíveis a partir do diálogo. "Com o Conversas Difíceis, queremos seguir na luta pelo maior mandamento bíblico: amar", afirmou. Já Petra Costa alertou para os riscos da aproximação excessiva entre religião e poder político. "Existe uma linha muito tênue entre igreja e Estado. Defender dentro da igreja em quem votar é algo com o qual eu não concordo", disse a cineasta.