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ANIVERSÁRIO DE BRASÍLIA
Congresso em Foco
17/4/2026 | Atualizado 21/4/2026 às 16:15
Quando o Congresso Nacional foi inaugurado em Brasília, em 21 de abril de 1960, a cerimônia solene projetou ao país a imagem de uma República enfim instalada no centro do território nacional. No Plenário, Juscelino Kubitschek, João Goulart, ministros, governadores, parlamentares e embaixadores celebravam a transferência dos Três Poderes para a nova capital. Fora do rito oficial, porém, a realidade era bem menos grandiosa: deputados, senadores e servidores desembarcavam em uma cidade ainda inacabada, marcada por lama, escassez de moradias, falhas de infraestrutura e forte resistência à mudança.
O trajeto entre o Rio de Janeiro e Brasília ganhou um apelido que condensava o sentimento de parte dos servidores e parlamentares diante da mudança: "rota do degredo".
"Só viram lama"
A nova capital foi inaugurada oficialmente antes de estar concluída. A decisão atendia a uma necessidade política: consolidar a transferência e afastar o risco de adiamentos ou recuos. Na prática, isso significou instalar o Congresso em uma cidade que ainda não oferecia condições estáveis para a rotina do poder.
A resistência à mudança começava antes mesmo da chegada ao Planalto Central. Havia forte oposição de servidores públicos dos três Poderes à transferência para Brasília. Segundo o ex-deputado maranhense Neiva Moreira, que coordenou a comissão de mudança da Câmara, o principal foco de rejeição vinha das famílias. Para tentar reduzi-lo, a Câmara fretou aviões para levar esposas de deputados à nova capital. A iniciativa fracassou. Segundo ele, elas "só viram lama".
O episódio foi lembrado por Neiva Moreira em 2005, quando ainda era deputado, em entrevista à Rádio Câmara. "Eu primeiro fiz um trabalho junto aos deputados. Depois, verifiquei que o ponto mais dramático de resistência era a família. Aí, a Câmara tinha recursos, nós fretamos vários aviões para trazer as senhoras dos deputados. O presidente da Câmara me disse: 'Olha, Neiva, foi uma coisa muito negativa isso que você fez. As senhoras estão quase todas contrárias porque só viram lama", contou à rádio o ex-deputado, que morreu em 2012.
Jango reconheceu dificuldades na transferência
Na sessão de instalação do Congresso, João Goulart, então vice-presidente da República e presidente do Senado, reconheceu o esforço exigido pela mudança. No discurso oficial, afirmou que o Congresso não se poupou em horas de "exaustiva atuação" para viabilizar a transferência e mencionou as "dificuldades transitórias" enfrentadas pelos parlamentares e por suas famílias.
Na mesma fala, homenageou os "já hoje lendários candangos", associando a inauguração do Congresso ao trabalho de quem ainda construía Brasília naquele momento. O discurso registrava, ao mesmo tempo, a solenidade da mudança e as limitações concretas da cidade.
Moradia, transporte e rotina difícil
As dificuldades mais imediatas eram de locomoção e moradia. Brasília ainda convivia com poeira vermelha, racionamento de água, quedas frequentes de energia, transporte precário e falta de comércio. Até tarefas básicas, como fazer compras, eram complicadas nos primeiros tempos da nova capital.
A moradia de parlamentares e servidores estava entre os maiores problemas. Nem todos os apartamentos destinados a deputados e funcionários estavam prontos, e os disponíveis eram disputados "quase a tapa". Neiva Moreira contou, na mesma entrevista à Rádio Câmara, que houve deputados que recusaram imóveis e outros que chegaram a trocar a numeração das portas para ficar com unidades em melhores condições.
As reclamações também chegaram ao Plenário. Na primeira sessão da Câmara já em Brasília, em 2 de maio de 1960, o deputado Carmelo DAgostino pediu providências para que os apartamentos fossem concluídos em condições de uso.
Estrutura incompleta
A adaptação não se limitava à questão habitacional. Em 1960, a Câmara precisava de 1.300 apartamentos para deputados e servidores, mas, no dia da inauguração, apenas 200 funcionários estavam instalados em Brasília. Entre eles, só sete taquígrafos, responsáveis por registrar os discursos dos parlamentares, de acordo com a Rádio Câmara.
A própria estrutura de trabalho ainda era precária. A luz do Plenário falhava repetidamente, e não havia sequer campainhas para marcar o início das sessões. A solução foi buscar de avião as antigas campainhas do prédio da Câmara no Rio. Também foi necessária uma operação para transportar móveis, documentos e bens pessoais da antiga capital para Brasília nas semanas anteriores à inauguração. No Senado, os gabinetes não estavam prontos, e muitos senadores se amontoavam pelos corredores da Casa em busca de espaço para despachar.
Solenidade no Plenário, resistência fora dele
Na cerimônia, o tom foi de exaltação. Diferentemente do Rio, onde Câmara e Senado ocupavam palácios distintos, a partir daquele momento as duas casas estariam lado a lado. Em discurso na sessão solene, o senador Filinto Müller, vice-presidente do Senado, saudou a instalação da Casa "em pleno coração da Pátria" e definiu Brasília como "a capital de um Brasil novo". A fala vinculava a mudança da capital à integração territorial e à interiorização do desenvolvimento.
A resistência política, no entanto, não desapareceu com a inauguração. A mudança enfrentava oposição de setores da UDN e de grupos ligados ao eixo Rio-São Paulo, onde se concentravam o poder político e econômico do país. Neiva Moreira relatou ter recebido telefonemas anônimos com ameaças durante o processo de transferência, enquanto jornais publicavam previsões sobre o fracasso da nova capital.
O prédio, de 40 mil metros quadrados, foi erguido entre 1958 e 1960. Nesse período de dois anos, segundo relatos da imprensa da época, 37 operários morreram durante as obras. As jornadas de trabalho eram exaustivas, de 14 a 18 horas, em turnos contínuos para entregar a capital em 21 de abril. Os alojamentos eram precários, a comida era de má qualidade, faltava higiene e quase não havia proteção para os operários. Havia relatos constantes de quedas de trabalhadores dos andaimes.
Um marco do modernismo brasileiro
Concebido por Oscar Niemeyer, o Congresso Nacional foi pensado para ser o ponto de maior força plástica e simbólica do Poder Legislativo em Brasília. Em entrevista registrada na Fundação Oscar Niemeyer, o arquiteto explicou que quis reunir Câmara e Senado em um mesmo corpo para dar uma solução "mais racional e econômica", sem perder a independência entre as duas Casas, e imaginou o conjunto como suficientemente monumental para se impor na paisagem urbana.
Na Praça dos Três Poderes, essa intenção era clara: o Congresso, sede do Legislativo, deveria dominar visualmente a Esplanada, marcar a centralidade do Parlamento e, ao mesmo tempo, dialogar com o Palácio do Planalto, sede do Executivo, e o Supremo Tribunal Federal, sede do Judiciário, como um dos pilares da República. Niemeyer rebaixou a base do edifício e destacou as cúpulas e as torres, fazendo do Congresso um ícone da nova capital e do próprio regime representativo.
"Aqui há uma invenção"
O próprio arquiteto disse que, ao adotar a cúpula no Congresso, tratou de "modificá-la" e "fazê-la mais leve". Por isso, desenhou a do Senado voltada para baixo e a da Câmara invertida e aberta, "simplesmente pousada" sobre a laje. O simbolismo dessas formas vinha tanto da ênfase dada aos Plenários quanto da função pública do edifício: as formas côncava e convexa foram definidas também para acomodar as galerias do público, maiores na Câmara, a Casa do povo, e menores no Senado, representação dos estados.
Em entrevista ao Correio Braziliense, em 2008, Niemeyer apontou o Congresso como sua obra preferida em Brasília. "Lembro Le Corbusier [arquiteto suíço precursor da arquitetura moderna], ao ver com surpresa as cúpulas do Congresso, me dizer: aqui há uma invenção."
Entre a solenidade oficial e a precariedade cotidiana, a inauguração do Congresso em Brasília condensou uma das contradições centrais da nova capital. O edifício nascia como símbolo de modernidade, integração nacional e força institucional, mas era ocupado em meio a improvisos, carências e resistências. Sessenta e seis anos depois, a cena ainda ajuda a explicar a origem de Brasília: uma cidade erguida para representar o futuro do país, mas inaugurada antes de estar pronta para a rotina real do poder.
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