Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
JORNADA HISTÓRICA
Congresso em Foco
14/5/2026 7:00
A Câmara volta a discutir se o Brasil deve reduzir a jornada de trabalho e acabar, na prática, com a escala 6x1, aquela que prevê seis dias de trabalho por semana e apenas um de descanso. A pergunta, porém, é antiga. Acompanha o país desde os primeiros anos da República: quanto tempo da vida deve ser consumido pelo trabalho?
Em 1892, apenas três anos depois da Proclamação da República, o então deputado catarinense Lauro Müller levou à Câmara uma representação em defesa da jornada de oito horas. Naquele Brasil que havia abolido a escravidão havia pouco tempo, trabalhadores enfrentavam jornadas que podiam se estender de 10 a 16 horas por dia.
Era quase regra trabalhar seis dias por semana, com pouco descanso, baixos salários e quase nenhuma proteção legal. Mulheres e crianças também eram empregadas em fábricas, minas e oficinas, muitas vezes em condições semelhantes às dos adultos.
Desde então, sindicatos, empresários, associações comerciais, governos e parlamentares se enfrentam em torno do mesmo dilema: a riqueza produzida pelo trabalho deve se converter apenas em produção e lucro ou também em descanso, saúde e tempo livre?
O paradoxo dos decretos
A contradição histórica é que as mudanças mais profundas não nasceram de uma decisão regular do Legislativo. Em 1932, durante o governo provisório, Getúlio Vargas fixou por decreto a jornada de oito horas diárias ou 48 semanais para comércio e indústria. A Câmara e o Senado estavam dissolvidos.
Em 1943, Vargas consolidou as regras do mundo do trabalho na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), também por decreto-lei, durante o Estado Novo, novamente com o Congresso fechado.
Agora, quase quatro décadas depois de a Constituinte reduzir a semana de 48 para 44 horas, a Câmara analisa novas propostas de redução da jornada. A PEC 221/2019, de Reginaldo Lopes (PT-MG), prevê corte gradual para 36 horas semanais. A PEC 8/2025, de Erika Hilton (Psol-SP), também reduz a jornada e estabelece quatro dias de trabalho por semana. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já avisou que pretende submeter a proposta ao Plenário ainda em maio.
A disputa atual tem linguagem nova: saúde mental, escala 6x1, burnout e vida além do trabalho. Mas repete argumentos antigos sobre produtividade, custo, emprego e competitividade. Segundo o Ministério do Trabalho, cerca de 15 milhões de brasileiros com carteira assinada têm apenas um dia de folga por semana.
A pauta nasceu nas fábricas
A luta por menos horas de trabalho surgiu em um Brasil ainda semiurbano, de jornadas longas, salários baixos e quase nenhuma proteção legal. No começo da industrialização, a carga diária podia chegar a 12 ou 16 horas, inclusive para mulheres e crianças. Ao lado do salário, a redução da jornada se tornou uma das principais bandeiras do movimento operário.
Em 1906, o 1º Congresso Operário Brasileiro defendeu a campanha pelas oito horas de trabalho sem redução salarial. A reivindicação saiu das associações de trabalhadores, ganhou força nas greves e pressionou o Parlamento. O tema entrou na agenda não por iniciativa espontânea das elites políticas, mas pela organização de trabalhadores submetidos a condições exaustivas.
A tentativa de criar um Código do Trabalho
Em 1917, no rastro da histórica greve geral de São Paulo, o deputado Maurício de Lacerda, do Rio de Janeiro, tentou transformar essa pressão em lei. Seu projeto de Código do Trabalho previa jornada de oito horas, descanso semanal, proteção a mulheres e menores, regras contra acidentes e obrigações de patrões e empregados. Era uma proposta ampla demais para um Congresso ainda marcado pelo liberalismo da Primeira República.
Na greve geral daquele ano, a primeira deflagrada no país, mais de 50 mil trabalhadores cruzaram os braços na capital paulista e em municípios próximos, paralisando praticamente todas as fábricas têxteis, de chapéus, calçados, móveis, fósforos, parafusos, cerveja e farinha de São Paulo. A paralisação durou uma semana e, sob forte repressão, acabou com 200 pessoas mortas.
Na Câmara, a resistência apareceu muitas vezes como pedido de cautela. O deputado paraense Bento de Miranda defendeu adiar a votação por se tratar de "matéria de grande magnitude". Maurício de Lacerda reagiu: "Se a lei é urgente, devemos votá-la o quanto antes". Nicanor Nascimento, do então Distrito Federal, reforçou a pressão das ruas ao dizer que "a massa operária" aguardava a votação imediata do projeto.
O artigo central da proposta era direto: o trabalho efetivo não poderia durar mais de oito horas por dia e, a cada seis dias contínuos de trabalho, deveria haver um dia de descanso. O texto também previa limite de seis horas para menores entre 10 e 15 anos e restrições ao trabalho noturno e nocivo à saúde.
Empresários se organizaram contra
A oposição à regulação trabalhista não vinha apenas de parlamentares. Era articulada também por setores empresariais que temiam perda de controle sobre o ritmo de produção, aumento de custos e fortalecimento das greves.
Nos anos 1920, a tentativa de reativar um Departamento Nacional do Trabalho enfrentou resistência de empresários do comércio e da indústria, preocupados com a agitação operária.
O Conselho Nacional do Trabalho, criado em 1923, nasceu como órgão consultivo, sem poder para planejar a legislação social ou fiscalizar sua aplicação. É considerado o embrião da Justiça Trabalhista. Entre seus integrantes estavam representantes ligados à Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) e ao Centro Industrial do Brasil. O caráter consultivo facilitou sua aceitação pelo empresariado, que encontrou ali uma instância para influenciar os rumos das leis trabalhistas.
O custo como argumento recorrente
A resistência patronal apareceu com clareza também na Lei de Férias de 1925, tema diretamente ligado à disputa sobre descanso remunerado. O deputado Henrique Dodsworth, autor da proposta, dizia que seu projeto apenas buscava "generalizar e obrigar" uma prática já adotada por algumas casas comerciais. Agamenon de Magalhães, relator na Comissão de Legislação Social, defendia que era preciso "evoluir para não revolucionar".
A reação empresarial foi forte. Associações industriais paulistas enviaram relatório ao Conselho Nacional do Trabalho afirmando que a Lei de Férias desorganizaria o trabalho fabril e elevaria em 5% o custo da produção.
O argumento atravessou o século. Ontem, férias e jornada limitada eram apresentadas como ameaça à economia. Hoje, o fim da escala 6x1 é criticado por parte do empresariado pelo possível impacto nos custos, nos preços e na competitividade.
Vargas incorporou a pauta pelo alto
Quando Vargas chegou ao poder, em 1930, a pauta trabalhista já estava madura havia décadas. O governo provisório, porém, não esperou uma deliberação congressual.
Em 1932, editou decretos que limitaram a jornada no comércio e na indústria a oito horas diárias ou 48 semanais, com descanso semanal obrigatório. A regra tinha exceções, admitia prorrogações e deixava setores para regulamentação específica, mas criou o primeiro marco nacional consistente sobre tempo de trabalho.
Embora o Congresso discutisse a redução da jornada desde 1892, foi o Executivo que realizou a mudança mais estrutural. A legislação varguista respondeu a uma pressão operária real, mas também incorporou os trabalhadores ao Estado, com sindicatos tutelados e controle político sobre a organização sindical.
CLT: direito reconhecido, sindicato controlado
A CLT consolidou esse arranjo em 1943. Reuniu normas sobre jornada, descanso, contrato, férias e conflitos trabalhistas, mas nasceu durante uma ditadura, iniciada pelo próprio Vargas em 1937, com o golpe do Estado Novo.
Ao apresentá-la, Vargas chamou a legislação de "carta de emancipação econômica" dos trabalhadores. A proteção social avançou, mas sem rito parlamentar democrático. O direito foi reconhecido; a autonomia sindical, limitada.
Em 1988, o Congresso reduziu a semana
A primeira grande redução semanal decidida pelo Congresso veio na Assembleia Constituinte, que funcionou entre 1987 e 1988.
A proposta de 40 horas chegou a ser aprovada na Comissão da Ordem Social, mas foi derrotada depois. Diante da disputa entre representantes de trabalhadores e empresários, o texto final reduziu a jornada de 48 para 44 horas semanais, limite que permanece na Constituição.
Foi uma vitória parcial para os trabalhadores. Não conseguiram as 40 horas, mas conquistaram quatro horas semanais a menos.
Os argumentos a favor
Os defensores da redução usavam argumentos econômicos e sociais. Na época deputado, o hoje senador Paulo Paim sustentava que a redução criaria vagas. "De cada cinco empregos, um a mais será criado", afirmou o petista, então uma das principais lideranças sindicais com assento no Parlamento.
O então constituinte Lula chamava a defesa de jornadas mais longas de "jornada de escravidão":
"Dizer que este país está precisando de uma jornada mais longa é, no mínimo, querer submeter a classe trabalhadora a uma jornada de escravidão. O que precisamos fazer, e outros países já o fizeram, é diminuir a jornada de trabalho, para que as empresas contratem mais trabalhadores, a fim de que haja um aumento da produção não pela escravidão, mas pela duplicação da mão de obra".
Passados 38 anos da discussão, Lula, agora presidente da República pela terceira vez, apoia a redução da jornada para 40 horas semanais.
Os argumentos contra
A oposição também falava em economia. O deputado mineiro Virgílio Galassi dizia que o país não poderia antecipar "conquistas sociais inoportunas" e afirmava que não se distribui "riqueza que ainda não foi gerada". Chegou a defender que a jornada semanal de trabalho fosse ainda maior:
"Se tivéssemos a solidariedade que dizemos ter para com os pobres, este seria o momento de ampliarmos a jornada de trabalho, elevando-a para 50 ou 52 horas até que o último dos brasileiros tivesse o que comer, tivesse onde morar, onde tratar-se e como educar-se. A partir daí, sim, seria possível reduzir a jornada de trabalho até o ponto que desejamos".
José Serra alertava para o aumento do "custo por hora" do trabalhador. Luís Roberto Ponte defendia que, antes de reduzir a jornada, o país deveria trabalhar mais para superar pobreza e miséria.
A disputa refletia forças organizadas dentro e fora do Parlamento. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e sindicatos acompanharam votações, fizeram manifestações e atuaram diretamente junto aos constituintes. Do lado empresarial, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também se articulou. O presidente da entidade, Mario Amato, circulava no Congresso para defender as prioridades do setor produtivo.
Depois, a pauta travou
A principal tentativa posterior de reduzir a carga semanal foi a PEC 231/1995, encampada pelo deputado Inácio Arruda (PCdoB-CE). A proposta reduzia a jornada para 40 horas semanais e aumentava o adicional de hora extra.
O texto avançou em comissões, mobilizou centrais sindicais e voltou várias vezes ao debate público, mas nunca foi votado em definitivo pelo Plenário da Câmara.
Esse ciclo repetiu o padrão histórico. Sindicatos e entidades de estudos trabalhistas defenderam que a redução distribuiria ganhos de produtividade, criaria empregos e diminuiria acidentes e adoecimentos. O empresariado respondeu que a redução sem corte salarial aumentaria o custo por hora trabalhada, pressionaria preços e reduziria a competitividade.
A escala 6x1 atualiza a velha disputa
A discussão atual combina argumentos antigos e novos. Os defensores da redução da jornada afirmam que a escala 6x1 afeta principalmente trabalhadores de menor renda, mulheres e jovens, reduz o tempo de estudo, descanso e convivência familiar e agrava problemas de saúde física e mental.
Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde uma das propostas foi admitida, o relator, deputado Paulo Azi (União-BA), afirmou que "quem mais trabalha efetivamente é quem ganha menos". Autor de uma das proposições, Reginaldo Lopes chamou a escala 6x1 de "escravidão moderna".
Do outro lado, parlamentares e entidades empresariais cobram transição, negociação coletiva e compensações. No debate atual, a comissão especial já convocou representantes de setores como comércio, supermercados, bares, restaurantes, construção, indústria e agricultura para discutir os impactos socioeconômicos da mudança.
A mesma pergunta, outro nome
A linguagem mudou, mas o núcleo do conflito é o mesmo. Em 1917, a questão era impedir que a fábrica consumisse a vida inteira do operário. Em 1932, era impor um limite nacional ao tempo de trabalho. Em 1988, era repartir produtividade e criar empregos sem quebrar empresas.
Em 2026, a pergunta volta sob outro nome: escala 6x1. A redução da jornada nunca foi apenas uma pauta moral nem apenas uma conta empresarial. Ela sempre envolveu produtividade, salário, organização sindical, custo de produção, poder de negociação e projeto de país.
O Congresso volta agora a uma escolha que atravessa toda a República: decidir se o tempo livre é um custo a ser contido ou um direito social a ser ampliado.
{ "datacode": "NOTICIAS_LEIA_MAIS", "exhibitionresource": "NOTICIA_LEITURA", "showDelay": false, "articlekey": 118834, "viewed": [ "118834" ], "context": "{\"articlekey\":118834,\"originalarticlekey\":\"118834\"}" }