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Estratégia eleitoral
Congresso em Foco
25/5/2026 | Atualizado às 16:27
Transformar a sensação de insegurança em ativo político virou uma estratégia recorrente em campanhas presidenciais ao redor do mundo.
O uso de coletes à prova de balas, blindagens e aparatos de segurança ajuda candidatos a reforçar discursos de ameaça, caos social e violência institucional, elementos frequentemente usados para mobilizar eleitores e ampliar apoio político.
A aparição de Flávio Bolsonaro usando colete balístico em agendas públicas recolocou essa estratégia no centro do debate político brasileiro. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o senador afirmou que utiliza o equipamento para "não dar sopa ao azar", em referência ao atentado sofrido por Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.
Mais do que uma medida de proteção, a imagem do político blindado funciona como símbolo de enfrentamento e reforça a percepção de um ambiente político marcado por tensão permanente.
Segurança virou ferramenta de comunicação política
Nos últimos anos, campanhas eleitorais passaram a incorporar visualmente elementos ligados à segurança pessoal dos candidatos.
Escoltas armadas, carros blindados, coletes balísticos e estruturas de proteção passaram a integrar narrativas associadas à violência política, à polarização e à necessidade de endurecimento institucional.
A estratégia também ajuda a manter mobilizada uma base política acostumada a discursos de confronto. Desde a facada sofrida por Jair Bolsonaro em 2018, o tema da violência política tornou-se elemento recorrente da narrativa bolsonarista, frequentemente associado à ideia de que adversários representariam ameaça não apenas eleitoral, mas física.
No caso de Flávio Bolsonaro, o gesto conversa diretamente com uma das principais bandeiras históricas do bolsonarismo: a percepção de desordem social e hostilidade política.
O uso do colete, nesse contexto, funciona menos como detalhe operacional de segurança e mais como símbolo público. Não por acaso, Flávio comparou o equipamento a capacetes e uniformes usados por trabalhadores comuns, tentando normalizar a imagem e aproximá-la do cotidiano popular.
Trump transformou atentado em símbolo eleitoral
Nos Estados Unidos, Donald Trump também passou a explorar visualmente a ideia de ameaça política após sofrer uma tentativa de assassinato durante a campanha presidencial de 2024.
Depois do atentado, o republicano passou a realizar eventos cercado por vidros blindados e forte aparato do Serviço Secreto.
As imagens reforçaram um discurso já adotado por Trump desde 2016, baseado na ideia de que os Estados Unidos vivem uma crise marcada por violência urbana, imigração ilegal e descontrole institucional.
O atentado acabou incorporado à narrativa de resistência política do republicano, que acabou eleito presidente.
Milei apostou no discurso de colapso
Na Argentina, Javier Milei construiu sua ascensão eleitoral explorando a percepção de colapso econômico, insegurança social e falência das instituições tradicionais.
Embora não tenha adotado o uso frequente de coletes balísticos, Milei construiu sua imagem política associando criminalidade, crise econômica e falência das instituições à necessidade de ruptura política.
O discurso contra a "casta política" ajudou a consolidar sua imagem como representante de ruptura diante de uma sociedade apresentada como insegura e sem perspectivas. Milei venceu a eleição presidencial em 2023.
Violência marcou campanha na Colômbia
Na Colômbia, a disputa presidencial deste ano aprofundou ainda mais a associação entre violência e campanha eleitoral.
Na reta final da eleição, manifestações gigantescas tomaram as ruas contra o presidente Gustavo Petro, aliado político de Lula. O ambiente eleitoral passou a ser marcado por denúncias de violência política, ameaças e forte polarização.
Líderes oposicionistas passaram a aparecer em atos públicos usando coletes à prova de balas diante do histórico de violência política no país.
A tensão aumentou após o atentado contra o senador e pré-candidato presidencial Miguel Uribe Turbay, baleado durante um comício em Bogotá em junho de 2025. Ele morreu dois meses depois em decorrência dos ferimentos.
O episódio fortaleceu discursos ligados ao combate ao narcotráfico, ao crime organizado e à insegurança pública.
Nesse cenário, o advogado Abelardo de La Espriella emergiu como principal nome da direita colombiana, defendendo endurecimento contra criminalidade e grupos armados. Já Iván Cepeda representa o campo político ligado ao governo Petro.
Assassinato mudou disputa no Equador
O Equador viveu situação semelhante após o assassinato do candidato Fernando Villavicencio, em 2023. Na eleição seguinte, presidenciáveis passaram a votar e participar de agendas usando coletes à prova de balas e cercados por forte aparato militar.
Com a morte do candidato, Christian Zurita assumiu a disputa presidencial cercado por homens armados e utilizando proteção balística em agendas públicas.
A eleição passou a ser dominada por discursos sobre narcotráfico, violência urbana e perda de controle do Estado sobre o crime organizado.
Zurita acabou derrotado nas urnas, mas a pauta da segurança pública dominou a campanha presidencial equatoriana.
Insegurança virou ativo eleitoral global
A exploração eleitoral da insegurança também avançou em campanhas fora da América.
Na França, Marine Le Pen associou imigração, terrorismo e criminalidade à perda de controle do Estado francês. Na Itália, Giorgia Meloni utilizou discurso semelhante ao defender endurecimento migratório e reforço das fronteiras.
No Reino Unido, Nigel Farage transformou imigração e crise social em pilares da campanha do Brexit. Já na Alemanha, a AfD ampliou espaço político explorando episódios de violência e ataques terroristas para defender políticas mais rígidas de segurança.
No Japão, o assassinato do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe durante um discurso de campanha em 2022 ampliou o debate sobre proteção de autoridades e segurança em eventos políticos.
Na Coreia do Sul, o candidato presidencial Lee Jae-myung também passou a utilizar colete balístico durante atos públicos em 2025, alegando ameaças contra sua vida. O uso do equipamento virou tema central da campanha e alimentou debates sobre medo, radicalização política e encenação pública de vulnerabilidade.
Na África do Sul, lideranças oposicionistas também passaram a reforçar discursos ligados à criminalidade e à violência urbana em meio ao aumento da sensação de insegurança.
Em campanhas marcadas por polarização, violência política e sensação de instabilidade, discursos sobre ameaça, caos social e criminalidade passaram a ser usados como instrumentos de mobilização política, estratégia que vem se repetindo cada vez mais em disputas presidenciais ao redor do mundo.
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