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Documentário alerta para risco de crime organizado no gás de cozinha

Produção compara Brasil, México e Paraguai e aponta riscos de mudanças discutidas pela ANP no mercado de GLP.

Congresso em Foco

27/5/2026 19:05

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O debate sobre possíveis mudanças no mercado de gás de cozinha ganhou um novo capítulo com o lançamento do documentário "Cheiro de Perigo no Ar", do jornalista Eduardo Tchao. A produção reúne investigações no Brasil, Paraguai e México para sustentar um alerta: alterações regulatórias no setor de GLP podem abrir espaço para crime organizado, fraudes, sonegação e aumento de acidentes domésticos.

O tema ganhou força porque parte das medidas discutidas atualmente pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) já foi adotada em países que hoje enfrentam problemas graves no abastecimento e na segurança do gás de cozinha.

O trabalho ancorado por Eduardo Tchao pode ser visto na íntegra em: youtube.com/@congressoemfoco. Assista ao teaser:

O que está em debate no Brasil

As mudanças em discussão na ANP envolvem três pontos centrais:

  • flexibilização do enchimento de botijões de outras marcas por qualquer distribuidora;
  • autorização do enchimento fracionado em centrais remotas;
  • substituição da marca em alto-relevo nos recipientes por sistemas eletrônicos de rastreamento.

Hoje, o sistema brasileiro funciona com responsabilidade vinculada à marca estampada no botijão. Isso significa que cada distribuidora responde pela manutenção, rastreabilidade e segurança do recipiente.

Segundo especialistas ouvidos no documentário e em estudo da Escola de Segurança Multidimensional da USP, esse modelo criou ao longo de décadas uma barreira contra fraudes e infiltração criminosa.

O exemplo do Paraguai

O documentário mostra que, no Paraguai, a flexibilização do mercado permitiu o enchimento de botijões em postos de combustíveis e abriu espaço para a deterioração da fiscalização.

Hoje, segundo a produção, cerca de 80% dos recipientes estão vencidos.

Sem definição clara de responsabilidade sobre os botijões, muitos recipientes passaram anos sem manutenção adequada, com ferrugem, amassados e válvulas comprometidas.

"Depois que pudemos encher os botijões nas estações de serviço, começaram os problemas", afirma no documentário o bombeiro paraguaio Roque Gonzalez.

A reportagem recupera imagens de explosões e acidentes associados à falta de controle sobre os recipientes.

Cartéis no mercado mexicano

No México, o cenário descrito é ainda mais grave. O documentário sustenta que a desregulamentação do setor ajudou a transformar o mercado clandestino de GLP em fonte bilionária de receita para o crime organizado.

"A segunda fonte de renda do crime organizado no México é o roubo de hidrocarbonetos", afirma Susana Ivana Espinoza, ex-integrante da agência de controle de GLP mexicana.

Segundo a produção, quadrilhas passaram a roubar combustíveis de gasodutos, adulterar cargas e controlar partes da distribuição.

O documentário relembra um episódio ocorrido em setembro do ano passado, quando 31 pessoas morreram após a explosão de um caminhão que transportava GLP em uma área populosa. O cilindro utilizado estava vencido.

A insegurança fez parte da população mexicana voltar ao uso da lenha dentro de casa.

Produção aponta riscos de mudanças discutidas pela ANP no mercado de GLP.

Produção aponta riscos de mudanças discutidas pela ANP no mercado de GLP.Divulgação

Estudo da USP reforça alerta

As conclusões do documentário dialogam com estudo produzido pela Escola de Segurança Multidimensional da USP.

O levantamento afirma que as mudanças analisadas pela ANP podem criar "controle formal sem controle real" do setor.

Segundo os pesquisadores, permitir enchimento cruzado de botijões dilui responsabilidades sobre manutenção e integridade dos recipientes.

Já o enchimento remoto e fracionado multiplicaria pontos de operação, inclusive em regiões com menor presença do Estado.

O estudo também aponta riscos na adoção exclusiva de rastreamento eletrônico, devido à possibilidade de fraudes, manipulação de dados e dificuldade de auditoria em larga escala.

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O diagnóstico da USP afirma que a vulnerabilidade brasileira não é apenas teórica.

Segundo os pesquisadores, facções criminosas e milícias já exercem influência sobre parte do varejo de GLP em alguns estados.

O estudo compara o risco atual ao que ocorreu no mercado de combustíveis automotivos, alvo da Operação Carbono Oculto, que revelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, empresas de fachada e sonegação fiscal.

Segundo a investigação, houve movimentação superior a R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, além de sonegação estimada em R$ 15 bilhões.

Para os pesquisadores, mecanismos semelhantes poderiam migrar para o mercado de gás de cozinha caso haja afrouxamento regulatório.

Sistema brasileiro é tratado como referência

Tanto o documentário quanto o estudo destacam que o modelo brasileiro atual é considerado referência internacional pela combinação entre capilaridade, rastreabilidade física e responsabilização clara das distribuidoras.

Hoje, milhões de consumidores recebem botijões dentro de um sistema em que cada recipiente possui identificação permanente e passa periodicamente por requalificação técnica.

O alerta central das duas análises é que mudanças regulatórias sem fiscalização robusta podem desmontar mecanismos construídos ao longo de décadas.

"As regras existem com um propósito: proteger vidas", afirma Eduardo Tchao no documentário. "Se abrirmos mão disso, será o momento em que o país deixará de acreditar no que sempre funcionou."

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