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Gás de cozinha

Reforma no GLP pode impulsionar crime organizado, aponta estudo

Grupo de pesquisadores da USP sustenta que alterações tendem a criar vulnerabilidades no mercado.

Congresso em Foco

18/5/2026 13:56

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A proposta de reforma do mercado de gás liquefeito de petróleo, o GLP usado no botijão de gás de cozinha, pode ampliar a infiltração do crime organizado no setor, segundo estudo da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (USP).

As mudanças, em análise na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), tendem a criar vulnerabilidades em um mercado considerado estratégico, capilarizado e sensível para milhões de famílias brasileiras.

Conforme tem sido discutido pela agência reguladora, a reforma é centrada em três alterações principais: a flexibilização do enchimento de botijões de outras marcas por qualquer distribuidora, a autorização do enchimento fracionado em centrais remotas, e a substituição da marca gravada em alto-relevo nos recipientes por sistemas eletrônicos de rastreamento ainda não validados.

Para os pesquisadores, essas três frentes, combinadas, enfraquecem a cadeia de custódia, multiplicam pontos de operação e podem resultar em "controle formal sem controle real" do setor.

Estudo aponta para riscos em proposta de reforma no setor do gás de cozinha.

Estudo aponta para riscos em proposta de reforma no setor do gás de cozinha.Fotoarena/Folhapress

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O que está em jogo

Hoje, o modelo brasileiro vincula cada botijão à empresa responsável por sua segurança. A marca em alto-relevo no corpo do recipiente funciona como um instrumento físico de rastreabilidade e responsabilização.

O estudo sustenta que esse arranjo foi consolidado ao longo de décadas e ajudou a elevar os padrões de segurança do setor. No entendimento dos pesquisadores, trocar essa lógica por um sistema digital ainda indefinido representa uma mudança estrutural, não apenas uma modernização operacional.

O argumento central da pesquisa é que a discussão não pode ser tratada apenas como um debate econômico sobre concorrência, barreiras de entrada e preços ao consumidor. Para os autores, segurança pública precisa estar no centro da análise.

Em mercados de combustíveis e energia, reformas regulatórias mal calibradas, sem reforço proporcional da fiscalização, tendem a ser aproveitadas por agentes oportunistas e redes criminosas.

"A análise comparada apresentada neste estudo mostra que, em contextos de capacidade fiscalizatória limitada, flexibilizações mal calibradas em mercados de hidrocarbonetos tendem a produzir efeitos duradouros como diluição da cadeia de custódia, proliferação de ativos fora de padrão e infiltração da infraestrutura energética por organizações criminosas."

Risco e avanço criminoso

O diagnóstico dos pesquisadores é de que permitir que distribuidoras encham botijões de outras marcas dilui a responsabilização sobre a integridade do recipiente. Já o enchimento remoto e fracionado espalha operações por mais pontos do território, inclusive em locais de menor presença estatal.

A dependência de sistemas eletrônicos amplia a exposição a fraudes, manipulação de dados, sabotagens e autodeclarações difíceis de auditar em larga escala. O estudo resume que as três medidas, juntas, "multiplicam pontos de infiltração para organizações criminosas no elo de distribuição de GLP".

Esse alerta ganha peso porque, segundo o levantamento, a vulnerabilidade brasileira não é apenas teórica. Os pesquisadores destacam que o crime organizado já atua no varejo do GLP em diferentes Estados e que, em algumas regiões, a revenda de botijões já sofre influência direta de facções e milícias.

A pesquisa aponta que o modus operandi de um esquema bilionário de infiltração criminosa no mercado brasileiro de combustíveis líquidos, revelado na Operação Carbono Oculto, é replicável no GLP caso haja afrouxamento regulatório.

Segundo o estudo, a investigação mostrou movimentações superiores a R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, além de sonegação estimada em R$ 15 bilhões e uso de estruturas empresariais de fachada para dar aparência de legalidade às fraudes.

Na avaliação dos autores, o Brasil construiu ao longo de décadas um mercado de GLP com padrões elevados de segurança, capilaridade e rastreabilidade física que funciona como barreira à infiltração de produto irregular.

Ao comparar o cenário brasileiro com México, Equador e Paraguai, o estudo conclui que reformas regulatórias sem fiscalização forte tendem a abrir espaço para a infiltração criminosa no mercado de GLP. O entendimento é de que, quando o Estado perde capacidade de monitorar um mercado essencial, organizações ilegais ocupam esse espaço.

A conclusão do estudo é que, a proposta da ANP, na configuração atual, criará vulnerabilidades desproporcionais aos benefícios alegados e pode repetir, no gás de cozinha, a lógica que permitiu a captura criminosa da distribuição de combustíveis automotivos.

Crise orçamentária

As críticas do estudo se dirigem ainda à própria capacidade estatal de fiscalização. Segundo os pesquisadores, a ANP enfrenta crise orçamentária, com redução real de 82% nas verbas discricionárias entre 2013 e 2025, e chegou a suspender o Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis em julho de 2025.

Na visão dos autores, esse quadro demonstra o risco de qualquer reforma que aumente a complexidade regulatória e exija controle em tempo real sobre milhares de operações pulverizadas pelo país.

O estudo critica também a ordem dos fatores proposta pela agência reguladora. Em vez de primeiro validar tecnologia, dimensionar custos, testar governança e só depois discutir mudanças profundas, um relatório da ANP analisado na produção do estudo aponta que a lógica foi invertida: a liberação seria autorizada antes da consolidação dos instrumentos de controle.

Para os pesquisadores, isso compromete a solidez técnica da proposta e amplia o risco de uma abertura regulatória sem salvaguardas suficientes.

Leia a íntegra do estudo.

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