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China defende "não interferência" após ação dos EUA sobre PCC e CV

Às vésperas da visita de Mauro Vieira à China, Pequim defendeu a não interferência em assuntos internos ao comentar decisão dos EUA de enquadrar PCC e CV como grupos terroristas.

Congresso em Foco

29/5/2026 | Atualizado às 9:18

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A China reagiu nesta sexta-feira (29) à decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e defendeu o princípio da "não interferência" em assuntos internos de outros países.

A posição foi apresentada por Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, durante entrevista coletiva em Pequim. Questionada sobre a medida norte-americana, que foi criticada pelo governo brasileiro e vista por aliados de Brasília como uma forma de interferência externa, Mao afirmou que a China tomou conhecimento dos relatos sobre o caso.

"A China sempre defende a não interferência nos assuntos internos de outros países", declarou a porta-voz.

Lula e o presidente da China, Xi Jinping, durante visita do líder chinês ao Brasil em novembro de 2024.

Lula e o presidente da China, Xi Jinping, durante visita do líder chinês ao Brasil em novembro de 2024.Pedro Ladeira/Folhapress

A manifestação chinesa dá dimensão internacional à controvérsia aberta pela decisão de Washington. O governo dos Estados Unidos incluiu PCC e CV na categoria de "Terroristas Globais Especialmente Designados" e anunciou que as duas facções passarão a ser tratadas, a partir de 5 de junho, como "Organizações Terroristas Estrangeiras".

A decisão foi anunciada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, em meio à ofensiva do governo Donald Trump contra cartéis e grupos criminosos latino-americanos. Washington afirma que PCC e CV têm atuação violenta, redes internacionais e conexões que ultrapassam as fronteiras brasileiras. O governo brasileiro, no entanto, resiste ao enquadramento das facções como organizações terroristas e sustenta que elas devem ser combatidas como organizações criminosas, sem motivação ideológica ou política.

O anúncio norte-americano ocorreu na mesma semana em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu com Trump e com Rubio nos Estados Unidos. O senador é um dos defensores da classificação das facções brasileiras como terroristas, tese que ganhou força entre setores da oposição e foi rejeitada pelo governo Lula.

Visita de Mauro Vieira

A reação de Pequim ocorre também às vésperas da visita oficial do chanceler brasileiro, Mauro Vieira, à China. A viagem foi confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores chinês e ocorrerá entre 31 de maio e 2 de junho, a convite de Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China e integrante do Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista Chinês.

Segundo Mao Ning, Vieira e Wang Yi irão copresidir a quinta rodada do Diálogo Estratégico Abrangente entre os ministros das Relações Exteriores de Brasil e China. A porta-voz afirmou que os dois países são os maiores países em desenvolvimento de seus respectivos hemisférios, integram os Brics e têm papel relevante no Sul Global.

Maior parceria comercial

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, a corrente de comércio entre os dois países chegou a US$ 171 bilhões, maior valor da série histórica, considerando a soma de exportações e importações. As vendas brasileiras ao mercado chinês somaram US$ 100 bilhões, enquanto as compras de produtos chineses alcançaram US$ 70,9 bilhões. Com isso, o Brasil registrou superávit de US$ 29,1 bilhões na balança comercial com a China, que respondeu por 27,2% de todo o fluxo comercial brasileiro no ano.

Mao disse ainda que Pequim espera aprofundar a confiança política e estratégica com o Brasil, avançar na construção de uma "comunidade de futuro compartilhado" e reforçar a cooperação entre países do Sul Global.

Discurso alinhado

A fala conecta a reação chinesa à decisão dos Estados Unidos a uma agenda mais ampla da diplomacia de Pequim, que tem criticado práticas classificadas como unilaterais e defendido o princípio da soberania nacional em disputas internacionais. No caso brasileiro, a declaração chinesa ecoa a posição de Brasília de que o combate ao crime organizado deve ocorrer por meio de cooperação internacional, mas sem abertura para medidas que possam ser interpretadas como ingerência externa.

Efeitos sobre o Brasil

A classificação de PCC e CV pelos Estados Unidos tem efeitos jurídicos e financeiros. Na prática, pode ampliar sanções, restringir transações financeiras e aumentar o risco para pessoas, empresas ou instituições que sejam acusadas de prestar apoio material às facções. Para o governo brasileiro, porém, o uso da categoria de terrorismo contra grupos criminosos sem motivação ideológica cria riscos diplomáticos e pode abrir precedentes para ações extraterritoriais.

A preocupação ganhou força após a divulgação, em janeiro, da Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos para 2026. No documento, Washington afirma que pretende priorizar a defesa do território norte-americano e ampliar sua atenção ao Hemisfério Ocidental, com menções à garantia de acesso militar e comercial a áreas estratégicas que vão do Ártico à América do Sul.

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