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Movimento sindical
Congresso em Foco
26/7/2026 7:00
Quase meio século depois de Luiz Inácio Lula da Silva liderar as históricas greves do ABC paulista que marcaram a redemocratização do país, o novo presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wellington Damasceno, afirma que o movimento sindical volta a viver um período de profundas transformações. Desta vez, porém, o desafio não é enfrentar a repressão da ditadura militar, mas responder às mudanças provocadas pela revolução tecnológica, pela transição energética e pelas novas formas de contratação.
Em entrevista ao Congresso em Foco, Damasceno, eleito para comandar uma das entidades sindicais mais influentes do país, afirma que o sindicato precisa preservar o legado construído por Lula e seus sucessores, sem perder a capacidade de responder às mudanças que vêm remodelando a indústria e o mercado de trabalho.
"A responsabilidade é enorme pelo que representa a história do presidente Lula, que se confunde com a história do próprio sindicato."
Fundado em 1959, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ganhou projeção nacional durante as grandes greves do fim da década de 1970, quando Lula presidia a entidade. A mobilização dos trabalhadores do setor automotivo ajudou a enfraquecer a ditadura militar e impulsionou a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT).
Além de Lula, o sindicato foi presidido por dirigentes que posteriormente assumiram protagonismo nacional, como Jair Meneguelli e o atual ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho.
Uma nova ruptura
Na avaliação de Damasceno, o contexto atual também representa uma mudança estrutural para o movimento sindical, embora de natureza diferente daquela enfrentada no fim do regime militar.
Naquele período, a principal reivindicação era o direito à organização sindical e à negociação coletiva. Hoje, segundo ele, as transformações decorrem do avanço da digitalização da economia e da reorganização do trabalho.
"Na época do presidente Lula, a discussão era outra. Estávamos em um processo de ditadura militar, de repressão e de busca pela democracia. Agora vivemos uma nova fase disruptiva."
Entre os fatores que mais preocupam o dirigente estão a conectividade permanente proporcionada pelos celulares, o crescimento do trabalho por plataformas digitais, a internacionalização das relações de trabalho e a dificuldade de separar vida profissional e pessoal.
Segundo Damasceno, esse cenário exige que os sindicatos atualizem sua forma de atuação para dialogar com uma geração de trabalhadores que possui expectativas diferentes das anteriores.
Juventude, tecnologia e indústria
O novo presidente afirma que a entidade enfrenta simultaneamente três grandes transições: energética, tecnológica e geracional. "Precisamos continuar dando respostas para quem já está na categoria há bastante tempo, mas também entender as demandas da juventude, que tem anseios diferentes e uma forma diferente de se organizar", destaca.
Ele avalia que a indústria automobilística atravessa um momento decisivo diante do avanço da eletrificação dos veículos, da descarbonização e da incorporação de novas tecnologias produtivas. Para Damasceno, o Brasil tem condições de transformar essa mudança em oportunidade de desenvolvimento industrial.
Na avaliação do dirigente, o país precisa combinar políticas de preservação ambiental com uma estratégia de fortalecimento do parque industrial nacional, evitando que a transição energética resulte em perda de empregos.
"A gente acredita que pode contribuir para formular políticas que preservem o meio ambiente, mas também preservem a indústria e os empregos."
Novo perfil de trabalhadores
Além das mudanças tecnológicas, Damasceno afirma que o sindicato terá de encontrar formas de representar trabalhadores que deixaram de possuir vínculo formal com a indústria.
Segundo ele, milhares de profissionais que antes atuavam como metalúrgicos hoje trabalham como microempreendedores individuais (MEIs), prestadores de serviço ou terceirizados, deixando de integrar formalmente a categoria, embora mantenham vínculos históricos com o setor.
"Nós temos uma série de trabalhadores que foram metalúrgicos, se sentem metalúrgicos, mas por força do contrato de trabalho viraram MEI."
Para o dirigente, ampliar essa representação será uma das principais tarefas da nova gestão, e será feita mantendo a tradição de diálogo construída ao longo da história da entidade.
"Nossa responsabilidade é preservar esse legado e manter um sindicato de vanguarda, capaz de responder aos desafios presentes e aos desafios futuros."
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