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Eleições
Congresso em Foco
5/10/2026 | Atualizado às 7:09
Há muitas maneiras de interpretar uma eleição. Pode-se olhar para os números, para os mapas, para as pesquisas que acertaram ou erraram, para a composição do Congresso, para os governadores eleitos. Tudo isso terá seu tempo. Por ora, talvez valha começar por algo mais simples e bastante palpável: ouvir o que disseram, diante das urnas abertas, os dois candidatos que estarão no segundo turno.
Flávio Bolsonaro saiu na frente — 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula — e apareceu diante das câmeras como quem sabia ter recebido mais do que boa parte das pesquisas lhe prometia. Estava visivelmente satisfeito. Falou em mudança, em esperança, em "cuidar do Brasil" e procurou apresentar sua vantagem como sinal de que o país deseja uma nova direção. Houve ataques ao PT e ao Judiciário, evidentemente, mas o tom geral era de quem pretendia transformar o resultado em impulso para a etapa seguinte.
Do outro lado, o ambiente era outro. Lula reconheceu que esperava vencer no primeiro turno. À sua volta, aliados que haviam sofrido derrotas importantes, sobretudo em São Paulo. O presidente não escondeu a frustração e chegou a perguntar, ao comentar os resultados paulistas, se "o povo está certo" ou se seu grupo estava errado ao reclamar. Depois, atribuiu parte das resistências enfrentadas pelo PT ao preconceito contra políticas como cotas, Prouni e Fies: "nunca fomos perdoados", afirmou.
É aí que talvez esteja a primeira questão deste segundo turno.
Quem perde votos precisa, antes de tentar recuperá-los, procurar compreendê-los. Se o eleitor que não acompanhou o governo for visto essencialmente como alguém movido por preconceito, negacionismo ou incompreensão, o risco é transformar uma derrota parcial em confirmação da própria tese. E, consequentemente, repetir nos próximos vinte dias a campanha que produziu o resultado de domingo.
Flávio, ao menos em seu primeiro pronunciamento, pareceu falar para fora de seu eleitorado. Lula, em diversos momentos, pareceu falar para dentro do seu. Isso pode mudar já nas próximas horas. Campanhas corrigem rumos, discursos são recalibrados e segundo turno é outra eleição. Mas a fotografia inicial é essa.
Há, porém, uma segunda fotografia, talvez ainda mais importante para compreender o domingo. E ela não está apenas na disputa presidencial. Está no Senado.
A eleição para a Casa foi marcada, em inúmeros Estados, por uma pauta que atravessou partidos e candidaturas: a crítica ao Supremo Tribunal Federal. Antes mesmo da votação, era fácil ver que dezenas de candidatos competitivos defendiam ou admitiam impeachment de ministros da Corte. Depois das urnas, a nova composição passou a contar com ao menos 49 senadores favoráveis a algum processo dessa natureza — número ainda inferior aos 54 votos necessários, mas politicamente eloquente.
Não é possível, evidentemente, reduzir o voto de mais de cem milhões de brasileiros a uma única causa. Seria tão simplista quanto atribuir o resultado apenas à economia, aos costumes, ao antipetismo ou ao bolsonarismo. Mas também seria um erro não enxergar o que esteve diante dos olhos durante toda a campanha: em boa parte das disputas para o Senado, o Supremo não estava na urna, mas estava no palanque.
E aqui surge uma dificuldade adicional para Lula. Ao longo dos últimos quatro anos, Executivo e Supremo foram percebidos por parcela expressiva do eleitorado como integrantes de um mesmo campo institucional diante do bolsonarismo. Independentemente de essa percepção ser justa ou injusta, juridicamente correta ou politicamente simplificadora, ela produziu consequências. A rejeição dirigida ao Judiciário parece ter transbordado, em alguma medida, para o governo.
Talvez por isso o resultado deste domingo seja menos surpreendente do que parece. Os sinais estavam dados. Era preciso apenas lê-los sem a lente confortável das próprias expectativas.
O segundo turno dirá se os candidatos compreenderam o recado. Flávio Bolsonaro começa na frente, mas por margem pequena. Lula dispõe de história, máquina política e vinte dias para reagir. A questão, portanto, não é saber quem tem condições de vencer. Ambos têm.
A questão é saber quem será capaz de ouvir quem não votou nele.