Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
O general
Congresso em Foco
25/10/2026 | Atualizado às 22:33
Na guerra de narrativas que marcou o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, André Janones ganhou uma patente. O deputado federal virou general de um exército digital com milhões de seguidores. Luiz Inácio Lula da Silva era o marechal. Entre missões distribuídas pelo WhatsApp, transmissões ao vivo e convocações que começavam quase sempre com um sonoro "URGENTE!", Janones transformou um canal de mensagens em uma das mais impressionantes estruturas de mobilização da campanha.
Não havia quartel, farda ou continência. Havia celulares, grupos, vídeos e uma multidão disposta a atender ao chamado. Em três semanas, Janones conseguiu dar organização, identidade e propósito a uma militância que precisava reagir à vantagem conquistada por Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
O exército que formou tinha uma característica fundamental: não exigia carteirinha partidária. Cabiam petistas históricos, eleitores de outros partidos, militantes de esquerda e pessoas que, mesmo sem identificação com o PT, queriam participar da campanha de Lula. Janones ofereceu a todos uma bandeira comum, uma missão e um lugar na batalha.
Enquanto multidões ocupavam as ruas em manifestações de apoio ao presidente, milhões de pessoas se reuniam nas plataformas digitais. As imagens dos atos circulavam, os vídeos eram compartilhados e as mensagens atravessavam grupos e redes. A campanha ganhava uma segunda vida depois que os palanques eram desmontados.
Janones encontrou nesse movimento seu campo de atuação. E fez dele uma trincheira permanente.
O general e o marechal
A hierarquia militar começou como uma brincadeira, mas logo se tornou parte da identidade da mobilização.
No "Exército do Lula", os seguidores eram soldados. As orientações para compartilhar vídeos, divulgar publicações e convidar novos integrantes eram missões. Janones era o general, responsável por organizar as ações. Acima dele, na linguagem adotada pelos apoiadores, estava o marechal Lula.
A brincadeira tinha uma função política. Dava a cada participante a sensação de fazer parte de algo maior. Quem não podia viajar para um comício, subir em um palanque ou participar de uma caminhada encontrava uma maneira de atuar. Bastava ter um celular e disposição para compartilhar.
O canal, que reunia cerca de 50 mil inscritos antes do segundo turno, cresceu rapidamente. Em poucos dias, ultrapassou 2 milhões de seguidores e continuou avançando até superar 10 milhões.
Os números davam a dimensão da audiência. Mas a força da iniciativa estava também na capacidade de transformar seguidores em participantes de uma campanha.
Janones não pedia apenas apoio. Distribuía tarefas. Não se limitava a publicar mensagens. Convocava pessoas a fazê-las circular. Criou uma rotina em que cada integrante podia participar da disputa política, mesmo a quilômetros de distância de qualquer ato de campanha.
A mobilização ganhou o reconhecimento do próprio presidente. Em 7 de outubro, Lula gravou um vídeo ao lado de Janones convidando apoiadores a ingressar no canal.
"Vamos chegar a 5, 10 milhões de pessoas. Nosso exército tem que ser o maior exército democrático do mundo", afirmou.
O marechal havia reconhecido seu general.
"Pessoal, urgente"
Se o exército tinha uma hierarquia, também tinha uma palavra de ordem.
"Pessoal, urgente" tornou-se uma das expressões mais associadas a Janones durante o segundo turno. O deputado recorria ao chamado no início de vídeos em que convocava seguidores para novas ações.
A urgência era quase sempre a mesma. Havia uma mensagem para espalhar, um vídeo para compartilhar, uma publicação para impulsionar ou uma nova missão a cumprir.
O bordão ganhou repercussão, virou meme e passou a ser reconhecido mesmo por quem não acompanhava diretamente o canal.
Janones compreendeu uma característica das redes sociais: a comunicação política não depende apenas do conteúdo, mas também da capacidade de chamar a atenção em meio a uma quantidade interminável de informações.
A informalidade fazia parte da estratégia. O deputado apostou em vídeos diretos, humor, linguagem cotidiana e participação constante dos seguidores. Falava como quem conversa em um grupo de amigos, não como quem lê um pronunciamento oficial.
E havia outra diferença importante. A mobilização não dependia de concordância com todas as posições do PT. O exército reunia pessoas de diferentes trajetórias políticas em torno de um objetivo eleitoral comum.
Janones conseguiu transformar essa diversidade em uma identidade compartilhada. Durante aquelas três semanas, o pertencimento ao exército digital importava mais do que a filiação partidária de cada soldado.
O deputado já havia desempenhado papel relevante na campanha de 2022, quando desistiu da candidatura presidencial para apoiar Lula. Quatro anos depois, voltou a atuar na comunicação eleitoral, desta vez com uma estrutura de mobilização muito maior.
Quando o outro lado percebeu
O crescimento do "Exército do Lula" não passou despercebido pela campanha adversária.
A candidatura de Flávio Bolsonaro levou o funcionamento do canal ao TSE, questionando os limites da mobilização digital organizada por Janones.
O espaço foi alvo de decisões que restringiram seu funcionamento e de determinações posteriores relacionadas à retomada das atividades.
A disputa judicial deu à iniciativa uma dimensão ainda maior. O canal que havia começado como instrumento de mobilização se transformara também em objeto de confronto entre as duas candidaturas.
A reação adversária mostrava que Janones havia se tornado um personagem impossível de ignorar na disputa digital.
O deputado classificou as restrições como censura e fez da própria controvérsia mais um motivo para convocar seus seguidores.
A ofensiva judicial também ofereceu à militância uma nova narrativa: a de que o exército havia crescido a ponto de provocar uma reação formal dos adversários.
Na guerra de narrativas, até a tentativa de limitar uma operação podia se transformar em combustível para mantê-la mobilizada.
Uma campanha que não dormia
A atuação de Janones ultrapassou o WhatsApp.
O deputado promoveu transmissões ao vivo, participou de atividades com Lula, divulgou vídeos e convocou seguidores para ações coordenadas nas redes sociais.
Na reta final, anunciou uma transmissão de 24 horas após o debate da TV Globo, com a proposta de distribuir tarefas e manter a militância mobilizada até o dia da votação.
Também participou de uma transmissão com Lula que alcançou milhões de visualizações no YouTube.
A frequência das publicações ajudou a criar uma campanha digital que parecia não conhecer intervalo. A cada novo episódio da disputa, Janones procurava oferecer uma resposta, uma orientação ou uma convocação.
A lógica era manter o exército em movimento.
Enquanto a campanha tradicional se organizava em torno de agendas, viagens, discursos e eventos, a mobilização digital permanecia ativa entre uma atividade e outra. O fim de um comício não significava o fim de sua repercussão. Um vídeo podia continuar circulando durante horas, alcançar novos públicos e alimentar outras conversas.
As manifestações de rua ofereciam imagens poderosas para essa dinâmica. Multidões reunidas em apoio a Lula se tornavam também conteúdos compartilhados por milhares de pessoas.
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad chegou a comparar a mobilização do segundo turno à eleição presidencial de 1989.
"Eu acredito que foi o segundo turno mais bonito que eu presenciei. Talvez comparável ao de 89, mas eu penso que há uma diferença de participação esse ano", declarou.
Haddad também destacou a emoção de Lula diante das manifestações, especialmente na Avenida Paulista.
"Ele estava muito emocionado ontem. Segunda vez que ele está com a Paulista batendo recorde de público, e não é pouco emocionante o que ele viveu esses dias", afirmou.
A avaliação sobre recordes de público foi feita pelo ex-ministro, sem apresentação de números independentes comparáveis. Mas as manifestações ocuparam um lugar central na narrativa da campanha e produziram imagens que circularam intensamente nas redes.
As ruas davam rosto à mobilização. As plataformas prolongavam sua presença.
O fator Janones
A força política de Janones esteve em perceber que uma campanha não se faz apenas com mensagens enviadas aos eleitores. Também se faz oferecendo às pessoas uma maneira de participar.
O deputado construiu um espaço no qual milhões de seguidores recebiam orientações, compartilhavam conteúdos e se reconheciam como integrantes de uma mesma mobilização.
Deu nome ao grupo, criou símbolos, estabeleceu uma hierarquia e transformou a participação em uma rotina.
Conseguiu, sobretudo, reunir pessoas que não necessariamente compartilhavam a mesma identidade partidária. Petistas e não petistas encontraram no exército uma forma de atuar juntos em torno da candidatura de Lula.
A estratégia também conferiu a Janones uma posição singular na campanha. Ele não era apenas um parlamentar fazendo discursos em defesa do presidente. Era o rosto de uma operação digital com linguagem, audiência e capacidade de mobilização próprias.
Seu protagonismo foi construído a cada convocação, a cada transmissão e a cada novo grupo de apoiadores que se incorporava à iniciativa.
O general não precisava estar em todas as manifestações para fazer parte da mobilização. Sua presença se multiplicava nas telas dos celulares.
E, quando a campanha adversária recorreu à Justiça Eleitoral para questionar o funcionamento do canal, ficou evidente que aquela operação já ocupava um espaço relevante na disputa.
Por um triz
Na manhã da votação, Lula agradeceu as manifestações de carinho recebidas durante a campanha.
"Vou votar agradecido ao povo brasileiro. O que o povo fez comigo nesses dias é uma coisa que não tem como pagar. É muita generosidade, é muito carinho, é muito amor e eu serei eternamente grato ao comportamento do povo", declarou.
Horas depois, enquanto o país acompanhava a apuração, Janones voltou às redes sociais. Desta vez, sem distribuir missões, convocar soldados ou anunciar uma nova ofensiva.
Recorreu à música.
"Estamos meu bem por um triz, pro dia nascer feliz …pro dia nascer feliz", escreveu no X, em referência à canção "Pro Dia Nascer Feliz", do Barão Vermelho.
A mensagem parecia distante dos chamados urgentes que haviam marcado aquelas três semanas. Depois de mobilizar milhões de pessoas, Janones encontrava-se diante da única tarefa que não podia distribuir aos seguidores: esperar a decisão das urnas.
O deputado começou o segundo turno com um canal de WhatsApp e terminou com um exército de milhões, uma linguagem própria e um lugar de destaque na história da campanha.
Conseguiu reunir petistas e não petistas, transformou seguidores em participantes ativos e fez de cada celular uma possibilidade de ampliar a mobilização.
Na brincadeira que ganhou força entre os apoiadores, Janones era o general e Lula, o marechal. A patente era simbólica, mas o protagonismo conquistado pelo deputado foi político.
Depois de três semanas de convocações, transmissões e batalhas digitais, o general havia encerrado sua campanha.
O marechal aguardava a decisão do país.
E Janones, que passou o segundo turno convocando milhões de pessoas para agir, encontrou na música a expressão para o momento em que já não havia mais nada a fazer.
Restava esperar o dia nascer.
E ele tinha certeza que seria feliz.