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Terra prometida
Congresso em Foco
7/11/2026 11:55
Houve um tempo em que, no Brasil, bastava desconfiar da procedência de um uísque para alguém sentenciar: "Isso aí é coisa do Paraguai". Era uma referência pouco generosa ao país vizinho, associada à falsificação e aos produtos de qualidade duvidosa.
O tempo passou, e a expressão ganhou uma ironia inesperada. Nos últimos anos, o Paraguai deixou de ser, no imaginário de muitos brasileiros, o lugar do uísque suspeito para se transformar numa espécie de Suíça sul-americana. Um país de prosperidade quase milagrosa, onde os impostos eram baixos, os empresários prosperavam e a economia parecia ter encontrado a fórmula da felicidade.
Não faltaram entusiastas.
Em julho deste ano, o empresário Luciano Hang visitou Assunção, encontrou-se com o então presidente Santiago Peña e voltou encantado. Classificou o Paraguai como um "exemplo de simplicidade, responsabilidade e prosperidade". Também apresentou o governo paraguaio como referência para a América Latina.
Na mesma época, articulistas falaram sobre uma "revolução silenciosa" e um "milagre econômico" que estaria atraindo empresas, capitais e talentos brasileiros. Um parlamentar exaltou, no Congresso Nacional, o ambiente de segurança jurídica e tributária do país vizinho, capaz, segundo ele, de atrair empresas brasileiras.
O Paraguai parecia ter descoberto aquilo que o restante do continente, depois de séculos de tentativas, não conseguira encontrar.
Até que chegou novembro.
O colapso do Ueno Bank, instituição que reunia quase três milhões de clientes (num país que possui seis milhões e meio de habitantes), provocou o bloqueio de contas, manifestações populares e uma crise política devastadora. Santiago Peña, que havia mantido participação societária no grupo controlador do banco, renunciou em 5 de novembro. No dia seguinte, sofreu impeachment e foi colocado em prisão domiciliar, sob investigação por suspeitas de irregularidades. Ele nega as acusações.
De repente, a terra prometida apresentava problemas bastante terrenos.
É preciso, contudo, fazer justiça aos fatos. O crescimento econômico do Paraguai não foi inventado. Em 2025, seu PIB avançou 6,6%, segundo o Fundo Monetário Internacional. Houve investimentos, estabilidade monetária e uma redução expressiva da pobreza ao longo de duas décadas.
Mas é precisamente aí que reside a questão.
Crescimento econômico não é sinônimo de desenvolvimento completo. E desenvolvimento não se improvisa.
O Paraguai ainda convive com elevada informalidade, deficiências de infraestrutura, limitações nos serviços públicos e profundas desigualdades. As conquistas são reais, mas os problemas também. E nada disso desaparece porque um governo reduz impostos, atrai algumas indústrias ou apresenta bons indicadores de crescimento.
Construir uma nação desenvolvida exige uma geração de investimentos contínuos em educação, saúde, infraestrutura, produtividade e instituições confiáveis. Exige segurança jurídica que vá além das promessas feitas aos investidores. Exige fiscalização, transparência e um Estado capaz de assegurar que as regras sejam respeitadas, inclusive pelos poderosos.
Não há fórmula instantânea para isso.
A quebra de um banco tampouco significa a falência de toda a economia paraguaia, assim como a destituição de um presidente não apaga os avanços conquistados pela população. Aliás, o funcionamento das instituições diante da crise também merece ser observado.
O que desmorona é outra coisa: a fantasia de que existe um caminho curto e indolor para a prosperidade.
Essa talvez seja a lição mais importante para os brasileiros. Países não se transformam em potências por decreto, por ideologia ou por propaganda. Os resultados duradouros dependem de políticas públicas consistentes, mantidas e aperfeiçoadas ao longo de sucessivos governos. A verdadeira transformação é gradual, trabalhosa e, quase sempre, menos espetacular do que seus propagandistas gostariam.
O Paraguai pode continuar crescendo. Pode superar esta crise e alcançar novos patamares de desenvolvimento. Seria excelente para os paraguaios e para toda a região.
Mas convém desconfiar de quem anuncia milagres econômicos prontos para consumo.
Afinal, o problema nunca foi o uísque ser do Paraguai. O problema era aquilo que o rótulo prometia e o conteúdo não entregava.
Com a prosperidade, não é diferente.
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