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Congresso em Foco
31/8/2006 | Atualizado 2/9/2006 às 0:00
Ronaldo Brasiliense*
Sou de um tempo em que o repórter com certeza tinha mais coragem. Expunha-se mais. Corri riscos, muitas vezes. Recebi ameaças - mandava o ameaçador entrar na fila - e segui em frente. Trombei muitas vezes com meus superiores, nas principais redações desse país (Veja, ISTOÉ, Jornal do Brasil, Estadão, Correio, etc...) por não tolerar a censura. Claro que fui censurado, e perdi a conta das vezes. As alegações eram as mais estapafúrdias possíveis.
Já contei - e repito - a história da portaria que o Delfim Netto, todo poderoso ministro da Fazenda, assinou no início dos anos 80. Tinha duas linhas e enquadrava a hidrelétrica de Tucurui como "obra de infra-estrutura prioritária do Programa Grande Carajás." Depois fiquei sabendo que essas mal (ou muito bem) traçadas linhas garantiam à construtora Camargo Corrêa uma isenção de imposto de renda que à época chegava a US$ 380 milhões. O editor da Veja alegou: Orra, meu! É imoral, mas não é ilegal. E a matéria não saiu.
Mais de 10 anos depois, já no Correio, escrevi sobre as falcatruas do Proer - o programa criado pelo imperador Fernando Henrique e seu primeiro-ministro Pedro Malan para salvar os bancos falidos. Contei que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal tinham colocado nos cofres do Banco Nacional, nos três meses anteriores à decretação da liquidação extrajudicial pelo Banco Central, nada menos que R$ 4,7 bilhões.
Graças a esse aporte, o Banco do Brasil teve um prejuízo em 1995 que, salvo engano, chegou a R$ 7,2 bilhões. Já o Bradesco, que vendeu moeda podre (Fundo de Compensação de Variação Salarial) do falido Sistema Financeiro da Habitação para o Nacional dar ao Banco Central como garantia do empréstimo, teve um lucro líquido superior - também salvo engano - a R$ 3 bilhões. A conversa com os editores foi exatamente a mesma: é imoral, mas não é ilegal. A matéria também foi engavetada, mas por pouco tempo. Publiquei em outro órgão da "imprensa burguesa" e perdi meu empreguinho com carteira assinada, férias, 13º e otras cositas.
Nos dois casos citados usei o mesmo argumento: - Quer dizer que imoralidade pode?
Bem, agora estamos no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prestes a ser reeleito por mais quatro anos apesar do Waldomiro Diniz, do José Dirceu, do José Genoíno, do Silvinho - Land Rover - Pereira, do Valerioduto, da corrupção nos Correios, do Mensalão, das remessas feitas para o Duda Mendonça em paraíso fiscal no exterior, dos dólares na cueca e dos famigerados sanguessugas. Tudo bem, é do jogo democrático. Cada um vota em quem quiser. Eu mesmo votei no Lula.
Agora não dá mais para agüentar ver que o mesmo argumento patronal de que a imoralidade é permitida e somente a ilegalidade deve ser publicada continua vigorando na imprensa brasileira, 20 anos depois. Não existe o meio ladrão, o meio corrupto, o meio bandido, o mais ou menos ético, assim como não existe a quase-grávida. Ou é ou não é. Ou está ou não está? Como diria o genial britânico Winston Churchill, um dos maiores frasistas da história: "Não existe opinião pública. Existe apenas a opinião publicada."
Para o bom entendedor, é o suficiente.
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