Em 2026, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o Brasil se manteve como o país que mais mata pessoas trans pelo 18º ano consecutivo. As eleições deste ano, por outro lado, registram um número recorde de candidaturas trans: 116, o maior número desde o início do monitoramento da ANTRA, em 2014. Dessas, 104 são candidaturas de mulheres trans e travestis. Assim, ao mesmo tempo em que a violência se constitui enquanto uma gramática de exclusão e marginalização de pessoas trans, algumas lideranças têm adentrado a institucionalidade.
Os casos de Erika Hilton (SP) e Duda Salabert (MG) constituem um importante termômetro desse processo: duas trajetórias que nasceram na política local e alcançaram a política nacional, tensionando o lugar historicamente ocupado por lideranças trans na política. Ambas enfrentam constantes ataques que ameaçam a sua participação e permanência na vida política e, agora, conquistaram a reeleição para a Câmara dos Deputados, buscando consolidar sua atuação na política institucional.
O engajamento eleitoral LGBTQIA+ não é algo novo. Desde o processo de redemocratização, observam-se candidaturas LGBTQIA+, embora pouco numerosas e pouco articuladas. Só a partir de meados dos anos 2000, esse cenário começou a se transformar, com o engajamento eleitoral assumindo caráter progressivamente mais sistemático e cumulativo. A expansão das candidaturas e do número de pessoas eleitas ocorreu, sobretudo, no âmbito municipal, enquanto o acesso às posições legislativas nacionais permaneceu sendo uma experiência pouco representativa. No âmbito municipal, a trajetória de Kátia Tapety é particularmente ilustrativa da possibilidade de construção de carreiras políticas longevas: entre 1992 e 2000, foi vereadora, e, em 2004, eleita vice-prefeita de Colônia do Piauí (PI).
A trajetória de Kátia demonstra que, embora excepcional, já era possível construir uma carreira política LGBTQIA+ via disputa eleitoral. Com a expansão desse engajamento, também se transforma o perfil das candidaturas: até meados dos anos 2010, entre as candidaturas de sujeitos LGBTQIA+ predominavam homens cisgêneros, gays e brancos; em 2020, porém, as candidaturas de pessoas trans representaram 52,9% das candidaturas LGBTQIA+ identificadas.
No âmbito nacional, a presença de parlamentares LGBTQIA+ se ampliou gradualmente. Clodovil Hernandes foi eleito para a Câmara dos Deputados em 2006, tornando-se o primeiro gay assumido a ocupar uma cadeira na Casa. Em 2010, Jean Wyllys foi eleito deputado federal e reeleito em 2014 e em 2018, mas deixou o mandato e o país em 2019, após sofrer graves ameaças de morte. A eleição de 2018 ampliou a presença de parlamentares LGBTQIA+ no Congresso Nacional, com a eleição de Professor Israel (PV-DF) e Marcelo Calero (PPS-RJ) para a Câmara dos Deputados e de Fabiano Contarato (REDE-ES) para o Senado, como o primeiro senador assumidamente gay eleito no Brasil. David Miranda (PSOL-RJ), eleito suplente, assumiu posteriormente uma cadeira na Câmara, após a renúncia de Jean Wyllys. Na eleição seguinte, em 2022, quatro mulheres LGBTQIA+ foram eleitas para a 57ª legislatura: Daiana Santos (PCdoB-RS), Dandara (PT-MG), Duda Salabert (PDT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP). Assim, foi somente em 2022, que a presença de pessoas trans e travestis alcançou a Câmara dos Deputados, com a eleição de Erika Hilton e Duda Salabert.
Suas trajetórias expressam uma ascensão da participação política de pessoas trans e travestis: experiências que haviam adquirido especial visibilidade na política municipal passaram a alcançar também a arena legislativa nacional. Ambas as deputadas têm se envolvido e ganhado centralidade no cenário nacional a partir das agendas de direitos trabalhistas, meio ambiente, direito das mulheres, saúde pública, educação, dentre outras.
Duda Salabert Rosa, belorizontina, professora de Literatura em uma escola tradicional da cidade, se tornou conhecida por seu envolvimento na luta ambiental, além da sua atuação em projetos como o "Transvest" na capital mineira. Duda recebeu atenção em 2018 ao se tornar a primeira pessoa trans a se candidatar para o Senado. Em 2020, então filiada ao PDT, foi eleita vereadora de Belo Horizonte com 37.610 votos, tornando-se a candidata mais votada no município e a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal e, em 2022, foi a terceira deputada federal mais votada do Estado.
Ao longo dos quatro anos de seu primeiro mandato apresentou mais de 1.300 propostas legislativas e esteve envolvida em 65 relatorias. A atuação parlamentar de Duda nas comissões concentrou-se em pautas socioambientais e territoriais, com destaque para a fiscalização de rompimentos de barragens, a transposição do Rio São Francisco, a proteção da Amazônia e dos povos originários e tradicionais e o acompanhamento de questões ambientais e de desastres climáticos. Também incluiu temas sociais e de direitos, como educação, igualdade racial e trabalho. Além disso, Duda Salabert assumiu a vice-liderança do Governo na Câmara, entre março de 2024 e maio de 2025, e do PDT, entre setembro de 2025 e abril de 2026. Os dados apontam para uma atuação diversificada ao apresentar proposições e participar de comissões com temáticas diversas - que vão muito além da pauta LGBTQIA+. Esse movimento sugere uma base de sustentação do mandato vinculada a diferentes segmentos sociais.
A sua atuação intensa convive com casos de violência, Duda relata ser alvo de violência política desde o início de sua carreira na política, por meio de assédio, discriminação e ameaças de morte, por parte de diferentes setores da sociedade, inclusive de outros parlamentares. Em 2025, voltou a relatar ameaças de morte contra si e sua família, afirmando que os ataques e manifestações transfóbicas contribuíram para a intensificação dessas ameaças. Segundo ela, em determinados períodos foi necessário recorrer a escolta armada, carro blindado e colete à prova de balas. Recentemente, em setembro de 2026, Duda relatou ter sido vítima de uma tentativa de homicídio enquanto fiscalizava uma denúncia de extração ilegal de minério na divisa entre Belo Horizonte e Nova Lima.
A trajetória de Erika Hilton também foi construída entre a militância e ocupação de espaços institucionais. Paulista e pedagoga, Erika iniciou sua trajetória política pela militância em favor dos direitos da população negra e LGBTQIA+. Em 2016, candidatou-se à vereança em Itu (SP), mas não foi eleita, e, em 2018, integrou a Bancada Ativista (PSOL), sendo eleita como uma das co-deputadas do mandato coletivo na Assembleia Legislativa de São Paulo. Em 2020, deixou a experiência coletiva e foi eleita vereadora de São Paulo pelo PSOL, com 50.508 votos, tornando-se a primeira mulher trans e sexta candidata mais votada para a Câmara Municipal de São Paulo. Durante o mandato, foi presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência contra Pessoas Trans e Travestis, instalada em 2021, iniciativa voltada à investigação das diferentes formas de violência enfrentadas por essa população.
Em 2022, Erika se candidatou à Câmara dos Deputados pelo PSOL e foi eleita com 256.903 votos, obtendo a nona maior votação entre as candidaturas do Estado de São Paulo. Ao lado de Duda Salabert, tornou-se uma das primeiras mulheres trans eleitas para a Câmara dos Deputados.
Ao longo dos quatro anos de mandato, Erika Hilton apresentou mais de 1.400 propostas legislativas e esteve envolvida em 44 relatorias. Ela também ocupou diferentes espaços de destaque na Câmara dos Deputados: em 2023 e 2024, foi vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial e, em 2024, assumiu a liderança da Federação PSOL-Rede na Câmara. Também integrou, como titular, comissões relacionadas aos direitos humanos, aos direitos das mulheres e ao trabalho, além de participar de grupos e comissões voltados a temas como inteligência artificial e regulamentação das redes sociais.
Em 2025, Erika apresentou a PEC 8/2025, que propõe a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, e teve atuação destacada em defesa ao fim da escala 6x1. Em 2026, assumiu a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (CMulher), tornando-se a primeira mulher trans a ocupar o cargo. Sua atuação parlamentar, portanto, ultrapassa a pauta LGBTQIA+, articulando diferentes agendas de direitos sociais e indicando a construção de um mandato apoiado em bases e demandas sociais plurais.
A trajetória de Erika Hilton também esteve marcada por episódios de violência política; a deputada tem relatado ameaças, ataques e manifestações discriminatórias relacionadas à sua identidade de gênero, raça e atuação política. Em 2025, por exemplo, acionou a Polícia Federal após receber ameaças de morte nas redes sociais, que se somaram a outros episódios de ataques e ameaças registrados anteriormente. A deputada também foi alvo de ataques transfóbicos do apresentador do SBT, Ratinho, em razão de sua eleição para presidência da CMulher. O episódio levou Erika a acionar o Ministério Público Federal, em uma ação coletiva por danos morais à população trans e travesti. Nesse processo, Erika obteve direito de resposta na emissora, decisão da qual Ratinho recorreu; o caso segue em tramitação.
As trajetórias de Duda e Erika compartilham a passagem de uma liderança construída inicialmente no âmbito municipal para uma atuação de projeção nacional; mandatos apoiados em pautas e bases plurais; ocupação de posições de liderança partidária; e exposição constante a ataques referentes à identidade de gênero. Se a votação de 2022 marcou a chegada dessas lideranças ao Congresso, 2026 representou a permanência: comprovando que a consolidação de uma base ampliada e uma atuação diversificada foram capazes de sustentar o mandato diante de um ambiente de hostilidade política, que também se expressa por meio de ameaças e episódios de violência.
A resposta das urnas, em 2026, demonstrou a existência de uma "virada trans" marcada não apenas pela ampliação das candidaturas e da presença de mulheres trans e travestis nas instituições políticas, mas também pela capacidade de algumas dessas trajetórias se consolidarem eleitoralmente. Em Minas Gerais, Duda Salabert foi reeleita deputada federal com 229.535 votos, alcançando a terceira maior votação no Estado e a segunda maior votação entre as mulheres. Já Erika Hilton, reeleita deputada federal por São Paulo, conquistou 1.596.472 votos, tornando-se a mulher com a maior votação da história do país para o cargo de deputada federal. Além da expressiva votação, a atuação de Erika em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, incluindo sua participação em articulações políticas durante a campanha de 2026, evidencia outra dimensão dessas trajetórias: a ampliação da visibilidade pública de mulheres trans e travestis e o fortalecimento de sua interlocução com diferentes lideranças políticas. Essa dimensão permite compreender a atuação política dessas mulheres além do Legislativo, considerando sua inserção em articulações que atravessam diferentes espaços e esferas de poder e as conectam a dinâmicas políticas mais amplas no cenário nacional.
Nos últimos anos, outras lideranças trans e travestis vêm construindo trajetórias eleitorais e ocupando espaços institucionais em diferentes Estados. Um exemplo é Thabatta Pimenta (PV), liderança política do Rio Grande do Norte (RN), eleita vereadora de Carnaúba dos Dantas em 2020 e de Natal em 2024. Após disputar uma vaga na Câmara dos Deputados em 2022, sem ser eleita, conquistou, em 2026, uma cadeira como deputada federal pelo Rio Grande do Norte. Outras lideranças, como Benny Briolly (RJ), Dani Balbi (RJ), Linda Brasil (SE) e Neon Cunha (SP), entre outras, também construíram trajetórias eleitorais, conquistando mandatos como vereadoras e deputadas estaduais. Essas experiências, formadas sobretudo no âmbito local, ajudam a situar Erika e Duda não como casos isolados, mas como parte de uma ampliação do campo político com a chegada de pessoas trans na política institucional. A reeleição de Erika e Duda não significa que as barreiras foram superadas, mas pode indicar que essas trajetórias não representam mais experiências excepcionais e passaram a ocupar um lugar mais estável no cenário político brasileiro.
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