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Lula agradece recuo de Trump, mas ressalta: "Precisamos avançar mais"

Presidente vê avanço no diálogo com os Estados Unidos após retirada da tarifa agrícola, mas afirma que ainda há pendências que afetam indústria e comércio brasileiro.

21/11/2025
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O presidente Lula comemorou na noite dessa quinta-feira (20) a decisão dos Estados Unidos de eliminar a tarifa adicional de 40% sobre determinados produtos agrícolas brasileiros, mas fez questão de destacar que o gesto não resolve todas as pendências comerciais entre os dois países. "Não é tudo que o Brasil quer, não é tudo que o Brasil precisa", afirmou Lula em vídeo gravado no Salão do Automóvel, ao lado de Fernando Haddad e Geraldo Alckmin, seus principais negociadores na frente econômica e industrial.

A decisão anunciada pela Casa Branca beneficia especialmente setores como café, carne bovina, cacau, açaí e frutas diversas, atingidos desde agosto pelo tarifaço imposto unilateralmente por Donald Trump. O decreto norte-americano ressalta que a revisão foi possível graças ao "progresso inicial" nas negociações abertas após uma conversa telefônica entre Lula e Trump em 6 de outubro. Dias depois, os dois presidentes se encontraram na Ásia, reforçando o canal político que culminou no recuo tarifário.

Reduções em etapas e impacto imediato

A retirada divulgada nesta quinta é o segundo alívio em uma semana. Na sexta passada, Washington já havia reduzido a sobretaxa de 50% para 40% sobre cerca de 200 produtos alimentícios. Agora, o corte vale exclusivamente para o Brasil, restaurando tarifas aos níveis anteriores ao tarifaço.

Os efeitos são expressivos para setores como o de café, responsável por 16% das exportações brasileiras destinadas aos EUA. Durante os meses de tarifa máxima, as compras americanas de café do Brasil despencaram 51,5%. A carne bovina também foi um dos setores que mais pressionaram o governo brasileiro por uma solução diplomática, agora parcialmente alcançada.

Além da eliminação da tarifa extra, frutas como tomate, manga e coco passarão a ter regime sazonal, com isenção em períodos definidos segundo a demanda do mercado americano.

Agradecimento parcial e pressão por mais avanços

Apesar do gesto, Lula fez questão de manter o tom cauteloso. Segundo ele, ainda há tarifas elevadas sobre máquinas e implementos agrícolas, veículos, autopeças, aço, produtos químicos e têxteis — todos setores estratégicos para a indústria brasileira. "Eu vou agradecer só parcialmente", disse. "Vou agradecer totalmente quando tudo estiver acordado entre nós."

A fala reforça a estratégia do governo de aproveitar a abertura do diálogo para buscar uma solução ampla que reduza não apenas o impacto no agronegócio, mas também na manufatura nacional.

Casa Branca mantém estado de emergência e margem para novas tarifas

Embora retire a sobretaxa de 40% para dezenas de produtos agrícolas, o governo Trump manteve em vigor o estado de emergência que fundamentou o tarifaço de agosto. Isso significa que outras tarifas, especialmente sobre bens industriais, continuam valendo. A ordem executiva autoriza novos ajustes caso Washington avalie que o Brasil não está atendendo às exigências americanas.

O cenário também tem forte peso eleitoral nos EUA. Segundo analistas, o recuo tarifário busca reduzir preços ao consumidor, reagir à derrota republicana nas eleições locais e sinalizar pragmatismo econômico em meio às críticas internas.

Negociadores brasileiros celebram

No vídeo publicado por Lula, Fernando Haddad afirmou que o diálogo "fez o bom senso prevalecer", dizendo que a prioridade é fortalecer cadeias produtivas comuns entre Brasil e EUA, com destaque para baterias e carros elétricos. Já Alckmin, que assumirá a Presidência interinamente enquanto Lula viaja ao G20 na África do Sul, classificou a decisão americana como "avanço, emprego e desenvolvimento".

O Itamaraty também comemorou a medida, afirmando que ela confirma a eficácia da retomada diplomática com Washington.

Tarifaço: origem política e escalada

O conflito comercial começou em abril, quando Trump impôs um tarifaço global de 10% em resposta ao que qualificou como "comportamento desfavorável" de parceiros comerciais. Em agosto, ampliou a ofensiva contra o Brasil, elevando a tarifa para 40% e vinculando a decisão ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. O gesto gerou forte reação do governo Lula e mobilização de setores exportadores.

Desde então, Brasília buscava um canal direto de negociação — aberto apenas após a ligação telefônica de outubro. A retirada anunciada nesta quinta marca a primeira reversão completa das sanções específicas ao Brasil, mas ainda deixa pendências significativas no comércio bilateral.

Em suas redes sociais, Lula resumiu o momento como uma "vitória do diálogo, da diplomacia e do bom senso", mas reforçou que o objetivo é ir além: "Esse foi um passo na direção certa, mas precisamos avançar ainda mais. Seguiremos nesse diálogo com o presidente Trump tendo como norte nossa soberania e o interesse dos trabalhadores, da agricultura e da indústria brasileira".

Com as tarifas parcialmente derrubadas, o governo aposta em novas rodadas de negociação para ampliar os ganhos comerciais e transformar o alívio emergencial em acordo duradouro.

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