A retirada do nome do ministro Alexandre de Moraes da lista de sancionados pela Lei Magnitsky, decidida pelo governo dos Estados Unidos, não apenas reconfigurou o tabuleiro diplomático entre Brasília e Washington, como também escancarou uma divisão interna na direita ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O episódio desencadeou um confronto público entre o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o núcleo que atuou nos EUA para pressionar autoridades americanas, formado principalmente pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), pelo influenciador Paulo Figueiredo e pelo blogueiro Allan dos Santos.
A crise começou com a nota divulgada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo após o anúncio do fim das sanções. No texto, os dois afirmaram ter recebido a decisão "com pesar" e atribuíram o recuo do governo Donald Trump à "falta de coesão interna" no Brasil. A mensagem foi interpretada como uma crítica direta a parlamentares bolsonaristas que permaneceram no país e que, segundo Eduardo, não teriam dado apoio político suficiente à ofensiva internacional contra Moraes.
Eduardo é apontado como o principal articulador, junto ao governo norte-americano, da inclusão de Moraes na lista da Lei Magnitsky. Ao responsabilizar a "sociedade brasileira" e aliados políticos pelo fracasso da estratégia, o deputado acabou provocando reação imediata de outros nomes da direita.
Nikolas Ferreira foi o mais contundente. Em texto publicado nas redes sociais, sem citar Eduardo nominalmente, o deputado mineiro classificou essa leitura como uma "fraude intelectual" e acusou o grupo de recorrer a "narrativas infantis" para deslocar responsabilidades. Para Nikolas, é incorreto atribuir a parlamentares brasileiros uma decisão tomada no campo da geopolítica.
"Atribuir ao povo brasileiro ou aos parlamentares a responsabilidade por uma decisão geopolítica tomada pelos Estados Unidos não é apenas um erro de análise — é uma fraude intelectual", escreveu. Em seguida, criticou, mais uma vez sem citar nome, o fato de Eduardo atuar a partir do exterior: "Trata-se de uma tentativa conveniente de simplificar um cenário complexo, deslocando injustamente a responsabilidade para quem, na prática, tem enfrentado pressões e riscos reais dentro do país".
Bate-boca com Allan dos Santos
O tom subiu ainda mais quando Allan dos Santos entrou na discussão. Há poucos dias ele havia feito um post afirmando que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não retiraria as sanções impostas a Moraes. A mensagem, que já não está mais disponível, pois foi apagada pelo autor, foi compartilhada por Nikolas com os demais deputados do PL.
Foragido da Justiça brasileira desde 2021 e aliado de Eduardo Bolsonaro, o blogueiro publicou ontem nova mensagem, responsabilizando os parlamentares pelo resultado da articulação nos EUA. Em referência à aprovação do chamado PL da Dosimetria na Câmara, escreveu:
"Motivos: 1) cagaram pro Eduardo.
2) A dosimetria celebrada pelos deputados derrubou a Magnitsky.
Parabéns aos envolvidos."
A mensagem sugeria que a atuação de aliados de Bolsonaro na Câmara — especialmente na votação do projeto que reduz penas de condenados pelos atos golpistas — teria enfraquecido a pressão internacional contra Moraes. Nikolas reagiu com ironia: "Agora a culpa é nossa".
Ao perceber a repercussão, Allan dos Santos confrontou publicamente o deputado mineiro no X (antigo Twitter). "Por que enviar meu tuíte no grupo do WhatsApp dos deputados, Nikolas? Quer entrar ao vivo para discutir o assunto?", questionou. A resposta de Nikolas foi direta e agressiva: "Não, porque você é um bosta". Allan retrucou: "Você já debateu com tantas pessoas que você também desconsidera moralmente. Isso tudo é medo?".
O episódio explicitou um conflito que vinha se acumulando há meses. Eduardo Bolsonaro acusa Nikolas e outros parlamentares mais jovens de tentar se afastar politicamente do ex-presidente Jair Bolsonaro, preservando o eleitorado bolsonarista, mas sem subordinação direta ao clã. Nikolas, por sua vez, tem buscado se afirmar como liderança própria, questionando estratégias adotadas pelo núcleo mais radical e pelo grupo que atua fora do país.
Na noite dessa sexta-feira (12), Alexandre de Moraes agradeceu publicamente ao presidente Lula pelo empenho do governo brasileiro na retirada das sanções, que também atingiam sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O ministro classificou o recuo dos EUA como uma vitória do Judiciário, da soberania nacional e da democracia. Lula, por sua vez, afirmou que a aplicação da Lei Magnitsky contra um ministro do STF foi injusta e representou uma ingerência indevida nos assuntos internos do Brasil. Os dois participaram do evento de inaguração do SBT Notícias, plataforma multimídia do canal paulista.