O presidente Lula começa, nesta terça-feira (27), a primeira viagem internacional de 2026 em um ambiente diplomático complexo, marcado pelo avanço da direita na América Latina e pela influência direta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no cenário internacional. O destino é a Cidade do Panamá, onde Lula participa do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, organizado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF) em parceria com o governo panamenho.
Será a primeira visita de Lula ao país neste mandato — a anterior ocorreu em 2007, durante o segundo governo — e também a primeira viagem internacional do ano, em um calendário que tende a ser mais seletivo por se tratar de um ano eleitoral. O presidente desembarca no Panamá no fim da tarde de terça-feira e participa, na quarta, da sessão inaugural do fórum, no qual o Brasil é o país convidado de honra. Lula será o segundo a discursar, logo após o presidente panamenho, José Raúl Mulino.
Ambiente político adverso
O encontro reunirá mais de 2.500 lideranças políticas e econômicas e terá forte presença de chefes de Estado identificados com pautas liberais e conservadoras, muitos deles alinhados à Casa Branca. Entre os nomes confirmados estão Mulino, que manteve negociações recentes com Donald Trump sobre o Canal do Panamá, e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, expoente da direita latino-americana que já se referiu a Lula como "bandido" no passado. A expectativa é de que os dois tenham o primeiro contato direto durante o evento.
Também participam o presidente do Equador, Daniel Noboa, o primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness, e o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, empossado em novembro de 2025 e responsável por encerrar uma sequência de governos progressistas no país andino. A principal exceção ao bloco direitista, além de Lula, é a primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, de centro-esquerda.
Apesar de não figurar como tema central da viagem, a situação da Venezuela deve surgir nas conversas paralelas. O Panamá adota uma postura mais alinhada aos Estados Unidos, que defendem ações duras contra o governo venezuelano, enquanto o Brasil tem criticado a prisão de Nicolás Maduro pelos EUA e avalia que o país vive hoje um cenário de estabilidade relativa. Segundo a embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, o tema será tratado com cautela. "Mesmo que haja uma pequena discordância no enfoque ou na declaração, continuamos dialogando com profundidade e tranquilidade", afirmou.
Relação estratégica com o Panamá
Além do fórum, a agenda de Lula inclui uma reunião bilateral com José Raúl Mulino e uma visita ao Canal do Panamá. A relação entre os dois presidentes é descrita pelo Itamaraty como intensa. Desde 2024, Lula e Mulino se encontraram cinco vezes em reuniões bilaterais e à margem de cúpulas do Mercosul. Em agosto de 2025, Mulino esteve no Brasil, visita agora retribuída.
A parceria econômica entre os dois países vive um momento de expansão acelerada. Em 2025, o intercâmbio comercial cresceu 78% e alcançou US$ 1,6 bilhão, impulsionado sobretudo pelas exportações brasileiras de petróleo e derivados, que saltaram de US$ 300 milhões para US$ 1,6 bilhão. O forte superávit brasileiro levou o Itamaraty a defender a necessidade de equilibrar a balança, incentivando importações de produtos panamenhos.
No setor de defesa, a venda de quatro aeronaves Super Tucano, da Embraer, ao governo panamenho é apontada como um marco da cooperação Sul-Sul e do fortalecimento da presença tecnológica brasileira na região. O Panamá também figura como o sétimo maior destino externo de investimentos brasileiros, com um estoque estimado em US$ 9,5 bilhões.
Durante o fórum, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, deve assinar o Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos, que estabelece regras de proteção recíproca aos investimentos e busca estimular a circulação de capital produtivo entre os dois países.
Mercosul e integração regional
Outro ponto central da visita é o aprofundamento da relação do Panamá com o Mercosul. Primeiro país da América Central a se associar ao bloco, o Panamá participa do encontro em meio aos avanços do acordo Mercosul–União Europeia e às negociações para a criação de uma área de livre comércio com os países do bloco sul-americano. Para o governo brasileiro, a associação panamenha reforça o peso político e econômico do Mercosul.
A importância logística do país centro-americano também entra no radar. O Brasil é o 15º maior usuário do Canal do Panamá, por onde passam cerca de sete milhões de toneladas de exportações brasileiras por ano. O aeroporto de Tocumen, principal hub aéreo do país, é visto como estratégico para conexões com a América Central, o Caribe e parte da América do Sul.
A viagem ao Panamá marca o início de um ano em que Lula pretende reduzir o ritmo de deslocamentos internacionais. Em 2026, o presidente deve visitar cerca de quatro países, bem menos do que os 16 visitados em 2025.
Em fevereiro, estão previstas viagens à Índia e à Coreia do Sul, com missões comerciais apoiadas pela ApexBrasil. Em abril, Lula deve ir à Alemanha para participar da Feira de Hannover, a maior feira de tecnologia industrial do mundo. A ausência do presidente em Davos, onde ocorre simultaneamente o Fórum Econômico Mundial, reforça a prioridade dada à integração latino-americana e caribenha.