Durante depoimento à Polícia Federal em dezembro, no inquérito que investiga a emissão de títulos falsos pelo Banco Master, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou não haver "clareza" de que o caso configurasse, de fato, uma fraude financeira.
Segundo o economista, a carteira de papéis vendida por Daniel Vorcaro, com investimentos da Tirreno Consultoria, não atendia aos termos contratuais nem às exigências documentais do BRB. Ainda assim, ele disse não haver sinais de que se tratasse de títulos podres.
"Até hoje a gente não tem uma evidência concreta de que essas carteiras tinham problema ou, como é dito, são carteiras podres. Até hoje a gente não tem essa evidência", disse Paulo Henrique Costa, que depois reafirmou: "a gente não tem clareza até hoje de que isso foi uma fraude. O que a gente percebeu foi uma mudança de padrão documental e de originação do crédito".
Veja a gravação:
A carteira em questão somava R$ 12 bilhões em papéis da Tirreno Consultoria, empresa investigada como fachada para a emissão de títulos de crédito falsos destinados ao Master. Segundo o ex-presidente do BRB, o contrato firmado com Vorcaro previa a compra de uma carteira de investimentos originada pelo próprio Master, e não por terceiros. A venda dos papéis por um valor inferior ao da compra ocorreu em razão desse desentendimento sobre a origem.
"Nós tínhamos uma previsão contratual de que as carteiras precisavam ser originadas pelo Master, e, quando nós verificamos o padrão documental, não nos atendia, mesmo ela tendo uma performance de pagamento, segundo os arquivos que eram repassados de maneira adequada", disse.
Apesar da divergência, Paulo Henrique Costa negou haver indícios de que os papéis fossem falsos: "Em primeiro lugar, pelo comportamento dos arquivos que a gente recebia, demonstrando que os débitos, as averbações estavam acontecendo. Segundo, porque esses R$12 bilhões envolviam 400 mil CPFs, aproximadamente, e um milhão de contratos".
Tirreno Consultoria
A Tirreno Consultoria é investigada pela Polícia Federal como uma das principais empresas utilizadas pelo Master para a emissão de títulos de crédito falsos inseridos no mercado financeiro.
Criada em novembro de 2024, a Tirreno fechou apenas um contrato durante sua operação, tendo o Master como cliente. A companhia foi gerida por Oliveira Seixas Maia, ex-funcionário de Vorcaro. Seu capital social, originalmente de R$ 100, saltou para R$ 30 milhões em apenas cinco dias.
Segundo a Polícia Federal, o Banco Master não tinha recursos em 2025 para pagar seus próprios títulos emitidos no mercado. Para enfrentar a crise, adquiriu créditos da Tirreno sem efetuar o pagamento, que depois foram vendidos ao BRB por R$ 12 bilhões. Pouco tempo depois, os papéis se desvalorizaram, causando prejuízo ao banco brasiliense.
No depoimento, Paulo Henrique Costa afirmou que, após o desentendimento envolvendo a carteira da Tirreno, o BRB interrompeu as negociações envolvendo títulos com esse perfil:
"Nós paramos de fazer as sessões no dia 15 de maio das carteiras que tinham a característica da Tirreno. Nós continuamos fazendo outras sessões e em menores volumes das carteiras de crédito que tinham características iguais às de 2024 [emitidos diretamente pelo Master], que eram carteiras que a gente já tinha uma experiência de oito, nove meses, com desempenho, como a gente já falou, adequado de adimplência e de retorno".