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Dorothea Werneck, 2ª mulher a ocupar um ministério: "Somos abre-alas"

Segunda ministra na história do Brasil, ex-titular do Trabalho e da Indústria e Comércio lança livro de memórias, relembra machismo, poder e a geração que abriu caminho para mulheres em cargos de decisão.

20/6/2026
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Quando recebia convites para ocupar cargos de poder, Dorothea Werneck não se perguntava se estava pronta, se saberia fazer ou se poderia fracassar. A pergunta era outra: "Por que não?". Foi assim que a economista mineira entrou em espaços nos quais quase não havia mulheres. Em 1989, ao assumir o Ministério do Trabalho, tornou-se a segunda mulher a ocupar um ministério no Brasil e a primeira a comandar a pasta. Seis anos depois, seria também a primeira mulher à frente da área de Indústria e Comércio.

Aos 77 anos, prestes a completar 78, Dorothea revisita essa trajetória em Aprendendo e vivendo: uma biografia contada por histórias e versos, livro de memórias lançado em Brasília na última quarta-feira (17). Organizada pelo professor Ricardo Sastre e publicada pela editora Marcavisual, a obra reúne episódios de bastidores, reflexões pessoais e lembranças de uma das personagens mais relevantes da administração pública brasileira nas últimas décadas.

Em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco, Dorothea fala sobre a experiência de ter integrado governos de perfis distintos — José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso — e de ter acompanhado, por dentro, momentos centrais da redemocratização, da abertura econômica, da estabilização da moeda e da reorganização do Estado brasileiro.

Para ela, sua geração abriu caminho. "Nós somos abre-alas", afirma. "Hoje, atrás da gente, tem uma escola de samba completa", brinca, ao comentar a presença de mulheres em postos de comando na administração pública.

"Por que não?"

Dorothea diz que sempre entrou "de peito aberto" nas funções que aceitou. Os convites, segundo ela, vinham de pessoas que conheciam seu trabalho e sua formação técnica.

"Eu não sou do tipo que, na hora que vem o convite, por exemplo, para ser ministra, fica pensando: 'Será que eu devo? Será que eu sei? Será que eu vou fazer certo? Será que eu vou fazer errado?", afirma.

A resposta íntima era simples: "Por que não?". Para a ex-ministra, coragem não é ausência de risco, mas disposição para ocupar espaços novos. "Se der errado, você sai. Se não é o que você gosta, você sai. E sai para outra", diz.

A segunda mulher ministra

A primeira mulher a ocupar um ministério no Brasil foi Esther de Figueiredo Ferraz, nomeada ministra da Educação em 1982. Dorothea veio sete anos depois, no Ministério do Trabalho, uma área considerada estratégica na agenda econômica e social. Mais tarde, voltou ao primeiro escalão no Ministério da Indústria, Comércio e Turismo.

"Se eu pude contribuir dizendo 'mulher pode dar certo em qualquer função, é uma alegria que eu vou ter o resto da vida", afirma.

A trajetória, segundo ela, não foi apenas individual. Representou também a entrada de mulheres em ambientes antes quase exclusivamente masculinos, como ministérios, conselhos, negociações econômicas e mesas de decisão política.

Machismo e resposta rápida

Ao longo da vida pública, Dorothea relata ter enfrentado situações de machismo e constrangimento. Quando homens faziam comentários sobre sua aparência ou roupa, ela devolvia no mesmo tom: "Eu olhava para o homem e dizia: 'Nossa, sua gravata é linda". A resposta, segundo ela, fazia o interlocutor perceber o ridículo da situação.

Em episódios mais graves, recorria a superiores e deixava claro que não voltaria a lidar diretamente com quem ultrapassasse limites. "Qualquer coisa ligada a assédio, ou eu brincava, ou eu respondia na hora", afirma.

O dia em que questionou o ITA

Entre as histórias que Dorothea gosta de lembrar está a conversa que teve com um ministro da Aeronáutica depois de descobrir, por meio do filho, que o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) não aceitava mulheres no vestibular.

Diante da confirmação, questionou a restrição. Se colégios tradicionalmente femininos ou masculinos já aceitavam estudantes de ambos os sexos, por que o ITA ainda barrava candidatas?

"Colégio de freira de mulher está aceitando menino. Colégio de padre de homem está aceitando mulher. E o ITA não aceita mulher?", provocou.

Dorothea afirma que, no ano seguinte, o instituto passou a aceitar mulheres. Para ela, o episódio ilustra uma transformação mais ampla do país: a chegada feminina a universidades, empresas, governos e áreas tecnológicas antes associadas quase exclusivamente aos homens.

"Isso é comigo, não com vocês"

O episódio mais dramático relatado por Dorothea ocorreu durante sua passagem pelo Ministério do Trabalho, entre 1989 e 1990. Uma usina siderúrgica em Minas Gerais havia sido ocupada por trabalhadores. Segundo ela, havia pressão, em reunião no Palácio do Planalto, para que militares entrassem à força no local.

Dorothea se opôs. Disse que a negociação era responsabilidade dela, como ministra do Trabalho, e não dos militares.

"Isso é comigo e não com vocês", recorda ter dito.

A conversa ficou tão pesada que ela precisou sair da sala, ir ao banheiro e vomitar. Lavou a boca, voltou à reunião e manteve a posição. Ao final, os militares não invadiram a fábrica, e os trabalhadores deixaram o local cantando o Hino Nacional.

Escuta e negociação

Dorothea não reduz a presença feminina no poder a uma disputa por espaço. Para ela, homens e mulheres carregam formas diferentes de ver o mundo, e essas diferenças devem ser tratadas como complementares.

Na avaliação da ex-ministra, as mulheres tendem a levar aos ambientes de decisão maior capacidade de escuta, negociação e mediação de conflitos. "A gente tem mais paciência, a gente aceita a opinião divergente, a gente sabe argumentar, a gente dá tempo para o outro falar", diz.

Para Dorothea, liderança moderna não pode se basear no "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Governar, administrar e liderar exigem conversa, participação e disposição para lidar com posições diferentes.

"Nós temos que trabalhar juntos. De preferência, de mãos dadas", afirma.

A mulher que entrou em ministérios quase inteiramente masculinos agora organiza sua trajetória em livro. Nas memórias, Dorothea revisita não apenas os cargos que ocupou, mas o caminho que sua geração ajudou a abrir. "Nós somos abre-alas", resume. O desfile, hoje, já não depende só dela.

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