O presidente Lula foi à tribuna da Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22) com mensagens voltadas para dentro e fora do Brasil. Cobrou reação das Nações Unidas às guerras, criticou interferências externas, rejeitou pressões sobre recursos naturais e o Pix e levou a eleição de 4 de outubro ao centro do discurso. Em diferentes trechos, os Estados Unidos apareceram como referência, embora Donald Trump não tenha sido citado nominalmente.
A crítica mais dura veio logo na abertura. Lula disse que a ONU atravessa seu momento mais crítico desde 2003, quando discursou pela primeira vez como presidente, e que a organização está "falhando" em sua missão de impedir guerras. Responsabilizou ainda o imobilismo do Conselho de Segurança e retomou uma antiga crítica brasileira ao poder de veto das grandes potências.
"A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa", declarou. Mais adiante, acrescentou: "As concessões à lei do mais forte já passaram dos limites".
O "quintal" e os porta-aviões
Ao falar da América Latina, Lula mencionou a proximidade da região com "a maior potência militar do mundo", apontou o avanço de "tentações hegemônicas" e emendou: "O Brasil não cabe no quintal de ninguém".
Na sequência, criticou a "ingerência externa em processos eleitorais" e a divisão do mundo em zonas de influência. Também classificou como anacrônicas as "investidas neocoloniais por recursos estratégicos".
A referência militar reapareceu no trecho sobre crime organizado. Lula disse que o país não pretende transferir a outros a responsabilidade pela proteção de suas fronteiras.
"Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime", afirmou. Logo depois, disse ter apresentado pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos uma proposta de cooperação contra a lavagem de dinheiro de criminosos brasileiros no exterior.
Tarifas e terras raras
No comércio, Lula afirmou que a Organização Mundial do Comércio "respira por aparelhos" e condenou o uso de tarifas como instrumento de pressão.
"Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas", disse. Mais adiante, mencionou o "tarifaço contra nossa economia" e afirmou que o Brasil deverá, ainda assim, bater novo recorde de exportações.
O presidente também dedicou parte do discurso aos minerais críticos e às terras raras necessárias à transição energética. "Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro", afirmou.
Segundo Lula, o acesso a esses recursos terá como contrapartida geração de valor no Brasil, transferência de tecnologia e abastecimento de setores estratégicos nacionais.
Big techs, bets e Pix
As grandes empresas de tecnologia também entraram no discurso. Lula defendeu a regulação da inteligência artificial e das big techs e acusou "tecno-oligarcas" de tentar criar um ambiente digital "sem regras nem transparência".
No mesmo trecho, atacou as plataformas de apostas, dizendo que as bets transformam "o vício em lucro", e defendeu o sistema brasileiro de pagamentos.
"Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix", afirmou.
Democracia x negacionismo
Lula reservou o encerramento para a eleição de 4 de outubro. Disse que os brasileiros não irão apenas escolher presidente, governadores e parlamentares.
"Vão decidir entre democracia e negacionismo. Se o Brasil vai avançar rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão", afirmou.
Segundo Lula, o pleito será "transparente e competitivo", mas há quem abuse da liberdade de expressão "para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país". O presidente também mencionou redes de desinformação e defendeu o sistema eleitoral brasileiro.
"A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho", encerrou.