Há números que, antes de qualquer interpretação, exigem alguns segundos de contemplação.
Em 2025, o advogado Willer Tomaz registrou na plataforma de apostas Blaze R$ 4,963 bilhões em perdas e R$ 4,8 bilhões em ganhos em jogos de cassino. O resultado líquido foi negativo em aproximadamente R$ 163 milhões. Somadas as duas pontas, foram quase R$ 10 bilhões em movimentação de jogos em um único ano.
Tomando como referência os R$ 4,9 bilhões arredondados pela reportagem que revelou o caso, o prejuízo líquido de R$ 163 milhões representa cerca de 3,33% desse montante. Considerando a cifra exata de R$ 4,963 bilhões registrada como perdas brutas, são 3,28%.
A comparação ajuda a dar dimensão ao volume: alguém que apostasse R$ 100 mil todos os dias, sem faltar um único dia, precisaria de 49 mil dias — cerca de 134 anos — para chegar a R$ 4,9 bilhões.
A conta é apenas ilustrativa. Não significa que Willer tenha colocado R$ 4,9 bilhões novos na plataforma. Segundo os dados levados ao processo, os depósitos feitos por ele em 2025 somaram cerca de R$ 300 milhões, enquanto os saques chegaram a R$ 137 milhões. Os bilhões decorrem do giro sucessivo do dinheiro dentro dos jogos, com valores ganhos sendo novamente apostados.
Ainda assim, a escala é incomum.
Da roleta para o Judiciário
Willer resolveu levar parte da conta à Justiça.
Em 2 de agosto de 2026, às 9h51, foi autuada na 44ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo ação proposta pelo advogado contra a Foggo Entertainment Ltda., operadora da Blaze. O processo recebeu o número 4142445-56.2026.8.26.0100. O cadastro judicial registra pedido de tutela antecipada e atribui à causa o valor de R$ 20 milhões.
A reportagem do Metrópoles, que teve acesso às peças, informa que Willer pretende obter a devolução dos R$ 163 milhões de prejuízo líquido e sustenta que sofre de ludopatia. Sua defesa afirma que a plataforma não teria adotado adequadamente mecanismos de jogo responsável diante do padrão e do volume das apostas. Um laudo psiquiátrico apresentado aos autos afirma que o advogado iniciava tratamento.
A Blaze já apresentou contestação no processo, conforme o andamento judicial, mas o conteúdo dessa defesa não consta do extrato disponibilizado.
Dois dias depois
É aqui que a cronologia acrescenta um dado particularmente curioso — e que precisa ser tratado exatamente pelo que é: uma proximidade de datas.
A ação contra a Blaze foi distribuída em 2 de agosto.
No dia 4 de agosto, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra Willer Tomaz no âmbito da operação Sem Desconto. Entre os locais vasculhados estava seu escritório de advocacia em Brasília.
Ou seja: dois dias separam o ajuizamento da ação relativa às perdas milionárias nas apostas e a busca da Polícia Federal.
Até o momento, não há elemento público que demonstre relação entre uma coisa e outra. A coincidência temporal, isoladamente, não autoriza essa conclusão.
Na investigação que levou às buscas, a Polícia Federal descreveu Willer como alguém ligado a uma estrutura que funcionaria como um "hub financeiro, patrimonial e logístico" à disposição de investigados, entre eles o senador Weverton Rocha. A afirmação consta da investigação que subsidiou decisão do ministro André Mendonça, do STF.
Willer nega qualquer participação no esquema. Sua defesa afirmou que a diligência teria ocorrido exclusivamente em razão de uma aeronave de sua propriedade utilizada particularmente por Weverton e sustenta que ele não tem vínculo com as fraudes investigadas no INSS.
O amigo de Flávio
Há ainda um componente político nessa história.
Willer Tomaz mantém relação próxima com o senador Flávio Bolsonaro. O próprio Flávio já se referiu publicamente a ele como amigo e saiu em sua defesa após as investigações da PF.
A relação não se limita a encontros sociais. Reportagens apontam que os dois fizeram viagens juntos ao exterior; Flávio retornou dos Estados Unidos em aeronave da qual Willer era cotista e, durante a campanha presidencial, utilizou um apartamento pertencente a empresa ligada ao advogado. O Metrópoles informou ainda que eles viajaram juntos ao exterior cinco vezes em 2025 e que uma festa familiar do senador ocorreu em imóvel de Willer em Angra dos Reis.
Nenhum desses fatos, isoladamente, demonstra ilegalidade por parte de Flávio Bolsonaro. Eles documentam, contudo, a proximidade pessoal entre o senador e um advogado que, simultaneamente, aparece em uma investigação da PF e protagoniza uma ação judicial envolvendo cifras extraordinárias no mercado de apostas.
Um remoto antecessor nas loterias
A história política brasileira já conheceu outro personagem que ficou nacionalmente conhecido pela dimensão extraordinária de sua relação com jogos.
Nos anos 1990, durante a CPI dos Anões do Orçamento, o então deputado federal João Alves afirmou que parte de seu patrimônio decorria de sua extraordinária sorte nas loterias: dizia ter recebido 221 prêmios. A explicação entrou para o folclore político nacional.
O contexto daquele episódio era completamente diferente. João Alves estava sob investigação da CPI do Orçamento, e as conclusões divulgadas à época apontaram a utilização de apostas e bilhetes premiados na tentativa de dar aparência lícita a recursos. Ele renunciou ao mandato em 1994 antes do julgamento político de sua cassação.
Não há base, e não vá o leitor afoito, estabelecer equivalência entre os dois episódios.
O único paralelo possível é outro: a extraordinária dimensão dos números ligados ao jogo.
João Alves dizia ter sido premiado 221 vezes.
Willer Tomaz apresenta agora à Justiça uma contabilidade em outra escala: quase R$ 5 bilhões registrados do lado das apostas perdedoras, R$ 4,8 bilhões em ganhos e R$ 163 milhões de prejuízo líquido.
E há uma última peculiaridade.
Segundo documentos reproduzidos pelo Metrópoles, em determinado momento Willer chegou a escrever ao funcionário da Blaze que o atendia diretamente: "duvido que exista alguém no mundo que tenha te dado mais lucro do que eu."
Pode ser apenas uma frase dita entre apostador e casa de apostas.
Os números, de todo modo, dão uma ideia da escala.