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Do tigrinho ao tigrão: Willer Tomaz aposta quase R$ 5 bilhões em bet

Willer Tomaz registrou cifras bilionárias em jogos na Blaze e foi à Justiça tentar recuperar R$ 163 milhões. A ação foi proposta pelo amigo de Flávio Bolsonaro dois dias antes de seu escritório ser alvo de busca da PF.

Congresso em Foco

29/9/2026 | Atualizado às 20:45

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Há números que, antes de qualquer interpretação, exigem alguns segundos de contemplação.

Em 2025, o advogado Willer Tomaz registrou na plataforma de apostas Blaze R$ 4,963 bilhões em perdas e R$ 4,8 bilhões em ganhos em jogos de cassino. O resultado líquido foi negativo em aproximadamente R$ 163 milhões. Somadas as duas pontas, foram quase R$ 10 bilhões em movimentação de jogos em um único ano.

Tomando como referência os R$ 4,9 bilhões arredondados pela reportagem que revelou o caso, o prejuízo líquido de R$ 163 milhões representa cerca de 3,33% desse montante. Considerando a cifra exata de R$ 4,963 bilhões registrada como perdas brutas, são 3,28%.

A comparação ajuda a dar dimensão ao volume: alguém que apostasse R$ 100 mil todos os dias, sem faltar um único dia, precisaria de 49 mil dias — cerca de 134 anos — para chegar a R$ 4,9 bilhões.

A conta é apenas ilustrativa. Não significa que Willer tenha colocado R$ 4,9 bilhões novos na plataforma. Segundo os dados levados ao processo, os depósitos feitos por ele em 2025 somaram cerca de R$ 300 milhões, enquanto os saques chegaram a R$ 137 milhões. Os bilhões decorrem do giro sucessivo do dinheiro dentro dos jogos, com valores ganhos sendo novamente apostados.

Ainda assim, a escala é incomum.

Da roleta para o Judiciário

Willer resolveu levar parte da conta à Justiça.

Em 2 de agosto de 2026, às 9h51, foi autuada na 44ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo ação proposta pelo advogado contra a Foggo Entertainment Ltda., operadora da Blaze. O processo recebeu o número 4142445-56.2026.8.26.0100. O cadastro judicial registra pedido de tutela antecipada e atribui à causa o valor de R$ 20 milhões.

A reportagem do Metrópoles, que teve acesso às peças, informa que Willer pretende obter a devolução dos R$ 163 milhões de prejuízo líquido e sustenta que sofre de ludopatia. Sua defesa afirma que a plataforma não teria adotado adequadamente mecanismos de jogo responsável diante do padrão e do volume das apostas. Um laudo psiquiátrico apresentado aos autos afirma que o advogado iniciava tratamento.

A Blaze já apresentou contestação no processo, conforme o andamento judicial, mas o conteúdo dessa defesa não consta do extrato disponibilizado.

Dois dias depois

É aqui que a cronologia acrescenta um dado particularmente curioso — e que precisa ser tratado exatamente pelo que é: uma proximidade de datas.

A ação contra a Blaze foi distribuída em 2 de agosto.

No dia 4 de agosto, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra Willer Tomaz no âmbito da operação Sem Desconto. Entre os locais vasculhados estava seu escritório de advocacia em Brasília.

Ou seja: dois dias separam o ajuizamento da ação relativa às perdas milionárias nas apostas e a busca da Polícia Federal.

Até o momento, não há elemento público que demonstre relação entre uma coisa e outra. A coincidência temporal, isoladamente, não autoriza essa conclusão.

Na investigação que levou às buscas, a Polícia Federal descreveu Willer como alguém ligado a uma estrutura que funcionaria como um "hub financeiro, patrimonial e logístico" à disposição de investigados, entre eles o senador Weverton Rocha. A afirmação consta da investigação que subsidiou decisão do ministro André Mendonça, do STF.

Willer nega qualquer participação no esquema. Sua defesa afirmou que a diligência teria ocorrido exclusivamente em razão de uma aeronave de sua propriedade utilizada particularmente por Weverton e sustenta que ele não tem vínculo com as fraudes investigadas no INSS.

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O amigo de Flávio

Há ainda um componente político nessa história.

Willer Tomaz mantém relação próxima com o senador Flávio Bolsonaro. O próprio Flávio já se referiu publicamente a ele como amigo e saiu em sua defesa após as investigações da PF.

A relação não se limita a encontros sociais. Reportagens apontam que os dois fizeram viagens juntos ao exterior; Flávio retornou dos Estados Unidos em aeronave da qual Willer era cotista e, durante a campanha presidencial, utilizou um apartamento pertencente a empresa ligada ao advogado. O Metrópoles informou ainda que eles viajaram juntos ao exterior cinco vezes em 2025 e que uma festa familiar do senador ocorreu em imóvel de Willer em Angra dos Reis.

Nenhum desses fatos, isoladamente, demonstra ilegalidade por parte de Flávio Bolsonaro. Eles documentam, contudo, a proximidade pessoal entre o senador e um advogado que, simultaneamente, aparece em uma investigação da PF e protagoniza uma ação judicial envolvendo cifras extraordinárias no mercado de apostas.

Willer Tomaz registrou cifras bilionárias em jogos na Blaze.

Willer Tomaz registrou cifras bilionárias em jogos na Blaze.Gerada por inteligência artificial

Um remoto antecessor nas loterias

A história política brasileira já conheceu outro personagem que ficou nacionalmente conhecido pela dimensão extraordinária de sua relação com jogos.

Nos anos 1990, durante a CPI dos Anões do Orçamento, o então deputado federal João Alves afirmou que parte de seu patrimônio decorria de sua extraordinária sorte nas loterias: dizia ter recebido 221 prêmios. A explicação entrou para o folclore político nacional.

O contexto daquele episódio era completamente diferente. João Alves estava sob investigação da CPI do Orçamento, e as conclusões divulgadas à época apontaram a utilização de apostas e bilhetes premiados na tentativa de dar aparência lícita a recursos. Ele renunciou ao mandato em 1994 antes do julgamento político de sua cassação.

Não há base, e não vá o leitor afoito, estabelecer equivalência entre os dois episódios.

O único paralelo possível é outro: a extraordinária dimensão dos números ligados ao jogo.

João Alves dizia ter sido premiado 221 vezes.

Willer Tomaz apresenta agora à Justiça uma contabilidade em outra escala: quase R$ 5 bilhões registrados do lado das apostas perdedoras, R$ 4,8 bilhões em ganhos e R$ 163 milhões de prejuízo líquido.

E há uma última peculiaridade.

Segundo documentos reproduzidos pelo Metrópoles, em determinado momento Willer chegou a escrever ao funcionário da Blaze que o atendia diretamente: "duvido que exista alguém no mundo que tenha te dado mais lucro do que eu."

Pode ser apenas uma frase dita entre apostador e casa de apostas.

Os números, de todo modo, dão uma ideia da escala.

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