Todas as nove pesquisas nacionais da reta final que divulgaram estimativas comparáveis em votos válidos subestimaram a votação obtida por Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno. O candidato recebeu 47,03% dos votos válidos neste domingo (4), mas aparecia entre 40,5% e 47% nas pesquisas consideradas pelo Congresso em Foco. A distância entre as estimativas e as urnas variou de 0,03 a 6,53 pontos percentuais.
Nos nove levantamentos, Flávio foi subestimado, em média, em 3,08 pontos. Com Lula (PT), que terminou com 45,16%, não houve uma direção única: algumas pesquisas superestimaram e outras subestimaram sua votação. Considerando a distância para o resultado independentemente da direção, o desvio absoluto médio foi de 1,20 ponto.
No Datafolha e no PoderData/Aya, por exemplo, Lula apareceu com 45% — apenas 0,16 ponto abaixo do resultado —, enquanto Flávio foi subestimado em 5,03 e 4,03 pontos, respectivamente.
Veritá, Gerp e Futura/100% Cidades foram os três levantamentos que mais se aproximaram da diferença entre os candidatos nas urnas. Veritá e Gerp apontaram Flávio 2 pontos à frente de Lula, apenas 0,13 ponto acima da vantagem de 1,87 ponto registrada no primeiro turno. A Futura indicou vantagem de 2,2 pontos, diferença de 0,33 ponto em relação às urnas.
Alerta para o precedente
Na véspera da votação, o Congresso em Foco mostrou que a média de seis pesquisas divulgadas naquele sábado apontava 45,3% dos votos válidos para Lula e 43,1% para Flávio, vantagem de 2,2 pontos para o petista. O resultado das urnas inverteu esse quadro: Flávio terminou 1,87 ponto à frente.
Dois meses antes, em 3 de agosto, o Congresso em Foco já havia chamado a atenção para a necessidade de cautela na leitura das pesquisas, ao relembrar o primeiro turno de 2022. Naquela eleição, os seis levantamentos divulgados às vésperas da votação subestimaram Jair Bolsonaro em média em 4,4 pontos percentuais, enquanto cinco deles superestimaram Lula.
A comparação divulgada nesta segunda-feira (5) considera a pesquisa nacional mais recente divulgada por cada instituto na semana anterior ao primeiro turno. Para evitar a mistura de bases distintas, foram confrontados diretamente com o resultado apenas os levantamentos que apresentaram percentuais em votos válidos.
Veritá chegou mais perto dos percentuais das urnas
Entre os levantamentos comparáveis, o Veritá apresentou os percentuais mais próximos do resultado: 47% para Flávio e 45% para Lula. As diferenças para as urnas foram de apenas 0,03 ponto e 0,16 ponto, respectivamente.
O Gerp apontou 46% para Flávio e 44% para Lula. Subestimou o candidato do PL em 1,03 ponto e o petista em 1,16. Como os desvios ocorreram praticamente na mesma proporção, a vantagem de 2 pontos ficou apenas 0,13 ponto distante da registrada nas urnas.
A Futura/100% Cidades marcou 44,8% para Flávio e 42,6% para Lula. A vantagem de 2,2 pontos ficou 0,33 ponto acima da registrada no primeiro turno.
Seis pesquisas mostravam Lula numericamente à frente
Nos outros seis levantamentos comparáveis — Quaest, PoderData/Aya, AtlasIntel/Bloomberg, Datafolha, Instituto França e CNT/MDA — Lula aparecia numericamente à frente. Nas urnas, ocorreu o inverso: Flávio terminou 1,87 ponto à frente.
A Quaest, por exemplo, apontava 46% para Lula e 45% para Flávio. Comparada ao resultado, superestimou Lula em 0,84 ponto e subestimou Flávio em 2,03. A diferença entre a vantagem indicada pela pesquisa e a registrada nas urnas foi de 2,87 pontos.
A maior discrepância ocorreu na CNT/MDA. O levantamento dava 47,8% para Lula e 42,1% para Flávio, vantagem de 5,7 pontos para o petista. Como Flávio terminou 1,87 ponto à frente, a distância entre a diferença indicada pela pesquisa e a registrada nas urnas foi de 7,57 pontos.
Desvio foi maior na estimativa de Flávio
Datafolha e PoderData/Aya ilustram a diferença observada entre os candidatos. Ambos atribuíram 45% a Lula, apenas 0,16 ponto abaixo dos 45,16% registrados nas urnas. Para Flávio, porém, o Datafolha marcou 42%, 5,03 pontos abaixo do resultado, e o PoderData/Aya, 43%, diferença de 4,03 pontos.
Quaest, AtlasIntel/Bloomberg e CNT/MDA tiveram desvios em sentidos opostos: superestimaram Lula e subestimaram Flávio, indicando uma diferença entre os candidatos mais favorável ao petista do que a posteriormente registrada nas urnas.
A distância entre estimativa e resultado, porém, deve ser lida em conjunto com a margem de erro de cada levantamento. Estar acima ou abaixo do percentual final não significa, por si só, que o resultado tenha ficado fora do intervalo estimado pela pesquisa. Em diferentes levantamentos, Lula e Flávio apareciam tecnicamente empatados.
E os demais institutos?
Outras sete pesquisas nacionais divulgadas na reta final — Palver, Vox Brasil, Meio/Ideia, DataTrends, Real Time Big Data, Nexus/BTG e Indexa/Broadcast — foram mantidas fora da comparação direta porque os resultados divulgados não estavam na mesma base de votos válidos usada no resultado oficial.
O Congresso em Foco optou por não converter esses percentuais para votos válidos, procedimento que poderia criar uma precisão inexistente devido, entre outros fatores, aos arredondamentos dos números divulgados. Ainda assim, é possível observar a direção indicada: Palver e Vox Brasil mostravam Flávio numericamente à frente; Meio/Ideia, DataTrends, Real Time Big Data, Nexus/BTG e Indexa/Broadcast apresentavam Lula à frente.
Pesquisa não é previsão
Pesquisa eleitoral mede a intenção de voto de uma amostra da população no período em que as entrevistas são realizadas e não constitui uma previsão do resultado da eleição. Além da margem de erro e das diferenças metodológicas entre os institutos, eleitores podem mudar de voto até a votação, e levantamentos com períodos de campo diferentes retratam momentos distintos da campanha.
Por isso, a distância entre uma estimativa e as urnas não permite, isoladamente, concluir que houve erro metodológico. A comparação mostra quanto os percentuais divulgados se aproximaram ou se afastaram do resultado registrado.
Como foi feita a comparação
O Congresso em Foco considerou a pesquisa nacional mais recente divulgada por cada instituto na semana anterior ao primeiro turno. Nos levantamentos com votos válidos, calculou a diferença entre a estimativa de cada candidato e o resultado oficial: 47,03% para Flávio e 45,16% para Lula. Valores negativos indicam subestimação e positivos, superestimação.
Também foi medida a distância entre a vantagem indicada por cada pesquisa e a diferença de 1,87 ponto registrada nas urnas a favor de Flávio. Pesquisas apresentadas em votos totais ou intenção estimulada foram mantidas separadas e não tiveram seus percentuais convertidos para votos válidos.