André Janones (Rede-MG) não precisou de um palanque para reunir seu exército. Bastou um celular, uma conta no WhatsApp e uma frase repetida quase diariamente: "Pessoal, urgente!".
Em três semanas, o deputado federal mineiro transformou um canal de mensagens em uma rede com mais de 10 milhões de inscritos e ganhou um novo título na campanha de reeleição do preseidente Lula (PT): general.
A patente não veio das Forças Armadas, mas dos próprios apoiadores. No "Exército do Lula", Janones distribuía missões, convocava seguidores e organizava ações para fazer vídeos e mensagens circularem pelas redes sociais. O presidente era chamado de marechal. Os participantes, de soldados.
A mobilização ganhou força durante o segundo turno das eleições presidenciais, encerrado neste domingo (25) com a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL). Janones terminou a campanha com o reconhecimento público do presidente e uma posição de destaque entre os responsáveis pela comunicação eleitoral.
Mas quem é o deputado que conseguiu reunir milhões de pessoas em torno de um canal de WhatsApp?
Do interior de Minas ao Congresso
André Luís Gaspar Janones nasceu em 5 de maio de 1984, em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Advogado, trabalhou como cobrador de ônibus antes de iniciar sua trajetória profissional no Direito e ingressar na política.
Em 2016, disputou a Prefeitura de Ituiutaba, mas não foi eleito. Dois anos depois, ganhou projeção nacional ao publicar vídeos e realizar transmissões nas redes sociais durante a greve dos caminhoneiros.
A visibilidade contribuiu para sua eleição à Câmara dos Deputados em 2018, pelo Avante, com 178.660 votos. Desde então, o parlamentar passou a utilizar as plataformas digitais como uma das principais ferramentas de comunicação com seus eleitores.
Durante a pandemia de Covid-19, destacou-se pela defesa do auxílio emergencial e pelas cobranças ao governo federal. A atuação nas redes ajudou a ampliar sua projeção política para além de Minas Gerais.
Em 2022, Janones lançou uma pré-candidatura à Presidência da República, mas desistiu da disputa para apoiar Lula. Naquele ano, participou da estratégia de comunicação digital da campanha petista e foi reeleito deputado federal.
Quatro anos depois, ele voltaria a desempenhar um papel importante, desta vez com uma estrutura de mobilização muito maior.
Em 2026, filiou-se à Rede Sustentabilidade e foi reeleito deputado federal por Minas Gerais, conquistando seu terceiro mandato consecutivo na Câmara dos Deputados.
A criação do "Exército do Lula"
Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, em 4 de outubro, Lula precisava ampliar sua base de apoio para reverter o resultado na votação decisiva. Foi nesse cenário que o "Exército do Lula", criado por Janones no WhatsApp, ganhou força como ferramenta de mobilização digital da campanha petista.
O canal passou a reunir apoiadores em torno de ações coordenadas para ampliar a circulação de vídeos, publicações e mensagens favoráveis ao presidente. Janones adotou uma linguagem inspirada na hierarquia militar: os inscritos eram chamados de soldados, as tarefas recebiam o nome de "missões", o deputado assumiu o título simbólico de general e Lula passou a ser tratado como marechal.
Entre as atividades estavam o compartilhamento de conteúdos, a participação em transmissões ao vivo e os convites para atrair novos integrantes. As convocações também ficaram marcadas pelo bordão "Pessoal, urgente!", utilizado por Janones no início de vídeos e áudios. A expressão ganhou repercussão e virou meme nas redes sociais.
O crescimento foi acelerado durante o segundo turno. Com cerca de 50 mil inscritos antes da votação de 4 de outubro, o canal ultrapassou 2 milhões de participantes nos primeiros dias de mobilização, chegou a 7 milhões em 21 de outubro e alcançou a marca de 10 milhões no dia 23, a dois dias da eleição.
Lula também participou da divulgação da iniciativa. Em 7 de outubro, gravou um vídeo ao lado de Janones incentivando os apoiadores a ingressar no canal, reforçando a importância da mobilização nas redes sociais para a campanha.
Canal foi alvo de disputa no TSE
O crescimento do "Exército do Lula" também provocou reações da campanha de Flávio Bolsonaro, que questionou a atuação do canal na Justiça Eleitoral.
Durante o segundo turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisou pedidos relacionados ao funcionamento da iniciativa. O canal chegou a ser suspenso por decisão do ministro Nunes Marques e teve sua retomada autorizada pelo corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva.
Posteriormente, a iniciativa voltou a enfrentar restrições, e a campanha de Lula adotou providências para formalizar seu registro como instrumento de propaganda eleitoral.
Janones classificou as medidas como censura e afirmou que os questionamentos buscavam prejudicar a mobilização dos apoiadores do presidente.
A controvérsia mostrou como a disputa eleitoral também passou pelo controle e pela identificação de canais de comunicação utilizados pelas campanhas nas plataformas digitais.
Da mobilização digital à comemoração da vitória
Na noite deste domingo (25), após a confirmação da vitória de Lula, Janones comemorou o resultado nas redes sociais e aproveitou para responder àqueles que haviam questionado sua estratégia.
"Onde tá sendo formada a fila para os que duvidaram de mim pedirem desculpas? Eu falei, porra! Eu sei ler os sinais que as redes emitem!"
A vitória também ampliou o reconhecimento de Janones dentro da campanha petista. Lula destacou publicamente o trabalho do parlamentar e defendeu uma presença mais intensa nas plataformas digitais durante seu próximo mandato.
A mobilização organizada pelo "Exército do Lula" se somou aos atos presenciais, à propaganda eleitoral e às demais estratégias da campanha presidencial. Embora seu efeito direto sobre a votação não possa ser quantificado, a iniciativa colocou Janones entre os personagens de maior visibilidade da disputa digital.
O deputado que começou a ganhar notoriedade com vídeos gravados durante a greve dos caminhoneiros terminou a eleição de 2026 à frente de um canal com milhões de inscritos e com seu trabalho reconhecido pelo presidente reeleito.