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Justiça

Os insepultos

Com milhões de processos acumulados, a morosidade do Judiciário revela uma crise estrutural que não se resolve com mais do mesmo.

Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa

26/1/2026 16:00

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Há algum tempo completei 30 anos de exercício no Tribunal de Justiça. Foram três décadas ouvindo a indefectível e triste arenga de que "o Poder Judiciário é moroso porque faltam juízes, servidores e estrutura".

Não poucos foram os momentos em que, pressionados pela opinião pública, vi colegas exibindo impotentes, pelos jornais, os milhares de processos à espera de um despacho ou sentença, em um desabafo correto mas que esconde o real problema: nosso sistema legal "morreu e esqueceram de enterrar", como reza jocosa expressão popular.

Vamos lá: tramitam hoje pelo Poder Judiciário brasileiro uns 84 milhões de processos, aguardando julgamento por 18.000 magistrados - ou 4.666 para cada um deles. Cada processo desses consome tempo com audiências, leituras, atos diversos e, evidentemente, a decisão. Imaginemos, inflados de otimismo, que cada juiz decida um deles por dia. Aí concluiríamos, facilmente, que se fechássemos as portas dos juizados hoje levaríamos 4.666 dias só para colocar o serviço em dia - algo como 12,7 anos trabalhando 365 dias por ano, sem férias ou repousos semanais.

Durante estes 12,7 anos as portas dos juizados estariam fechadas - e os processos estariam sendo acumulados do lado de fora. Como a cada ano são propostas 35 milhões de novas ações, ao fim deste período nossos juízes abririam suas portas e encontrariam uma montanha com 444.500.000 processos aguardando julgamento - 5,2 vezes mais do que hoje!

O modelo atual do Judiciário brasileiro é incapaz de dar conta da própria demanda.

O modelo atual do Judiciário brasileiro é incapaz de dar conta da própria demanda.Freepik

Diante destes dados resumir o problema a um singelo "aumento do quadro de juízes e servidores", ou a uma "melhor estrutura de trabalho", chega às raias do simplório.

Quer tirar a prova? Então pegue uma calculadora e faça alguns cálculos simples: multiplique por dois o número de juízes. Resolverá? Não. Por três. Por quatro. Por cinco. E o problema da morosidade não terá sido resolvido!

Agora faça uma experiência: repita estes cálculos tendo como pano de fundo os sistemas policial e prisional. As constatações serão basicamente as mesmas: morreram e esqueceram de enterrar.

Sobre esta realidade, notável uma frase cunhada pelo Centro de Estudos Judiciais das Américas: "mais da mesma coisa não adianta". Até quando resistiremos à verdade clara de que este novo milênio está a exigir, mais do que reformas materiais, mudanças de filosofia e mentalidade?


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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