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Infância e tecnologia

A batalha contra a devolução de crianças com IA

Dados do CNJ expõem o drama das devoluções e mostram como a inteligência artificial pode apoiar vínculos sem substituir o cuidado humano.

Régis de Oliveira Júnior

Régis de Oliveira Júnior

30/1/2026 9:00

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Imagine uma criança chegando a um lar que prometia ser definitivo. O cheiro novo, o abraço inesperado, a esperança de amor. E, de repente, o retorno frio ao abrigo. Não é apenas uma mudança de endereço: é uma ferida profunda na alma.

Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), nove em cada cem crianças adotadas no Brasil são devolvidas. No Rio Grande do Sul, mais da metade das crianças e adolescentes na fila de adoção tem entre 12 e 18 anos. Dados mostram que cerca de 80% das pessoas que adotam preferem crianças de zero a seis anos, evidenciando um descompasso entre a oferta e a demanda.

Por trás dessa estatística, existem vidas marcadas pela rejeição dupla. Para reduzir esse sofrimento, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) aposta na tecnologia. A IA Ágape, desenvolvida em parceria com a WideLabs, atua como assistente virtual para pais e crianças durante o processo de aproximação e pós-adoção.

No primeiro ano, a ferramenta mostrou-se eficaz ao reduzir a ansiedade dos pais e alinhar expectativas. A principal causa de devoluções é a preparação inadequada dos adotantes.

A IA opera 24 horas por dia, oferecendo um espaço seguro e sem julgamentos. As "dicas e informações" abrangem desde o manejo de birras e traumas passados até orientações práticas sobre rotina, permitindo que os pais abordem dúvidas que poderiam hesitar em perguntar a um assistente social ou psicólogo, criando um canal de apoio contínuo que ajuda a criar laços e evita devoluções.

Ferramentas digitais podem auxiliar na adoção, mas reforçam a urgência de um ECA Digital para proteger crianças vulneráveis.

Ferramentas digitais podem auxiliar na adoção, mas reforçam a urgência de um ECA Digital para proteger crianças vulneráveis.Freepik

A adoção depende do amor humano. A tecnologia só deve apoiar, mas jamais substituir.

O projeto avançou ainda mais com o "Amigo Imaginário", uma interface que dialoga com crianças acolhidas. A ideia pode parecer distópica à primeira vista: deixar uma criança vulnerável conversar com uma máquina. Mas o modelo é cuidadosamente mediado.

A IA não substitui o humano. Ela atua como uma ferramenta lúdica de triage, sempre na presença de psicólogos. A interface de "Amigo Imaginário" ajuda a criança a expressar medos e traumas por meio de narrativas guiadas e desenhos, gerando relatórios estruturados que o profissional interpreta. O algoritmo funciona como ponte, enquanto o humano é o destino e o guardião. Sem essa supervisão, o risco seria inaceitável.

Mas a tecnologia também tem seus perigos. A IA não cria preconceitos; ela apenas reproduz os que já existem. Se for alimentada com dados históricos de um sistema que favoreceu perfis brancos, a IA acabará reproduzindo discriminações. Por isso, auditorias constantes são essenciais para garantir que a automação não torne grupos minoritários invisíveis.

É urgente avançar com um 'ECA Digital' que regule o uso da tecnologia na infância. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) foca na privacidade dos dados, mas não aborda as nuances psicossociais e éticas da interação entre IA e desenvolvimento infantil, nem garante que a decisão final sobre o bem-estar da criança permaneça inteiramente humana. Por isso, a regulação específica é fundamental.

O futuro das adoções passa pela inovação, mas a ética deve ser o freio de mão sempre acionado. A IA pode ajudar a encontrar um lar, mas só o amor humano pode mantê-lo.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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