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Educação e desigualdade

O sonho improvável: Wesley de Jesus e a urgência de repensar trabalho e educação no Brasil

A história de Wesley mostra que o sucesso individual é exceção em um sistema que rouba tempo, descanso e capital cultural de milhões de jovens.

Aristeu Souza

Aristeu Souza

10/2/2026 17:30

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Enquanto a maioria dos vestibulandos de medicina dormia em quartos climatizados, Wesley de Jesus, 23 anos, estudava sob à luz de uma única luminária para economizar energia.

Filho de uma empregada doméstica desempregada e de um pedreiro, morador de Cajazeiras (um dos maiores conjuntos habitacionais do Brasil, na periferia de Salvador), Wesley transformou a biblioteca de sua escola pública em refúgio diário e conquistou o primeiro lugar em Medicina na USP de Ribeirão Preto pelo Enem.

Sua história, amplamente divulgada nos últimos dias, não é apenas inspiradora; é um espelho incômodo que reflete as desigualdades estruturais que separam jovens brasileiros de suas potencialidades.

A trajetória de Wesley materializa o que Pierre Bourdieu, sociólogo francês, denominou "capital cultural": o conjunto de recursos simbólicos, experiências e apoios familiares que determinam o êxito acadêmico (Bourdieu, 1986, em "Os três estados do capital cultural").

Enquanto estudantes de classes médias e altas acumulam esse capital por meio de viagens, cursos preparatórios, livros e tempo livre, Wesley estudou com apostilas doadas e aulas gratuitas do YouTube, em uma casa sem laje, dividindo dois quartos com cinco pessoas.

Sua aprovação não desmente Bourdieu; pelo contrário, confirma-o pela excepcionalidade: Wesley venceu apesar do sistema, não por causa dele.

Jornadas exaustivas impedem pais e filhos de estudar, acompanhar a escola e romper o ciclo que transforma pobreza em destino.

Jornadas exaustivas impedem pais e filhos de estudar, acompanhar a escola e romper o ciclo que transforma pobreza em destino.Freepik

A dupla jornada como norma

A realidade de Wesley, embora extrema em sua dedicação, não é isolada. Segundo o IBGE, em 2023, aproximadamente 8 milhões de jovens entre 15 e 29 anos estudavam e trabalhavam simultaneamente no Brasil.

No Ceará, eram 237 mil jovens nessa condição. Luís Henrique da Silva Alves, 18 anos, estudante de curso técnico em hospedagem em Caucaia (CE), acordava na madrugada para cursar o ensino médio, depois se deslocava 20 km para estagiar e trabalhar em um hotel até 23h. "O corpo não aguenta", confessou ao portal G1 em 2023.

Samille Cristina, 20 anos, natural do Pará e morando sozinha em Fortaleza, contou ao portal G1 Ceará que chegava à escola às 13h, e saia às 18h. Logo após ia direto para o trabalho em um "espetinho" até 1h ou 2h da madrugada. Ela precisou trancar a matrícula em 2022 porque "não estava conseguindo estudar e trabalhar ao mesmo tempo".

Esses relatos expõem uma verdade brutal: para milhões de jovens brasileiros, a educação não é prioridade porque a sobrevivência é urgência.

Como observou a historiadora, geógrafa e filósofa negra brasileira Lélia Gonzalez no texto: "A Juventude Negra Brasileira e a Questão do Desemprego" (1979), uma massa marginal subempregada, predominantemente negra, na luta pela sobrevivência, acaba oferecendo menos chances educacionais a suas crianças "porque, também elas, têm que ajudar na luta pela sobrevivência".

O ciclo se perpetua: menos educação gera empregos precarizados, que exigem jornadas extenuantes, que impedem o investimento educacional na geração seguinte.

A escala 6x1 e o roubo da infância

A educadora Cinthia Rodrigues, em artigo de 2024 para o Brasil de Fato, revelou achados perturbadores de sua pesquisa com estudantes de escolas públicas.

Ao perguntar o que gostariam de fazer no tempo livre, adolescentes de 13 a 16 anos responderam: jogar bola, ouvir música, desenhar e estudar. O que realmente faziam? Cuidavam da casa, de idosos, de irmãos mais novos. Quando tinham tempo, queriam "dormir e descansar". A razão: seus responsáveis trabalhavam seis dias por semana.

A escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso) não vitimiza apenas os trabalhadores diretos; ela sequestra a infância e a adolescência de seus filhos.

Pais exaustos não conseguem participar de reuniões escolares, ler redações, acompanhar projetos ou oferecer o "capital cultural" que Bourdieu identificou como decisivo. Como argumenta Rodrigues, trabalhadores em escala 6x1 "não conseguem participar da vida escolar dos filhos. Em que momento vão conhecer os professores, compartilhar um pouco do seu universo?"

A coordenadora educacional Debora Fofano, doutora em educação pela Universidade Federal do Ceará, relatou ao G1 que alunos conseguem isenção para o Enem e o vestibular da Universidade Estadual do Ceará, mas escolhem não comparecer: "Eles falam 'ah, é num domingo? Vou não. Dia de domingo, eu durmo'". A exaustão vence a esperança.

Implicações para políticas públicas

A história de Wesley não deve ser romantizada como prova de que "basta querer" para vencer. Ela deve ser lida como denúncia: quantos Wesleys perdemos porque não tiveram uma professora como Cátia Valentina Góis, que atendia 19 turmas, mas ainda oferecia reforço individual? Quantos desistiram na segunda tentativa, sem o apoio emocional de uma mãe que insistia "continue que você vai vencer"?

O fim da escala 6x1, bandeira crescente no debate público brasileiro, não é apenas uma questão trabalhista; é uma questão educacional.

Reduzir a jornada de trabalho significa devolver aos pais tempo para acompanhar a escolarização dos filhos, oferecer experiências culturais, participar da gestão democrática das escolas. Significa permitir que adolescentes sejam adolescentes, não cuidadores precoces ou trabalhadores informais noturnos.

Paulo Freire, na obra "Pedagogia do Oprimido", de 1987, alertava que a educação não pode ser pensada isolada das condições materiais de vida. Para ele, a libertação autêntica exige a transformação das estruturas que oprimem, não a adaptação individual a elas.

Atribuir o sucesso de Wesley exclusivamente ao seu esforço pessoal (ou culpar jovens periféricos por não repetirem seu feito) é perpetuar o que Freire chamava de "educação bancária": aquela que deposita nos oprimidos a responsabilidade por sua própria opressão.

A verdadeira educação libertadora, ao contrário, reconhece que sem alterar as condições concretas de trabalho, moradia, alimentação e tempo, celebrar casos excepcionais como o de Wesley é apenas mascarar a violência cotidiana que impede milhões de outros de sequer tentarem.

Wesley de Jesus conquistou o impossível. Mas uma sociedade justa não pode depender do heroísmo individual para corrigir injustiças estruturais. Seu primeiro lugar na USP é, simultaneamente, celebração e acusação.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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