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Saúde mental
27/2/2026 15:00
Em silêncio, milhares de pessoas enfrentam diariamente o sofrimento psíquico. Ansiedade, depressão, solidão e estresse crônico já fazem parte do cotidiano de grande parte da população mundial, pressionando famílias e uma demanda cada vez maior por serviços de saúde e criação de políticas públicas. Diante desse quadro, é preciso ampliarmos nosso olhar sobre o que significa cuidar da saúde mental. E isso inclui reconhecer a importância da relação entre as pessoas e seus animais de estimação que por muito tempo foi subestimada.
Essa relação é profunda, sobretudo para quem convive com cães e gatos, pois eles ocupam espaços afetivos, compartilham rotinas, acolhem em momentos difíceis e, muitas vezes, são a presença mais constante na vida de quem enfrenta o isolamento emocional. A ciência tem confirmado aquilo que a experiência cotidiana já mostrava: os animais de estimação exercem um papel social e emocional relevante na manutenção da saúde mental.
Estudos recentes indicam que entre 19% e 34% da população brasileira apresenta algum transtorno mental ao longo da vida, com destaque para ansiedade e depressão, além de quadros graves e transtornos associados ao uso de substâncias psicoativas.
A convivência com animais de estimação tem se mostrado uma estratégia complementar importante. Especialistas em saúde mental apontam que a presença do pet contribui para a redução do estresse, melhora do humor, regulação do sono e diminuição da sensação de solidão. Ou seja, quando interagimos com os nossos bichos de estimação, isso favorece a criação de rotinas, o senso de responsabilidade e a percepção de pertencimento, fatores essenciais para quem enfrenta sofrimento psíquico prolongado.
O que hoje chamamos de "animais de suporte emocional" não podem ser definidos pelo treinamento técnico (no caso, animais de acompanhamento), mas sim pelos efeitos emocionais que produzem na vida de seus tutores - mais do que isso, são presenças que nos oferecem previsibilidade, afeto e segurança emocional. Em um mundo marcado por relações instáveis e por uma vida cada vez mais acelerada, esse tipo de vínculo assume um valor que não pode mais ser ignorado.
Mas há um outro aspecto dessa relação que precisa ser trazido ao debate com a mesma seriedade: o luto pela perda de um animal de estimação. A morte de um pet não é apenas a perda de um animal. Para muitos, é a perda de um companheiro, de um membro da família e, em alguns casos, da principal fonte de apoio emocional.
No Brasil, pesquisas recentes mostram que esse luto é real e muitas vezes, vivido de forma dolorosa e solitária. A maioria dos tutores relata não ter seu sofrimento reconhecido socialmente, sendo frequentemente confrontada com frases que minimizam a dor, como se a perda do animal de estimação fosse algo menor ou irrelevante. Assim, esse fenômeno, conhecido como luto não reconhecido ou marginalizado, gera um estigma que pode agravar quadros de ansiedade, depressão e isolamento emocional
Ignorar esse sofrimento revela uma lacuna importante nas políticas de saúde mental e nas práticas institucionais de cuidado. Vivemos em um país onde as famílias multiespécies são cada vez mais comuns, mas onde o luto pet ainda não encontra espaço legítimo de acolhimento. Essa contradição precisa ser enfrentada com seriedade e sensibilidade.
Reconhecer o papel emocional dos pets não significa substituir o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, mas de compreender que a saúde mental é multifacetada e que o cuidado vai além do consultório. Ele passa pelos vínculos, pela escuta, pelo reconhecimento da dor e pela construção de redes de apoio que façam sentido na realidade das pessoas.
Políticas públicas mais humanas podem (e devem) incorporar essa compreensão, como por exemplo; a valorização de programas de terapia assistida por animais, passando pela formação de profissionais preparados para lidar com demandas relacionadas ao vínculo humano-animal, até o reconhecimento institucional do luto pet como uma experiência legítima de sofrimento psíquico.
Cuidar da saúde mental da população exige, acima de tudo, empatia, e admitir que o sofrimento de alguém não se expressa apenas nas formas tradicionais e que os vínculos afetivos contemporâneos são mais diversos do que aqueles previstos por normas antigas. Ao reconhecermos o papel social e emocional dos pets, damos um passo importante rumo a criação políticas públicas mais sensíveis, inclusivas e conectadas com a realidade das pessoas.
Em tempos de pouca empatia e tanto sofrimento silencioso, talvez seja hora de ouvirmos com mais atenção aquilo que a ciência, a experiência cotidiana e até o afeto simples de um animal vêm nos dizendo: o cuidado também pode ter quatro patas.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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