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Violência de gênero

O futuro é feminino e periférico

Entre estatísticas alarmantes e histórias reais, educação e ação comunitária surgem como caminhos para romper ciclos de violência.

Michelle Caetano

Michelle Caetano

8/3/2026 9:00

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No Dia Internacional da Mulher, quando discursos celebram conquistas e flores simbolizam reconhecimento, uma notícia recente nos obriga a encarar a face mais cruel da desigualdade de gênero. A Polícia Civil do Rio de Janeiro trata de um estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, em Copacabana, Zona Sul da cidade. Mais do que um caso policial, trata-se do retrato de um país que registrou um estupro a cada seis minutos no último ano, um recorde que revela não apenas estatísticas, mas vidas marcadas por traumas profundos.

A jovem, descrita como "refém de uma violência extrema", saiu ensanguentada do que deveria ser um encontro e, ainda assim, duvidou do próprio terror. O medo da exposição, de ser desacreditada e julgada, é parte de uma cultura que sustenta e naturaliza esses números, fazendo com que vítimas carreguem culpas que não lhes pertencem.

Neste oito de março, mais do que celebrar, é preciso questionar que valores estamos perpetuando e reconhecer que a mudança começa na forma como meninas e mulheres são tratadas desde cedo, para que nenhuma delas seja reduzida a objeto de violência, mas reconhecida integralmente, como sujeito de direitos e dignidade.

Nesse cenário, a educação e as organizações da sociedade civil tornam-se presença concreta onde o Estado ainda não alcança.

Em 2025, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio, o maior número desde 2015, média de quatro mortes por dia. Cerca de 80% dos crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros, e mais de 60% das vítimas eram mulheres negras, evidenciando que a violência atinge sobretudo as periferias.

Diante dessa realidade, o território emerge como potência de transformação. O Instituto Anchieta Grajaú (IAG), no extremo sul de São Paulo, é exemplo de transformação. Com foco em educação, arte e cultura, atende cerca de 600 crianças e jovens e mais de 1.000 famílias. Seu diferencial é utilizar arte e cultura como ferramentas de construção de subjetividade. Para uma jovem periférica, a arte não é luxo: é o direito de imaginar um futuro além da sobrevivência e da repetição da violência doméstica.

Iniciativas comunitárias mostram que fortalecer meninas e mulheres é estratégia central para transformar realidades.

Iniciativas comunitárias mostram que fortalecer meninas e mulheres é estratégia central para transformar realidades.Freepik

O Instituto Sou da Paz traz dados alarmantes sobre o estupro de vulnerável e evidencia, mais uma vez, que o CEP desses crimes segue concentrado nas periferias. Em 2025, na comparação com 2020, houve um aumento de 46,8% nos registros, um crescimento inaceitável que reforça a urgência de políticas públicas efetivas de proteção e prevenção. O bairro do Grajaú aparece entre os três com maior número de ocorrências em 2025, ao lado de Capão Redondo e Jardim Ângela. Há anos, esses territórios permanecem à margem das oportunidades, marcados pela vulnerabilidade social, pela presença da criminalidade e, sobretudo, pelo descaso histórico de políticas públicas estruturantes. Esse cenário evidencia o quanto investir em educação e em atividades socioeducativas, realizadas em ambientes seguros e acolhedores, é uma estratégia indispensável para romper ciclos de violência e garantir proteção às crianças e adolescentes.

Segundo o Instituto Locomotiva, 95% das mulheres brasileiras vivem com algum grau de temor dessa violência.

Entre as ações voltadas às mulheres, destacam-se iniciativas de empreendedorismo feminino, com formação em finanças domésticas e gestão de pequenos negócios, e o Rugby Pela Igualdade, que fortalece a autoestima, disciplina e liderança. Na comunidade atendida, mais de 65% das mulheres são chefes de família e mães solo, responsáveis pelo sustento e pela criação dos filhos. Mantê-las engajadas em processos formativos é desafio e prioridade. Em 2023, o IAG recebeu reconhecimento internacional pelo programa She Works, do Instituto Stop Hunger, pelo impacto na formação, empregabilidade e geração de renda, contribuindo para o rompimento de ciclos de violência.

Outras organizações ampliam essa transformação. A PretaLab promove a inclusão digital para mulheres negras e indígenas. Mesmo com o crescimento da tecnologia, dados de 2025 mostram que mulheres representam apenas 0,08% da população feminina adulta na área de TI. Ensinar programação a mulheres da periferia significa garantir soberania financeira, um dos principais antídotos contra relações abusivas.

Já a Fundação Tide Setubal, por meio do programa Elas Periféricas, em São Miguel Paulista, apoia coletivos de mulheres, fortalece lideranças locais com recursos e mentoria e transforma vulnerabilidade em incidência política, ampliando redes e vozes.

Dados do RASEAM 2025 indicam que 69,5% dos jovens que não estudam nem trabalham são mulheres, muitas sobrecarregadas pelo trabalho doméstico. Diante disso, as OSCs tornam-se rede de apoio essencial, oferecendo formação, oportunidades e espaços seguros.

Educação é autodefesa. Fortalecer meninas e mulheres da periferia é ampliar oportunidades, proteger trajetórias e transformar comunidades inteiras. O futuro é feminino e periférico porque é nas margens que nascem as soluções mais criativas e resilientes.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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