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Educação
21/5/2026 13:00
O presidente Lula declarou nesta segunda-feira, durante evento em Campinas, que o Brasil "não pode continuar permitindo que seja o mercado que determine que tipo de curso um jovem ou uma jovem vai fazer na universidade". Segundo ele, cabe ao Estado definir quais profissionais o país precisa formar.
A frase de efeito durante o discurso causou impacto. Mas a realidade contrastante revela uma política pública inadequada, que desperdiça recursos públicos e causa desemprego.
1. O mercado já sinaliza, o Estado simplesmente ignora
Enquanto o presidente defende blindar as universidades da lógica de mercado, o setor de tecnologia brasileiro morre em silêncio, enfrentando um déficit de meio milhão de profissionais e que o mercado dificilmente preencherá. Dados da Brasscom e do Google for Startups indicam que o Brasil forma pouco mais de 53 mil profissionais de TI por ano, contra uma demanda projetada de 800 mil novas vagas até o final de 2029 — um gap superior a 530 mil pessoas.
O resultado é direto: a Accenture posicionou o Brasil como o terceiro país do G20 que mais desperdiça PIB por falta de habilidades digitais. Isso não é o mercado sendo ganancioso. É o mercado enviando um sinal que nossas universidades públicas se recusam a receber.
2. O problema já existe — e tem nome: planejamento estatal de grade curricular
Pesquisa do Instituto Semesp (2024), com 5.681 formados de 178 instituições, revelou taxas de desemprego entre graduados chegando a 31,6% em cursos como História e Relações Internacionais. Levantamento da Geofusion mostrou que apenas 1 em cada 10 formados no ensino superior ocupa uma vaga compatível com seu nível de escolaridade — com exceção notável da Medicina, onde a regulação de vagas já é feita em função da demanda real do SUS.
A ironia é evidente: as áreas com menor desemprego entre graduados são exatamente aquelas onde o mercado — e não o Estado — sinalizou a demanda. A solução do presidente para esse quadro é dar ao Estado ainda mais controle sobre o que se ensina?
3. O que a OCDE diz sobre isso?
O relatório Education at a Glance 2025 da OCDE é claro: países com maior colaboração entre academia e mercado de trabalho apresentam menores taxas de desemprego entre jovens graduados e maior eficiência na alocação de talentos. Estudo publicado no ScienceDirect, com base nos dados do PIAAC (OCDE), quantificou que eliminar o mismatch educacional — o descompasso entre o que se forma e o que o mercado precisa — elevaria o PIB médio dos países analisados em 2,9% a 3,8%.
No Brasil, onde a informalidade ainda beira os 38% e 81% das empresas relatam dificuldade em contratar profissionais qualificados — acima da média global de 77% —, esse impacto seria ainda mais expressivo.
4. Liberdade de escolha não é concessão ao capital — é direito do cidadão
Nenhum jovem de 18 anos necessita do Presidente decidir seu futuro profissional. O que ele precisa é de informação de qualidade sobre o mercado, universidades com currículos atualizados e um Estado que incentive as áreas onde há escassez real — não que suprima a sinalização de preços e demanda que o mercado oferece gratuitamente.
Historicamente, toda vez que governos centralizaram a decisão sobre o que a população deveria estudar e produzir, o resultado foi estagnação, fuga de talentos e desperdício. Stálin formou muitos engenheiros de trator. Faltaram engenheiros de software.
"81% das empresas brasileiras relatam dificuldade em contratar profissionais qualificados — acima da média global de 77%. O mercado não está sendo exigente demais. O Estado está formando errado."
— ManpowerGroup Talent Shortage Survey 2025
5. O Brasil não pode se dar ao luxo de repetir esse erro
O caminho não é afastar o mercado das universidades. É construir pontes inteligentes entre eles: currículos adaptáveis, parcerias público-privadas em formação técnica, bolsas direcionadas às áreas de escassez real e liberdade para que o jovem — informado — escolha seu próprio futuro.
Delegar essa escolha ao Estado não é proteção. É controle estatal. E controle estatal em educação tem um nome histórico que nenhum democrata deveria querer pronunciar.
REFERÊNCIAS
1. Brasscom — Relatório Setorial TI&T 2024. Projeções de geração de empregos e déficit de talentos no setor de tecnologia no Brasil. Acesso
2. Google for Startups / Abstartups — Estudo sobre Escassez de Talentos em TI no Brasil (2023). Projeção de déficit de 530 mil profissionais até 2025. Acesso
3. Instituto Semesp / Workalove — Mapa do Ensino Superior no Brasil, 14.ª edição (2024). Taxas de empregabilidade e desemprego por curso de graduação. Acesso
4. Geofusion / Cortex — O Ensino e o Mercado de Trabalho: Análise de Cenário (2023–2024). Percentual de formados atuando em vagas compatíveis com o nível superior. Acesso
5. ManpowerGroup — Talent Shortage Survey 2025. Percentual de empresas com dificuldade em contratar profissionais qualificados por país. Acesso
6. OCDE — Education at a Glance 2025. Indicadores de transição educação–mercado de trabalho e taxas de empregabilidade por nível de formação. Acesso
7. ScienceDirect / Garibaldi et al. — Output Costs of Education and Skill Mismatch in OECD Countries. Economics Letters, 2025. Custo do mismatch educacional para o PIB. Acesso
8. IBGE — PNAD Contínua 2025. Taxa de desemprego por nível de escolaridade e taxa de informalidade no mercado de trabalho brasileiro. Acesso
9. Senado Federal — Audiência Pública CCT: Déficit de Profissionais de TI no Brasil (outubro 2024). Dados Brasscom e Softex apresentados em plenário. Acesso
10. Accenture — Bridging the Digital Skills Gap: G20 Countries Report (2024). Brasil na 3.ª posição entre países do G20 que mais perdem PIB por falta de habilidades digitais. Acesso
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