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Infância
23/6/2026 12:00
A infância ganhou um novo endereço. O ambiente digital tornou-se um espaço de convivência, aprendizado e construção de identidade para milhões de crianças e adolescentes.
Mundo físico e mundo digital se entrelaçam diariamente na forma como as novas gerações aprendem, se relacionam e enxergam o mundo. Essa transformação trouxe oportunidades extraordinárias. Nunca foi tão fácil acessar conhecimento, desenvolver habilidades, conectar pessoas ou ampliar horizontes.
Mas ela também trouxe novos riscos. Cyberbullying, exploração sexual, aliciamento, desafios perigosos, golpes digitais, exposição excessiva de dados pessoais e dependência tecnológica passaram a fazer parte das preocupações de famílias em todo o mundo.
Diante desse cenário, governos começaram a rever suas estratégias de proteção à infância. Países como Austrália, França, China, Dinamarca, Alemanha, Itália, Malásia e Turquia implementaram restrições ao acesso de menores às redes sociais. Recentemente, o Reino Unido anunciou medidas na mesma direção, reforçando uma tendência internacional de fortalecimento da proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Nos Estados Unidos, o debate avançou ainda mais. Famílias, escolas e governos estaduais passaram a questionar judicialmente o papel das plataformas digitais na criação de mecanismos destinados a capturar e reter a atenção de crianças e adolescentes.
As ações alegam que recursos como rolagem infinita, notificações constantes e sistemas de recomendação algorítmica podem estimular padrões de uso compulsivo e comportamentos semelhantes ao vício, com impactos sobre a saúde mental, o desenvolvimento emocional e as relações sociais dos jovens usuários.
Em 2026, decisões judiciais reconheceram a responsabilidade de plataformas por danos relacionados à dependência de redes sociais entre adolescentes, trazendo para o centro do debate uma discussão que alguns analistas comparam à responsabilização da indústria do tabaco.
O debate global sobre proteção da infância no ambiente digital também chegou ao Brasil. O ECA Digital representa um avanço importante ao reafirmar que a proteção integral prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente deve acompanhar as transformações tecnológicas da sociedade. Mais do que uma atualização legislativa, o ECA Digital reflete uma mudança de paradigma observada em diversas partes do mundo: a proteção da infância deixou de ser uma responsabilidade exclusiva das famílias e das escolas e passou a envolver também empresas de tecnologia, desenvolvedores, plataformas digitais e o próprio Estado.
Mas a construção de um ambiente digital mais seguro exige mais do que leis, sanções e decisões judiciais. Ela exige educação.
Nenhuma sociedade entrega um automóvel a um adolescente sem exigir aprendizado prévio. Entretanto, seguimos colocando nas mãos de crianças e jovens smartphones, redes sociais e sistemas de inteligência artificial sem oferecer, na mesma proporção, educação digital.
A experiência internacional demonstra que proteger a infância no ambiente digital não significa apenas restringir acessos ou responsabilizar plataformas. Significa também desenvolver competências para que crianças, adolescentes e suas famílias possam compreender riscos, exercer direitos e utilizar a tecnologia de forma consciente.
Na Suíça, iniciativas educacionais já ensinam crianças em idade pré-escolar conceitos de privacidade, compartilhamento de informações e segurança online. A educação digital é tratada como uma habilidade essencial para a vida contemporânea.
Na Suécia, autoridades passaram a alertar para o impacto do comportamento digital dos próprios pais, recomendando que reduzam o uso do celular na presença dos filhos. O motivo é simples: crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso.
Essa é uma responsabilidade compartilhada. O Estado deve promover políticas públicas, letramento digital e capacitação de educadores. As famílias precisam estar preparadas para orientar seus filhos em um ambiente cada vez mais complexo. As plataformas digitais também precisam assumir sua parcela de responsabilidade. Quem influencia a forma como milhões de crianças e adolescentes se informam, se relacionam e interagem não pode se limitar a oferecer tecnologia. Segurança e uso consciente devem fazer parte do próprio desenho desses serviços.
Proteger crianças e adolescentes no ambiente digital não significa apenas evitar danos. Significa prepará-los para exercer sua cidadania de forma crítica, segura e responsável.
O verdadeiro sucesso do ECA Digital não estará na quantidade de fiscalizações ou sanções aplicadas, mas na capacidade de formar uma geração apta a usufruir dos benefícios da tecnologia sem se tornar vulnerável aos seus riscos.
A inovação continuará ampliando possibilidades. A educação é o que permitirá que crianças e adolescentes façam escolhas conscientes diante delas. Não existe proteção efetiva sem educação digital. E não existe futuro digital sustentável sem responsabilidade compartilhada.
Como escreveu Hannah Arendt: "A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele."
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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