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Apostas esportivas

A Copa é do futebol, não das bets

Expansão da publicidade das bets durante a Copa reforça a necessidade de limites para proteger crianças, consumidores e pessoas vulneráveis.

Luciano Ducci

Luciano Ducci

3/7/2026 14:46

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A Copa do Mundo sempre foi um dos raros momentos em que o Brasil inteiro olha para a mesma direção. Famílias se reúnem, crianças vestem a camisa da seleção, bares se enchem, ruas mudam de ritmo. É futebol, é alegria, emoção coletiva.

Mas, nesta Copa, outro tema passou a dividir espaço com a bola: a propaganda das bets.

A presença das apostas online deixou de ser lateral. Tornou-se central, insistente, inevitável pra quem acompanha os jogos da Copa. A propaganda que já estava em todos os lugares, ganhou protagonismo absoluto também nas transmissões dos jogos. E passou a parecer parte natural do jogo.

Não é.

O problema não está na existência das apostas, mas na forma como elas são anunciadas. A linguagem é sedutora, a promessa é simples, o risco aparece pouco. Vende-se a ideia de ganho fácil em um país onde muitas famílias já vivem sob pressão financeira. Para quem está vulnerável, isso pode deixar de ser entretenimento e virar armadilha.

Os dados mostram que essa preocupação não é exagero. Mais de 574 mil brasileiros já recorreram à plataforma de autoexclusão do governo federal para bloquear o próprio acesso a sites de apostas. Muitos relatam perda de controle, impacto na saúde mental e dificuldades financeiras.

Quando tanta gente precisa pedir ajuda para parar de apostar, o assunto já ultrapassou o campo da escolha individual. É também uma questão de saúde pública.

Crescimento da ludopatia e do endividamento mostra que o Brasil deve enfrentar a publicidade das apostas com responsabilidade e proteção ao interesse coletivo.

Crescimento da ludopatia e do endividamento mostra que o Brasil deve enfrentar a publicidade das apostas com responsabilidade e proteção ao interesse coletivo.Tomaz Silva/Agência Brasil

Há ainda um ponto especialmente grave: a exposição de crianças e adolescentes. A Copa é assistida por famílias inteiras. A propaganda das bets, quando associada ao futebol, a ídolos, clubes e grandes eventos, passa uma mensagem perigosa: a de que apostar faz parte da experiência esportiva.

Não faz.

Mesmo antes de essa discussão ganhar o protagonismo que vimos, apresentei a PEC 49/2025, que abre caminho para regras mais rígidas sobre a publicidade das bets. A proposta não proíbe as apostas online. Ela permite que o Brasil trate essa publicidade com a mesma responsabilidade já aplicada a cigarros, bebidas alcoólicas e medicamentos. Produtos que oferecem risco não podem ser anunciados como se fossem inofensivos.

Esse debate não é novo para mim. Em Curitiba, liderei a legislação que proibiu o fumo em ambientes fechados públicos e privados. Na época, também houve resistência. Mas a sociedade compreendeu que determinadas escolhas individuais, quando afetam a saúde coletiva, precisam de limites.

Com as bets, estamos diante de uma discussão semelhante. O mercado cresceu rapidamente, a publicidade avançou sem freios e os impactos começaram a aparecer na vida das famílias.

O Congresso precisa agir. E não apenas com manifestações contrárias, mas com leis. A proposta que apresentei está pronta para tramitar e o tema é urgente para a sociedade.

Limitar a publicidade das bets é proteger consumidores, famílias, crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis. É reconhecer que, quando há vício, endividamento e sofrimento mental, não se trata de simples diversão, mas de problema coletivo, de saúde pública.

O futebol merece mais do que isso. O Brasil e os brasileiros também.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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