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Saúde
7/7/2026 14:00
O lugar que uma sociedade reserva à vida revela o projeto de país que escolheu construir. É nas prioridades que estabelece, nas instituições que fortalece e nas pessoas que decide proteger que uma nação manifesta quem é e quem pretende ser. O Brasil vive um desses momentos.
Em um mundo marcado por guerras, mudanças climáticas, pandemias, revoluções tecnológicas, e pela disseminação industrial da mentira, o desafio brasileiro vai além da escolha de governos. Está em jogo a capacidade de erguer um projeto de desenvolvimento inclusivo, fortalecer capacidades nacionais e decidir soberanamente seu lugar no mundo.
Onde erramos? Talvez ao permitir que corrupção, violência e costumes monopolizassem o debate público, relegando a segundo plano as escolhas estruturais. Essas agendas não são concorrentes. Um projeto sustentável e comprometido com a democracia, com a ciência e tecnologia e a redução das desigualdades cria as condições mais sólidas para enfrentar essas e outras mazelas.
A questão decisiva é outra: o que valorizar? Se a resposta for a vida, é preciso enfrentar desigualdades históricas, reparar injustiças estruturais e superar um modelo de desenvolvimento que foi marcado pela escravização de milhões de pessoas, pela exploração predatória da natureza e pela recorrente subordinação da economia a interesses externos. Feridas ainda abertas. Colocar a vida no centro das decisões significa fazer da saúde o eixo articulador da democracia, da dinâmica econômica, da justiça social, da sustentabilidade e da soberania.
Essa compreensão inspirou o Movimento de Reforma Sanitária e deu origem ao Sistema Único de Saúde. Mais do que garantir atendimento, o SUS transformou cidadania em direito e afirmou um princípio essencial: nenhuma vida vale menos por causa da renda, da cor da pele, da origem ou de qualquer condição historicamente associada à discriminação.
O SUS é uma das principais infraestruturas estratégicas do país. Integra atenção primária, assistência especializada, vigilância em saúde, pesquisa, inovação e produção. Com inteligência artificial, grandes bases de dados, interoperabilidade dos sistemas de informação e epidemiologia digital, sua presença em praticamente todo o território nacional cria condições inéditas para antecipar riscos, responder às emergências e acelerar o desenvolvimento de vacinas, diagnósticos, medicamentos e outras tecnologias essenciais.
Em um país continental e de extraordinária diversidade social, epidemiológica, ambiental e biológica, essa capacidade torna-se ainda mais estratégica. Seu poder de compra pode estimular a inovação, fortalecer cadeias produtivas, induzir a transferência de tecnologias e aproximar universidades, instituições públicas de pesquisa e produção e empresas inovadoras, reduzindo dependências externas e ampliando a autonomia científica, tecnológica e produtiva nacional.
Esse potencial exige continuidade. Capacidades estratégicas não podem depender das prioridades de cada governo. Uma Lei de Responsabilidade Sanitária pode assegurar planejamento de longo prazo, estabilidade das políticas estruturantes e permanente capacidade de prevenção, preparação e resposta às emergências.
Fortalecer o SUS é investir em ciência, inovação, desenvolvimento, soberania e proteção da vida. É ampliar a capacidade do Brasil de construir respostas próprias para os desafios do século XXI.
Ao completar cinquenta anos, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde reafirma a convicção que inspira sua trajetória: democracia, saúde e desenvolvimento são dimensões inseparáveis de um mesmo projeto nacional.
Porque não existe projeto nacional sem cuidado. Não existe soberania sem ciência. Não existe desenvolvimento sem justiça social. Não existe saúde sem democracia. Não existe democracia sem saúde. E não existe futuro quando a vida deixa de ocupar o centro das escolhas coletivas.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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