Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Eleições 2026
1/9/2026 12:00
O nome apresentado ao eleitor não é um detalhe burocrático da candidatura. Numa eleição proporcional com milhares de concorrentes, ele pode funcionar como uma mensagem política condensada: informa uma profissão, sugere autoridade, comunica pertencimento religioso, sinaliza uma causa, explicita uma posição ideológica, associa o candidato a uma liderança conhecida ou simplesmente cria uma marca fácil de lembrar.
Em 2025, ao examinar os nomes parlamentares adotados por deputados federais, concentrei a análise nos títulos profissionais incorporados à identidade política, como "Delegado", "Pastor", "Capitão", "Professor" e "Doutor". A eleição de 2026 permite ampliar o olhar. O fenômeno já não pode ser descrito apenas como uso eleitoral da profissão. Há candidatos que se apresentam como "da Saúde", outros que levam ao nome referências à direita ou à esquerda, à proteção animal, à religião, a Bolsonaro, a funções públicas ou a denominações construídas principalmente para chamar atenção. O Nome na Urna tornou-se uma pequena plataforma de identidade.
A base analisada, fornecida pelo Tribunal Superior Eleitoral, reúne 7.709 candidaturas a deputado federal nas 27 unidades da Federação. O estudo considera apenas aquilo que o candidato decidiu tornar visível no Nome na Urna; não pretende comprovar profissão, biografia, programa ou comportamento político. Depois da revisão das classificações e do tratamento das duplicidades da base, 1.690 candidaturas apresentaram algum marcador explícito segundo a tipologia adotada. São 21,9% do total. As demais 6.019 foram classificadas como nome civil ou apelido sem marcador pertencente às categorias examinadas.
A metodologia exige algumas cautelas. A coincidência de nomes não significa, por si só, duplicidade: candidatos distintos podem concorrer com denominações iguais ou semelhantes. Para evitar dupla contagem, adotou-se uma categoria principal por candidatura. Além disso, certas expressões precisam ser tratadas pelo que efetivamente comunicam. "Doutor" ou "Doutora", por exemplo, é utilizado como sinônimo de "médico". O título pode corresponder a médicos, dentistas, psicólogos, veterinários, advogados ou simplesmente funcionar como forma social de tratamento. Por isso, passou a ser considerado um marcador autônomo de status profissional ou honorífico.
Os números confirmam, ainda assim, a força das identidades profissionais. Das 1.690 candidaturas com algum marcador, 1.327, ou 78,5%, pertencem ao macrogrupo profissional ou ocupacional. Em seguida aparecem as identidades religiosas, com 196 casos; nomes de diferenciação ou alta memorabilidade, classificados operacionalmente como "folclóricos", com 76; referências setoriais à saúde, com 48; proteção animal, com 26; referência a Bolsonaro, com 11; e autodefinições ideológicas explícitas, com seis casos.
A categoria mais frequente é "Doutor/Doutora", com 391 registros, ou 23,1% dos nomes marcados. Em seguida vêm Professor/Professora, com 264; patentes militares – de soldado a general -, com 247; outras ocupações, com 195; e Pastor/Padre, com 135. Juntas, essas cinco categorias representam 72,9% das candidaturas que utilizam algum marcador. Depois aparecem nomes religiosos de outros tipos, Delegado, Saúde, Enfermeiro, Comunicador, Proteção Animal, Policial, Esporte, Assistência Social, Serviço Público, Cultura, Bombeiro, Bolsonaro e categorias menores.
As identidades religiosas constituem o segundo maior macrogrupo, com 196 candidaturas, ou 11,6% dos nomes marcados. São 135 casos de Pastor/Padre e 61 outras referências religiosas (Irmã, Apóstolo, Mãe, Pai, Missionário, Profeta...). Aqui o mecanismo não é simplesmente profissional. O título pode comunicar inserção comunitária, autoridade moral, valores compartilhados e pertencimento a redes organizadas. Embora frequentemente associadas ao campo conservador, essas candidaturas aparecem em partidos de diferentes orientações. A classificação capta, portanto, a decisão de tornar a referência religiosa imediatamente visível ao eleitor.
Os 76 nomes classificados como "folclóricos" ou de diferenciação também merecem atenção. Eles estão espalhados por 22 partidos e 19 unidades da Federação, com maior número em São Paulo e no Rio de Janeiro. A dispersão indica que a busca por memorabilidade não pertence a uma legenda específica. Em listas longas, a originalidade do nome pode operar como recurso de comunicação de baixo custo. Diferentemente de "Professor", "Pastor" ou "da Saúde", porém, esse tipo de denominação pode não transmitir agenda substantiva: sua principal função é destacar o candidato num ambiente saturado de informações. São nomes como "A Carequinha", "Andrea Sorvetão", "Baiano Do Picolé", "Caneta Azul - Manoel Gomes", "Gauchinha Dos Pampas", "Missinho Do Bode", "Tiririca" e outros, pretensamente associados à fama do candidato junto ao eleitorado.
A nova classificação também separou identidades antes absorvidas em grupos genéricos. Oito candidatos utilizam "Advogado" no Nome na Urna e três se apresentam como "Defensor Público". São números pequenos, mas analiticamente relevantes. O título "Advogado" pode sinalizar conhecimento jurídico, capacidade de representação ou defesa. "Defensor Público", além da formação jurídica, incorpora uma referência institucional explícita a uma carreira estatal associada à assistência jurídica e à defesa de direitos. Há ainda quatro registros de "Juiz/Procurador". O conjunto mostra que as credenciais jurídicas comparecem menos pela quantidade do que pelo conteúdo institucional que transportam.
As autodefinições ideológicas são raras, mas reveladoras. Quatro candidaturas utilizam "Direita" ou "Conservador" como elemento do próprio nome, todas em São Paulo. Duas foram classificadas como "Esquerda": "Marreta Coletivo de Esquerda", do PSTU em São Paulo, e "Renato Bancada Anticapitalista", do PT em Roraima. Não faz sentido tirar desse número qualquer conclusão sobre a força eleitoral da direita ou da esquerda. O que importa é o mecanismo: nesses casos, a ideologia deixa de ser apenas inferida da legenda, da trajetória ou das propostas e passa a integrar a própria denominação eleitoral. O nome funciona como um rótulo programático mínimo.
A referência a Bolsonaro opera de maneira diferente. Onze candidaturas incorporam ao Nome na Urna o sobrenome, a expressão "bolsonarista" ou outra referência equivalente. Sete estão no PL; AGIR, DC, NOVO e PODEMOS têm uma cada. São Paulo reúne quatro casos e o Rio de Janeiro três. Apenas dois candidatos têm, de fato, parentesco com o ex-presidente: Jair Bolsonaro (seu filho, Jair Renan, vereador em Balneário Camboriú/SC, e Renato Bolsonaro, irmão). A classificação registra um fato observável — a associação nominal — e não a motivação subjetiva do candidato. Ainda assim, é razoável interpretar o recurso como tentativa de mobilizar reconhecimento, afinidade ou lealdade previamente existentes em torno de uma liderança nacional. É capital simbólico cuja fonte principal não está na trajetória profissional do candidato, mas numa marca política externa a ele.
A categoria "Saúde" é especialmente interessante porque ocupa uma posição intermediária entre profissão e causa. São 48 candidaturas. Em 45 delas aparece literalmente a palavra "Saúde"; nas demais, a referência é a "Hospital" ou "Ambulância". "Da Saúde", "do Hospital" ou "do Posto de Saúde" não informa necessariamente a qualificação profissional do candidato. Informa proximidade com um setor de política pública e com sua rede de serviços. A denominação pode condensar experiência prática, vínculo com trabalhadores e usuários e compromisso com uma agenda de forte presença cotidiana.
A distribuição dessa categoria também chama atenção. Bahia e Pernambuco têm sete registros cada; o Rio de Janeiro, seis; Minas Gerais e Goiás, quatro. O Nordeste soma 20 dos 48 casos, ou 41,7%, percentual superior à sua participação no conjunto dos nomes diferenciados. No plano partidário, o PDT lidera com nove candidaturas, seguido por PODEMOS, com seis; PSB, com cinco; e PSDB e Solidariedade, com quatro cada. Em termos proporcionais, "Saúde" representa 0,6% do total nacional de candidaturas, mas chega a 1,9% no PDT, 1,5% na Solidariedade, 1,3% no PODEMOS e 1,2% no PSB.
A comparação partidária fica ainda mais informativa quando se abandona a simples contagem absoluta e se observa a proporção de nomes diferenciados dentro de cada legenda. O PL tem o maior número absoluto, com 143 candidaturas marcadas. PODEMOS tem 121, AVANTE 119, Republicanos 112, NOVO 111 e PDT 106. Mas, proporcionalmente ao tamanho das respectivas listas, o AVANTE chega a 28,4%, o PRD a 27,2%, o PL a 26,7%, o PODEMOS a 26,2% e o União Brasil a 25,1%. A estratégia de incorporar atributos ao Nome na Urna atravessa, portanto, partidos de perfis distintos.
Algumas categorias, porém, revelam especializações relativas mais nítidas. Patentes militares, delegados, policiais e bombeiros somam 334 candidaturas, equivalentes a 4,3% do universo nacional. No PL, são 67 entre 536 candidatos, ou 12,5%. A proporção chega a 8% no PODEMOS, 7,7% no União Brasil e 7,3% no Republicanos. O dado não prova vantagem eleitoral nem permite atribuir ideologia automaticamente a uma profissão, mas mostra que o repertório da segurança, da ordem e da autoridade aparece com intensidade bastante distinta entre as legendas.
O movimento é diferente entre os professores. Professor ou Professora representa 3,4% das candidaturas nacionais, mas alcança 9% no PSOL e 8,4% no PT. No PCdoB, cuja lista é bem menor, chega a 9,8%. Isso sugere que as legendas não apenas recrutam perfis distintos, mas também oferecem contextos diferentes para que determinadas profissões sejam consideradas eleitoralmente úteis como parte do próprio nome.
A distribuição territorial igualmente não se resume ao tamanho dos eleitorados. São Paulo concentra 286 candidaturas com marcadores, seguido por Rio de Janeiro, com 177; Minas Gerais, 147; Bahia, 122; Paraná, 100; e Pernambuco, 89. Esses seis estados somam 54,5% dos nomes diferenciados. Mas a proporção interna apresenta outro mapa: Sergipe lidera com 30,9% de suas candidaturas utilizando algum marcador, seguido por Rondônia, com 28%; Mato Grosso, 27,9%; Roraima, 27,4%; São Paulo e Goiás, 25,4%. No outro extremo, o Acre registra 11,8% e o Rio Grande do Sul, 14,2%.
O que essas escolhas procuram comunicar? A resposta não cabe numa única teoria. Profissões e cargos podem oferecer credenciais de competência, experiência e autoridade. Títulos religiosos comunicam pertencimento comunitário, valores e autoridade moral. A proteção animal apresenta uma causa. A saúde sinaliza proximidade setorial. Direita, esquerda, conservador ou anticapitalista explicitam posicionamento. Bolsonaro oferece associação personalista. Os nomes incomuns trabalham principalmente com diferenciação e memória. Formalmente, todos acrescentam palavras ao nome; politicamente, fazem coisas diferentes.
É nesse ponto que a leitura de Roberto DaMatta, em sua obra "Você sabe com quem está falando? Estudos sobre o autoritarismo brasileiro" (Rocco, 2020) ajuda — desde que aplicada com cautela. Sua análise das hierarquias, dos títulos e das relações de reconhecimento na sociedade brasileira é particularmente útil para compreender por que certas posições sociais funcionam como credenciais. "Doutor", patentes militares, "Delegado", "Juiz", "Procurador", "Defensor Público" e, em menor medida, "Advogado" carregam mais do que uma informação ocupacional. Podem evocar saber, autoridade, capacidade técnica, poder institucional ou capacidade de representação.
A categoria "Doutor/Doutora" talvez seja o melhor exemplo. Justamente porque o título não identifica de modo seguro uma profissão, seu valor simbólico pode residir naquilo que comunica genericamente: status, conhecimento, prestígio ou autoridade. O uso eleitoral do título torna-se, nessa perspectiva, mais interessante quando deixamos de perguntar apenas "qual é a profissão?" e passamos a perguntar "que atributo social o candidato pretende tornar imediatamente reconhecível?".
Também as patentes militares, os delegados, policiais e bombeiros mobilizam uma linguagem de autoridade, disciplina, proteção e capacidade de intervenção. Já Advogado, Defensor Público, Juiz e Procurador remetem a outro universo: direitos, lei, representação e instituições jurídicas. Colocá-los todos na mesma cesta de "autoridade" apagaria diferenças importantes. O traço comum é a conversão de uma posição profissional ou institucional em credencial eleitoral.
Mas DaMatta não explica tudo — e essa é precisamente uma conclusão relevante da tipologia ampliada. Religião e proteção animal mobilizam pertencimento e causa; "Saúde" depende de proximidade com um setor; direita e esquerda funcionam como autoposicionamento ideológico; Bolsonaro opera pela associação a uma liderança; e os nomes de diferenciação privilegiam saliência e memorabilidade. A identidade eleitoral construída no nome resulta, portanto, da combinação de mecanismos diversos.
O Nome na Urna pode ser compreendido como uma instituição mínima de identidade eleitoral. Antes de o eleitor conhecer em detalhe o programa, a biografia ou a atuação do candidato, o nome já organiza expectativas. A profissão oferece uma credencial; a ideologia localiza; a religião aproxima de uma comunidade; a causa anuncia prioridade; a liderança política produz associação; a saúde sinaliza vínculo setorial; o nome incomum facilita a lembrança.
Essa estratégia também tem implicações para o sistema partidário. Em eleições proporcionais altamente personalizadas, a multiplicação de marcas individuais pode reduzir o espaço ocupado pelas legendas como principal mecanismo de identificação política. Quando o candidato precisa dizer no próprio nome que é "da Saúde", "Professor", "Capitão", "da Direita", "Anticapitalista" ou associado a uma liderança, ele oferece ao eleitor atalhos que competem com o rótulo partidário. Isso não significa que o partido tenha deixado de importar. Ao contrário, os próprios dados mostram que determinadas identidades se distribuem de maneira desigual entre as legendas. Mas indicam que a mediação partidária convive com um mercado cada vez mais sofisticado de marcas pessoais.
É preciso, porém, evitar uma conclusão que os dados ainda não autorizam: não sabemos se esses nomes dão mais votos. A eleição de 2026 ainda não ocorreu e o uso de determinado marcador não pode ser tratado como causa de desempenho eleitoral. Recursos de campanha, mandato anterior, notoriedade, partido, organização local, tamanho do distrito e características do eleitorado podem influenciar simultaneamente a escolha do nome e a votação.
A etapa seguinte da pesquisa começará, portanto, depois das urnas. Será possível comparar taxas de sucesso, votação, partido e região; verificar se "Saúde", títulos profissionais, identidades religiosas, referências a Bolsonaro ou autodefinições ideológicas produzem desempenhos distintos; e observar se os eleitos conservam essas marcas como nomes parlamentares ou as abandonam depois da posse.
Por enquanto, uma conclusão já é segura: em 2026, mais de um quinto dos candidatos a deputado federal decidiu transformar o próprio nome em veículo explícito de identidade profissional, social, setorial, religiosa, temática ou política. O nome não é apenas o modo pelo qual o candidato aparece na urna. Em milhares de casos, é também a primeira frase de sua campanha.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas