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Estudantes
25/9/2026 19:00
Há resultados educacionais que chamam atenção porque mudam muito. Outros deveriam nos inquietar justamente porque quase não mudam. O PISA 2025 (Programa Internacional de Avalição de Estudantes), divulgado neste mês pela OCDE , pertence ao segundo caso.
Os resultados brasileiros em Leitura, Matemática e Ciências permanecem próximos dos patamares de 2015. A pergunta não é porque o Brasil piorou de repente. É outra: como uma década pode passar sem transformação suficiente na aprendizagem?
Em Matemática, 28% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência; em Leitura, 49%; em Ciências, 48%.
Isso não significa que os demais "não sabem". Significa que não demonstraram, nas situações propostas, o patamar básico definido para mobilizar esses conhecimentos.
Aprender não é apenas guardar conteúdos; é reconhecê-los quando o problema aparece com outra forma.
Pensemos numa caixa de ferramentas. Tê-la não resolve um reparo se não sabemos qual ferramenta usar, por que usá-la e como combiná-la com as demais.
O mesmo vale para o conhecimento. Um estudante pode ter estudado porcentagem e não perceber que precisa usá-la numa situação nova. Pode conhecer um conceito científico e não o reconhecer como instrumento para explicar um fenômeno.
Conhecimentos fundamentais e competências complexas não são opostos. Os primeiros oferecem infraestrutura para compreender, mobilizar e transferir o que aprendemos.
Há ainda outra questão que a média esconde. No PISA 2025, os 25% mais favorecidos superaram os 25% menos favorecidos em 96 pontos em Ciências. Entre 2015 e 2025, essa distância aumentou: os favorecidos melhoraram e os desfavorecidos permaneceram estáveis.
A desigualdade educacional não nasce no dia da prova. Ela se acumula em oportunidades distintas de aprender: frequência, trajetória, tempo de aula, professores, apoio, clima escolar, condições materiais e expectativas.
Mas o contexto não determina sozinho o destino. O PISA mostra que cerca de 10% dos estudantes brasileiros desfavorecidos estão entre os 25% de maior desempenho em Ciências no país. A OCDE os classifica como academicamente resilientes.
Esse dado abre uma pergunta mais importante do que um ranking: o que existe na trajetória desses estudantes que os ajuda a romper parcialmente a expectativa do contexto?
Podemos levar a mesma pergunta às escolas. O Saeb permite investigar instituições públicas que atendem populações semelhantes, mas apresentam resultados persistentemente diferentes.
Ainda não demonstramos a existência de "escolas resilientes"; podemos procurá-las com método e perguntar o que gestão, trabalho docente, estabilidade das equipes, clima, acompanhamento e uso dos recursos ajudam a explicar.
Isso não significa romantizar a precariedade. Recursos importam. Contexto socioeconômico importa. Professores e gestão também. A questão é compreender como esses elementos se combinam para ampliar ou restringir oportunidades reais de aprendizagem.
O Saeb 2025 acrescenta uma pista: entre 2023 e 2025 houve melhora em Língua Portuguesa e Matemática nas três etapas avaliadas da rede pública. PISA e Saeb não usam a mesma régua nem respondem à mesma pergunta. A melhora
recente do Saeb diante da estabilidade do PISA não é contradição. É uma agenda de investigação.
Estamos recuperando aprendizagens curriculares antes de recuperar plenamente a capacidade de mobilizá-las? Ainda não sabemos.
Uma década de estabilidade deveria nos obrigar a procurar melhor as respostas: onde a desigualdade começa a se transformar em desigualdade de aprendizagem? Que conhecimentos precisam estar consolidados? O que podemos aprender com quem supera expectativas? E como transformar essas aprendizagens em políticas capazes de chegar à sala de aula?
O PISA 2025 nos oferece menos uma resposta pronta do que uma indicação de onde procurar. Afinal, educação não é encher uma caixa de ferramentas. É fazer com que cada estudante saiba abrir essa caixa, escolher o que precisa e usar o conhecimento para enfrentar problemas que ainda não conhece.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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