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segurança
20/10/2026 18:00
Quando uma única senha abre 58 mil câmeras, o problema deixa de ser a senha. Foi o que o caso do Smart Sampa, programa de videomonitoramento da cidade de São Paulo, deixou claro nesta semana. Credenciais de acesso ficaram expostas na internet por cerca de onze meses e ninguém percebeu. Antes de perguntar quem vazou, vale perguntar por que o vazamento foi possível.
Segundo a nota oficial da Prefeitura, não há fragilidade nos mecanismos de segurança da plataforma e o que houve foi um vazamento ilegal praticado por um único servidor, dentre os mais de 7.500 agentes de segurança. A frase pretende encerrar o assunto, mas acaba por abri-lo. Se um único servidor consegue expor o acesso a 58 mil câmeras, e isso permanece despercebido por quase um ano, o problema não é apenas o servidor. É a arquitetura do sistema que permitiu que isso acontecesse.
Pense em como os documentos sensíveis eram guardados há algumas décadas. Prontuários médicos, processos sigilosos e fichas policiais ficavam em armários de aço, trancados a chave, dentro de salas de acesso restrito. Havia um livro de registro na porta, um funcionário responsável pela guarda e, às vezes, uma câmera no corredor. Quem retirasse uma pasta precisava assinar. E, sobretudo, ninguém conseguia levar o arquivo inteiro de uma só vez no bolso do paletó.
A digitalização transformou esse cenário. Viktor Mayer-Schönberger e Kenneth Cukier deram nome a um fenômeno relevante, a datificação, isto é, a conversão de aspectos da vida cotidiana em dados que podem ser medidos, cruzados e analisados. Um rosto que atravessa a rua vira registro biométrico. Um deslocamento vira coordenada. Um processo judicial vira arquivo pesquisável em segundos.
Os ganhos são inegáveis. Serviços públicos ficaram mais rápidos, a integração entre órgãos se tornou possível e decisões que levavam meses passaram a ser tomadas em dias. O próprio Smart Sampa é apresentado como vitrine dessa eficiência, ao reunir diferentes órgãos em uma central capaz de localizar foragidos e desaparecidos em tempo real. Mas o peso do papel, que antes protegia, desapareceu.
Muitas instituições digitalizaram seus processos às pressas, priorizando a funcionalidade e deixando a segurança para depois. Senhas compartilhadas, permissões amplas demais, ausência de registro sobre quem consultou o quê e nenhuma rotina de auditoria tornaram-se paisagem comum. É como trocar o armário de aço por uma prateleira aberta no saguão e confiar que ninguém vai mexer.
Segurança da informação não é custo acessório, é condição de existência de qualquer serviço digital. Investir nela não se resume a comprar ferramentas. Envolve governança, políticas claras, treinamento contínuo, equipes dedicadas e, principalmente, a disposição institucional de admitir que falhas acontecem e de se preparar para elas.
Um sinal nessa direção veio do Superior Tribunal de Justiça, que anunciou o Programa Confiança Digital, iniciativa de prevenção a irregularidades que abrangerá informações, sistemas e soluções de inteligência artificial. O anúncio chega logo após medidas contra servidores suspeitos de desvios, entre elas a exoneração de um servidor investigado pelo suposto repasse de documentos sigilosos a um advogado. O presidente do tribunal já havia reconhecido publicamente que, em uma instituição com milhares de servidores, seria ingênuo supor que nenhum deles se desviaria.
A Prefeitura tem razão ao dizer que houve conduta individual ilícita e ela deve ser apurada com rigor. Mas atribuir tudo ao servidor é confundir o sintoma com a doença. Em um sistema bem desenhado, a má-fé de uma pessoa encontra obstáculos antes de se converter em dano coletivo. Boas práticas de engenharia de sistemas, como o princípio de security by design, ajudariam a prevenir esse tipo de falha desde a concepção. Nenhum acesso, interno ou externo, nem mesmo o de maior grau hierárquico, deve receber privilégios sem controles.
Aplicada ao caso paulistano, essa abordagem teria mudado a história. O incidente poderia até ter ocorrido, mas dificilmente teria permanecido aberto por quase um ano. Quando um sistema deixa isso acontecer sem que ninguém perceba, a falha não é só de quem agiu; é também de quem desenhou, operou e fiscalizou.
Pessoas erram, se distraem, são enganadas e, às vezes, agem de má-fé. Nenhuma tecnologia elimina isso. O que a boa arquitetura faz é reduzir o impacto do erro humano, garantindo que uma falha individual não se transforme em catástrofe coletiva. Por isso a resposta não pode se limitar a punir o servidor. Precisa incluir o redesenho do sistema, para que o próximo evento seja detectado e contido antes de causar dano. Ao culpar apenas o servidor, a Prefeitura deixa de fazer a pergunta que realmente importa.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.
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