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Eleições
29/10/2026 11:00
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), deixa uma pergunta central: como uma vantagem inicial de mais de 2,2 milhões de votos se transformou em uma vitória superior a 4,4 milhões? Os dados oficiais mostram o tamanho da virada. As causas, porém, continuam em aberto. Para investigá-las, é preciso combinar os resultados com hipóteses sobre mobilização, transferência de votos e organização política.
Uma virada que os números tornam incontornável
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.503 votos, o equivalente a 47,03% dos votos válidos. Lula teve 53.879.538 votos, ou 45,16%. A diferença foi de 2.224.965 votos a favor do candidato do PL. No segundo turno, o resultado se inverteu: Lula recebeu 64.256.232 votos (51,79%), contra 59.826.041 de Flávio (48,21%). A vantagem final de Lula foi de 4.430.191 votos. [1, 2]
Entre as duas votações, Lula acrescentou 10.376.694 votos à sua contagem, enquanto Flávio ampliou a própria votação em 3.721.538. O crescimento de Lula foi quase 2,8 vezes maior. A margem entre os candidatos mudou em 6.655.156 votos, soma da vantagem de Flávio no primeiro turno com a vantagem de Lula no segundo.
Mais eleitores compareceram no segundo turno
A mudança não aparece apenas na votação dos candidatos. O comparecimento passou de 125.275.718 eleitores no primeiro turno para 128.236.074 no segundo: um acréscimo de 2.960.356 comparecimentos, ou cerca de 2,36% em relação à primeira votação. No mesmo período, os votos válidos aumentaram de 119.300.788 para 124.082.273, uma diferença de 4.781.485. [1, 2]
A abstenção caiu de 21,08% para aproximadamente 19,2%. Os votos brancos passaram de 2.300.781 para 1.430.496, e os nulos, de 3.674.149 para 2.723.305. Juntos, brancos e nulos recuaram em 1.821.129 votos. Esses movimentos ocorreram ao mesmo tempo, mas não mostram se eleitores específicos que se abstiveram, votaram em branco ou anularam o voto no primeiro turno escolheram determinado candidato no segundo.
O padrão também chama atenção quando observado historicamente. Segundo levantamento dos dados do TSE, até 2022 o comparecimento havia diminuído no segundo turno em todas as eleições presidenciais com votação em duas etapas desde a redemocratização. A exceção começou a aparecer em 2022, quando houve aumento de 570.424 comparecimentos entre os turnos. Em 2026, a tendência se repetiu, agora com uma elevação líquida próxima de 3 milhões. [3]
Os votos dos candidatos eliminados não eram um bloco único
Eu levanto a hipótese de que uma parcela relevante dos cerca de 9 milhões de votos dados, no primeiro turno, a Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e Augusto Cury fosse predominantemente antipetista e, por isso, tivesse maior probabilidade de votar em Flávio Bolsonaro no segundo turno. Juntos, os quatro candidatos somaram 9.056.092 votos. Para explorar essa possibilidade, considerei inicialmente uma estimativa de 20% de abstenção nesse contingente.
O resultado, entretanto, não confirmou a expectativa mais simples. A votação de Lula cresceu muito mais do que a de Flávio, o comparecimento aumentou e a abstenção diminuiu. Isso põe em dúvida a ideia de que os votos das candidaturas eliminadas migrariam automaticamente para o candidato do PL por uma suposta proximidade ideológica. O antipetismo, quando existe, não significa necessariamente adesão a Flávio. Parte desse eleitorado pode rejeitar os dois candidatos, votar em branco ou nulo, não comparecer ou escolher Lula no segundo turno.
Uma pesquisa divulgada antes da votação ajuda a dimensionar essa questão. Levantamento Meio/Ideia publicado pelo Congresso em Foco em 21 de outubro perguntou a eleitores que declararam ter votado em Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos ou Romeu Zema no primeiro turno sobre sua preferência para o segundo. Entre eles, 58,1% disseram que votariam em Flávio, contra 31,8% em Lula. [5]
Por isso, os resultados agregados não permitem calcular quantos votos de cada candidatura eliminada foram transferidos para Lula ou Flávio. O crescimento das votações pode refletir, em proporções ainda desconhecidas, transferências entre candidatos, comparecimento de eleitores ausentes no primeiro turno e redução dos votos brancos e nulos. Os totais mostram a dimensão do fenômeno, mas não revelam, por si só, sua composição individual.
Mobilização, organização política e estratégia de campanha
Defendo que também é preciso investigar a virada à luz das diferentes formas de organização política e social. O PT e setores da esquerda construíram, ao longo de décadas, vínculos com movimentos sindicais, organizações populares e estruturas partidárias territoriais. Essas redes podem facilitar a comunicação, a coordenação e a mobilização de eleitores, inclusive daqueles que apoiam uma candidatura, mas não compareceram na primeira votação.
Isso não significa que a direita brasileira careça de organização. O bolsonarismo estruturou redes próprias, com articulações digitais, conservadoras e religiosas. Levanto a hipótese de que esses diferentes formatos organizacionais tenham capacidades distintas para transformar apoio potencial em comparecimento e voto efetivo. Também considero a possibilidade de que as estratégias e os posicionamentos adotados pela campanha de Flávio Bolsonaro depois da vitória no primeiro turno tenham sido insuficientes para ampliar o eleitorado para além de sua base consolidada. Os números, isoladamente, não permitem atribuir a virada a nenhuma dessas causas.
Na reta final, as pesquisas também apontavam uma disputa apertada. A média de 14 levantamentos divulgada pelo Congresso em Foco em 21 de outubro indicava 51,2% dos votos válidos para Flávio e 48,8% para Lula. Essa média, porém, não era um novo levantamento e não tinha margem de erro própria. [6]
Como funcionará a governabilidade diante do Congresso?
A reeleição ocorre diante de um Congresso renovado e com forte presença da direita e do Centrão. Em análise publicada em 5 de outubro, o Congresso em Foco projetou 257 deputados de partidos classificados como Centrão na Câmara e 34 senadores desse campo no Senado. A análise apontou que nenhum dos polos ideológicos conseguiria formar maioria sozinho. [7, 8]
Nesse cenário, a governabilidade dependerá da capacidade do governo de construir acordos parlamentares. A relação com lideranças como Davi Alcolumbre, no Senado, e Hugo Motta, na Câmara, pode fazer parte dessa equação, embora o peso de cada interlocutor dependa da configuração institucional e das negociações que vierem a ocorrer. A eleição deixa, portanto, duas questões em aberto: o que explica a capacidade de mobilização que alterou o resultado entre os turnos e como o presidente reeleito transformará a vitória eleitoral em uma base capaz de sustentar sua agenda no Congresso?
Referências
[1] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026. 26 out. 2026. Acessar reportagem: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/presidente-do-tse-anuncia-reeleicao-de-lula-e-faz-balanco-do-2o-turno-das-eleicoes-2026
[2] CONGRESSO EM FOCO. Apuração das Eleições 2026 ao vivo: painel de resultados nacionais, fonte TSE. Resultados do primeiro turno e totalização eleitoral. Acessar reportagem: https://eleicoes2026.congressoemfoco.com.br/apuracao/painel
[3] BARCELOS, Caio. SBT NEWS. Abstenção cai no 2º turno e repete feito histórico de 2022. 26 out. 2026. Acessar reportagem: https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/eleicoes/abstencao-cai-no-2-turno-e-repete-feito-historico-de-2022
[4] TMC. Abstenção cai em 18 estados do Brasil no segundo turno; veja onde mais reduziu. 26 out. 2026. Acessar reportagem: https://tmc.com.br/politica/abstencao-cai-em-18-estados-do-brasil-do-1o-para-2o-turnos-veja-onde-mais-reduziu/
[5] CONGRESSO EM FOCO. Meio/Ideia: Flávio tem 51,1% e Lula, 48,9% a quatro dias da eleição. 21 out. 2026. Acessar reportagem: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/123444/meio-ideia-flavio-tem-51-1-e-lula-48-9-a-quatro-dias-da-eleicao
[6] CONGRESSO EM FOCO. Lula ou Flávio? Como estão as pesquisas a quatro dias do 2º turno. 21 out. 2026. Acessar reportagem: https://www.congressoemfoco.com.br/amp/noticia/123463/lula-ou-flavio-como-estao-as-pesquisas-a-quatro-dias-do-2-turno
[7] CONGRESSO EM FOCO. Nem Lula nem Flávio: a chave do Congresso segue com o Centrão. 5 out. 2026. Acessar reportagem: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/122996/nem-lula-nem-flavio-a-chave-do-congresso-segue-com-o-centrao
[8] CONGRESSO EM FOCO. Flávio e Lula vão ao segundo turno da eleição presidencial. 4 out. 2026. Acessar reportagem: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/122884/flavio-e-lula-vao-ao-segundo-turno-da-eleicao-presidencial
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