Entrar

    Cadastro

    Notícias

    Colunas

    Artigos

    Informativo

    Estados

    Apoiadores

    Radar

    Quem Somos

    Fale Conosco

Entrar

Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigos
  1. Home >
  2. Colunas >
  3. Salman Rushdie e a fragilidade da liberdade | Congresso em Foco

Publicidade

Publicidade

Receba notícias do Congresso em Foco:

E-mail Whatsapp Telegram Google News
LEIA TAMBÉM

João Batista Oliveira

O desafio que Sobral deve enfrentar

João Batista Oliveira

Inclusão por decreto: quando o pluralismo vira suspeito

João Batista Oliveira

Reforma administrativa: uma decisão que pode mudar o rumo da educação

João Batista Oliveira

Tiroteio em Sobral e o verdadeiro gabinete de crise

João Batista Oliveira

SNE: Sistema de Negação da Educação

Salman Rushdie e a fragilidade da liberdade

Salman Rushdie é um cidadão britânico de origem indiana e muçulmana. Em 1989, publicou um livro intitulado “Versos Satânicos”

João Batista Oliveira

João Batista Oliveira

16/8/2022 8:29

A-A+
COMPARTILHE ESTA COLUNA

Na ótica ocidental, a agressão ao escritor Salman Rushdie constitui uma agressão à liberdade de expressão – ambição frágil e que só consegue vicejar quando existe democracia. Uma não existe sem a outra. Mas, como vimos, não basta democracia. É preciso civilidade e vigilância permanente – como reafirmado enfaticamente nas manifestações de 11 de agosto. Essa agressão atinge a todos nós. A história é trágica e curta. Salman Rushdie é um cidadão britânico de origem indiana e muçulmana. Em 1989, publicou um livro intitulado “Versos Satânicos” – obra considerada ofensiva ao Islã. Os aiatolás colocaram sua cabeça a prêmio – mais de 3 milhões de dólares. Num determinado momento, ele se arrependeu de ter publicado o livro. Mais tarde, arrependeu-se de ter se arrependido. Na sua concepção – e de muitos que conhecem os dois lados da história –, seu livro não desrespeita a religião, o Islã, o profeta ou o Corão. Ele critica o regime teocrático, suas interpretações e desvios de rota. Viveu escondido durante quase uma década, mas continuou publicando livros de ficção. Nos últimos 20 anos, começou a reaparecer em alguns eventos públicos – geralmente eventos de cunho literário – até que foi agredido na semana passada. Ironia do destino: foi agredido covardemente dentro de uma instituição dedicada a acolher escritores refugiados... A agressão – em casos como esse – não se limita ao indivíduo. É uma agressão à literatura, em geral. E, mais profundamente, é uma agressão à liberdade de expressão. Aqui entramos na questão de fundo: há limites para a liberdade de expressão? Aos olhos de uma teocracia, as leis divinas e humanas se entrelaçam, predominando as primeiras. Ademais, uma teocracia – como entendida por uma linha de aiatolás do Irã – não encontra limites geográficos, ela se estende aos fiéis e infiéis onde quer que eles estejam. O livro de Rushdie foi considerado pelos aiatolás como um crime de blasfêmia – o próprio autor relaciona versos do Corão ao título do livro. Para estabelecer uma comparação: num regime democrático, há limites da liberdade de expressão – por exemplo, ofender os poderes da República. A ideia de limites à liberdade de expressão é aceita em democracias: o direito de um termina onde começa o direito do outro. Mas não matamos os transgressores – as penas tendem a ser proporcionadas. Numa religião, as penas podem se estender aos seus fiéis onde quer que eles estejam. O problema não está no princípio ou nos limites geográficos – está na dosagem: pena de morte? E, mesmo diante de manifestações que testam os limites – do sagrado, da ortodoxia, da decência, do mau gosto e de tantos outros critérios –, deve haver limites para as sanções – como a exclusão dos hereges do grupo. Desterro, pena de morte ou agressões físicas certamente não se encontram dentro desses limites. Salmon Rashid não foi o primeiro nem será o último a “morrer pela boca”, como se diz popularmente. Sócrates foi condenado à morte por corromper a juventude. No mundo Ocidental, temos exemplos variados de extermínio dos dissidentes – Galileu e Giordano Bruno são apenas dois dos mais famosos entre os que afrontaram a Igreja, e Alexander Soljenitsin por ter afrontado o regime soviético. Nem só de religião se nutre a intolerância. Misturar religião e governo sempre dá briga e confusão. Governo dá poderes e força que a religião não deve possuir. A Inglaterra e os Estados Unidos conseguiram soluções mais adequadas – reconhecem o exercício da religião como um direito das pessoas, mas separam com clareza os poderes de uma e de outra. Mesmo os rituais religiosos da monarquia britânica e sua participação como chefe da Igreja Anglicana, hoje, não passam de um ritual – da mesma forma que o juramento que os presidentes norte-americanos fazem com a mão na Bíblia. Já a Revolução Francesa – ao invés de se contentar com a separação dos poderes – tentou acabar com a religião e mergulhou em lutas intermináveis. Deu no que deu. Mas não vivemos só de intolerância religiosa. No mundo do politicamente correto, a intolerância vem se tornando cada vez mais acentuada. Parte da liberdade envolve assumir os riscos que dela decorrem. E a condição para manter a liberdade é saber conviver com pessoas que pensam de forma diferente da nossa. A agressão a Rashid deve servir de alerta: o que hoje pode ser visto como pequenas intolerâncias logo se transformam em linchamento e exclusão das pessoas. Há um aiatolá vingativo dentro de cada um de nós. É curioso que o primeiro livro que Salmon Rashid publicou logo depois de “Versos Satânicos” foi uma obra-prima sobre o poder da palavra. O livro se intitula “Haroun e o mar de histórias” – leitura deliciosa. Nele, Rashid descreve a perigosa aventura de ir em busca das palavras – as palavras que se desdobram em fantasias e se transformam nas histórias. Histórias que representam o triunfo da liberdade, a alegria de contá-las e o prazer de ouvi-las. As histórias estão lá, emaranhadas num mar de palavras. Mas, para que as histórias e suas versões sejam acolhidas, é preciso haver escuta. É preciso que as palavras sejam acolhidas – mesmo quando expressadas de forma inadequada. Expressadas com prudência e medida. Mas acolhidas, cada vez mais, com tolerância. O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected]. > Leia mais textos do autor
Siga-nos noGoogle News
Compartilhar

Tags

artigo Opinião estado islamico Islã Salman Rushid professor João Batista

Temas

Colunistas Coluna
COLUNAS MAIS LIDAS
Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosFale Conosco

CONGRESSO EM FOCO NAS REDES