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Antônio Augusto de Queiroz
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Antônio Augusto de Queiroz
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Disputa presidencial
5/1/2026 9:00
A arquitetura da campanha para a reeleição - ou para a eleição de um sucessor direto - do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026 não será um projeto estático, definido a priori nos gabinetes do Palácio do Planalto ou da sede nacional do PT. Será, antes, uma construção dinâmica e reativa, cujos alicerces, pilares e ornamentos serão moldados essencialmente por uma variável decisiva: a identidade do principal adversário - aquele com reais perspectivas de romper o primeiro turno e se apresentar como força antagônica no segundo. A tática, o discurso, a composição de alianças e até a própria narrativa histórica que Lula utilizará variarão radicalmente conforme o oponente seja um nome ligado à família Bolsonaro e ao seu núcleo ideológico mais extremado, ou uma figura que possa emergir como alternativa dentro da direita, porém com um perfil mais técnico, pragmático e moderado, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Trata-se, portanto, de um plano de batalha com dois cenários absolutamente distintos, cada um demandando um Lula diferente.
No primeiro cenário, onde o adversário é um herdeiro político direto do bolsonarismo - seja um nome da família, seja um aliado que abrace integralmente seu legado e sua retórica -, a estratégia lulista encontrará seu terreno mais fértil e sua missão mais claramente definida. Diante de um candidato que carrega a pecha de antissistema, defensor de medidas extremadas, negacionista da ciência, polarizador por ofício e subserviente a governos e ideologias estrangeiras, o caminho mais seguro e adequado para Lula será o da construção de uma amplíssima e sólida aliança, transcendendo, e muito, os limites tradicionais da esquerda e do campo progressista.
A campanha se estruturaria, assim, como um grande dique de contenção democrática. O mote central não seria apenas "Lula" ou "os projetos do PT", mas a união de todos os democratas e setores sensatos do país em torno da proteção das instituições, da ciência, dos direitos humanos, do meio ambiente e da própria soberania nacional - valores que seriam apresentados como ameaça iminente e concreta do fundamentalismo e do negacionismo que o adversário encarnaria. O eixo seria defensivo, mas com uma ofensiva retórica feroz. Lula se reposicionaria, mais uma vez, como o estadista conciliador, o guardião da normalidade democrática abalada, a voz da razão contra o delírio, da sensatez contra a aventura.
O esforço narrativo se empenharia em expor, minuciosa e repetidamente, todos os equívocos trágicos do governo Bolsonaro. A campanha não deixaria o eleitor esquecer nem por um dia: a priorização da guerra cultural em detrimento da vida; a submissão voluntarista a potências estrangeiras; o desmonte sistemático das políticas sociais e ambientais; o flerte constante com a violência política; e, o capítulo mais sombrio e gravíssimo, o atentado contra o coração da democracia com a tentativa de golpe de 8 de janeiro, fenômeno diretamente associado ao caldo de cultura do bolsonarismo. Acima de tudo, a narrativa martelaria a tragédia humanitária da pandemia, pintada como fruto direto da negligência criminosa, da politização da saúde e da sabotagem à aquisição de vacinas - omissão que resultou em centenas de milhares de mortes evitáveis, um número que seria lembrado não como estatística, mas como acusação: "Mais de 700 mil vítimas".
Neste quadro, alianças antes impensáveis se tornariam não apenas possíveis, mas necessárias. O campo lulista abriria suas portas de par em par para setores do centrão pragmático, para frações descontentes da centro-direita institucional que temem o caos, para personalidades da academia, das artes, do judiciário e das forças armadas que valorizam a estabilidade. A eleição seria apresentada como um plebiscito: de um lado, a democracia imperfeita, mas viva; do outro, o abismo do autoritarismo, do isolamento internacional e da desintegração social. Lula seria o candidato de uma Frente Ampla, quase uma reedição, em moldes contemporâneos, da campanha das "Diretas Já" ou do espírito de 1989, mas com um adversário claramente definido no espectro da extrema-direita.
Já na segunda hipótese, a de um adversário como Tarcísio de Freitas, o cenário se inverte completamente, e com ele a estratégia de Lula. Tarcísio, oriundo e fiel ao bolsonarismo, apresenta-se como um gestor, um técnico, um conservador moderno que fala a linguagem do mercado, da eficiência e da segurança pública. Ele ultimamente tem evitado externalizar os excessos retóricos e os conflitos ideológicos gratuitos de seu padrinho político, como forma de caracterizar um suposto processo de autonomização em relação ao radicalismo político e ideológica de Jair Bolsonaro, mas isso dificilmente dará certo por conta de sua dependência quase total de votos bolsonaristas. Provavelmente reuniria, desde cedo, o apoio maciço e entusiástico do sistema financeiro, da grande maioria dos setores produtivos privados e de quase toda a constelação de partidos de centro e de direita, ansiosos por uma alternativa viável e "civilizada" ao lulismo.
Diante de um oponente assim, a estratégia do presidente Lula se voltaria bruscamente para um discurso mais demarcado, mais agudamente ideológico e ancorado à esquerda. A "Frente Ampla pela Democracia" perderia urgência e sentido. Não haveria um "perigo bolsonarista" claro a combater, e sim um competidor que disputa no terreno da gestão, da projeção futura e da confiança do establishment. A campanha, portanto, não poderia se sustentar apenas na defesa do passado (a reconstrução pós-Bolsonaro) ou no medo de um retrocesso. Precisaria apresentar um projeto positivo e mobilizador para o futuro. Seria uma nova versão dos pobres x ricos, com ênfase dos pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda.
O foco recairia, com força total, na defesa intransigente das conquistas sociais dos primeiros anos do governo e na promessa de sua ampliação. Lula ressuscitaria e potencializaria seu núcleo discursivo clássico: o combate à fome e à desigualdade, a valorização real do salário-mínimo, a defesa dos direitos trabalhistas e da previdência pública, a proposta de redução de jornada de trabalho, com mudança da escala 6x1 para 5x2 semanais, o fortalecimento das estatais estratégicas (Petrobras, Banco do Brasil, Caixa) como instrumentos de desenvolvimento nacional e de soberania, e a reafirmação do Estado como indutor do crescimento e protetor dos mais vulneráveis.
A oposição "Tarcísio-Sistema Financeiro-Establishment" seria pintada como a reedição, em novos moldes, do projeto neoliberal que, no entendimento da campanha, sempre privilegiou os lucros em detrimento do povo. A narrativa enfatizaria os riscos de um ajuste fiscal severo que cortaria programas sociais, as ameaças de privatizações de empresas públicas lucrativas e estratégicas, e um alinhamento externo subserviente aos interesses do capital internacional. Lula tentaria forçar uma polarização nítida: de um lado, o campo do desenvolvimento com distribuição de renda, do nacionalismo econômico e da prioridade social; do outro, o campo da austeridade fiscal, da financeirização da economia e da prioridade ao mercado.
Neste segundo cenário, a campanha seria muito mais difícil e complexa para Lula. Exigiria dele não apenas ser o símbolo da resistência democrática, mas o formulador de um projeto econômico e social convincente para um quarto mandato, capaz de galvanizar sua base tradicional sem alienar completamente os setores médios que podem se sentir atraídos pela promessa de suposta ordem e eficiência de um Tarcísio. A habilidade de Lula, neste caso, estaria em dosar o tom mais à esquerda, para mobilizar o núcleo duro, com mensagens de equilíbrio fiscal e segurança jurídica, para não assustar os eleitores de centro que eventualmente o apoiaram em 2022 como mal menor.
Em suma, a estratégia de Lula em 2026 é dupla e contingente. É uma estratégia de guerra justa contra o bolsonarismo, onde ele se ergue como patriarca da nação e guardião das instituições, buscando a união mais ampla possível. E é uma estratégia de guerra de trincheiras contra uma direita renovada, onde ele precisa retomar seu papel de líder classista, defensor dos pobres e do Estado desenvolvimentista, em uma disputa clássica entre projetos de sociedade. A identidade do adversário, portanto, não apenas definirá o campo de batalha, mas também qual das muitas faces políticas de Lula - o conciliador nacional ou o campeão dos oprimidos - irá à frente do combate. O candidato e sua estratégia, em certa medida, serão moldados por seu adversário.
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